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A maré virou

Clientes de fundos de investimento começam a se rebelar contra um segmento ultrapassado

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The Economist

30 Março 2016 | 05h00

Há décadas, cuidar do dinheiro dos outros é uma atividade altamente lucrativa. Em 2014, segundo a consultoria BCG, as margens do segmento de administração de ativos chegaram a 39%. A título de comparação, no setor de bens de consumo e na indústria farmacêutica, elas foram de 8% e 20%, respectivamente. Em termos mundiais, os lucros das gestoras de ativos atingiram a cifra estimada de US$ 102 bilhões em 2014, permitindo que elas pagassem a seus operadores nas bolsas de valores americanas um salário médio anual de cerca de US$ 690 mil. Melhor ainda, o crescimento é acelerado: o segmento administra hoje US$ 78 trilhões em todo o mundo, e pode ter sob seus cuidados mais de US$ 100 trilhões até 2020.

Apesar disso, para muitas administradoras de ativos as perspectivas não são muito animadoras. O setor passa por uma reformulação, resultado da chegada de gestoras que operam com modelos de baixo custo. Ao mesmo tempo, com os mercados em queda, o volume de ativos administrados encolheu, afetando as taxas de administração, que são calculadas com base em porcentuais dos ativos investidos. Além disso, as autoridades estão tentando impedir que gestoras ofereçam aos clientes produtos impróprios, os quais, com frequência são os mais lucrativos.

Os desafios são maiores para as gestoras adeptas dos chamados “fundos ativos”, que se propõem a obter um desempenho melhor que o dos indicadores de referência do mercado (como o índice S&P 500, por exemplo). Poucas conseguem cumprir a promessa: estudo da Standard & Poor’s que, entre outras coisas, é responsável pela compilação do S&P 500, mostra que 91% dos fundos ativos que investem em ações de mercados emergentes tiveram, ao longo de dez anos, desempenho pior que o de seus respectivos índices de referência. E 95% dos fundos ativos que operam no mercado de títulos tiveram performance aquém da esperada.

Isso não surpreende: seria improvável que, na média, esses fundos conseguissem superar os índices de referência antes de serem descontadas suas taxas de administração. Uma vez subtraídas essas comissões, portanto, a performance tende a ser inevitavelmente inferior. De fato, segundo a provedora de dados Morningstar, a cobrança de taxas de administração elevadas é um fator que permite prever desempenhos abaixo do esperado.

Golpe baixo. Quando os mercados estão em alta, os clientes raramente sentem o impacto das taxas de administração, o que protege os lucros das administradoras de recursos. No ano passado, porém, a maioria dos mercados terminou o ano estável ou em baixa. A consultoria McKinsey diz que, em 2015, a maior parte das gestoras americanas tiveram margens de lucro e crescimento menores. Paul Smith, da associação de consultores financeiros CFA Institute, diz: “Agora a maré baixou e o imperador está nu”.

Isso talvez ajude a explicar alguns resgates de grande monta realizados recentemente. Nos EUA, segundo a Morningstar, os fundos ativos perderam mais de US$ 100 bilhões, embora os fundos “passivos” — que têm por objetivo apenas acompanhar a movimentação de determinado índice de referência do mercado — tenham captado US$ 400 bilhões. A situação foi agravada pelo fato de que os fundos soberanos de alguns países ricos em recursos naturais se desfizeram de ativos para compensar a perda de receitas provocada pela queda nos preços das commodities. As gestoras especializadas em ações de mercados emergentes tiveram desempenho particularmente ruim, com a Aberdeen e a Ashmore perdendo 14% e 19%, respectivamente, do total de ativos por elas administrado.

Vigilância. O aumento da regulamentação e a tecnologia ampliam os desafios para as administradoras que atualmente dominam o segmento. Logo após a crise financeira, a atenção das autoridades estava concentrada nos bancos. Agora elas começam a olhar para as gestoras de ativos, submetendo-as a um exame abrangente, que vai da transparência em relação às taxas de administração à liquidez dos investimentos. Nos EUA, o Departamento do Trabalho pretende implementar uma mudança legislativa até o fim deste ano, obrigando a maior parte dos profissionais da área financeira a sugerir investimentos que sejam não somente “adequados” — como determina a lei em vigor —, mas também “no melhor interesse” dos clientes. Isso dificultará a recomendação de investimentos em fundos que remuneram esses consultores financeiros com comissões. A Grã-Bretanha adotou mudança semelhante em 2013. Os demonstrativos dos fundos também terão de informar aos clientes quanto eles estão pagando em taxas de administração.

Normas desse tipo terão impacto significativo sobre os modelos de negócios. Muitos investidores começarão a escolher fundos por conta própria, coisa que deve beneficiar as plataformas online que atuam no segmento de varejo, prevê a consultoria PricewaterhouseCoopers. Os consultores financeiros já não serão incentivados a empurrar para os clientes produtos caros e de méritos duvidosos, impulsionando as alternativas de baixo custo, como os fundos passivos.

Por sua vez, os investidores institucionais vêm operando com número cada vez menor de gestoras de recursos. O fundo de pensão britânico RPMI Railpen recorria aos préstimos de 20 administradoras externas em 2013. Hoje são apenas sete. Segundo levantamento da prestadora de serviços financeiros State Street, quatro em cada cinco fundos de pensão pretendem incrementar seus departamentos internos de gestão de ativos. Os investidores também estão reavaliando sua exposição a fundos de hedge e de private equity que cobram taxas de administração elevadas. O CalPERS, fundo de pensão dos funcionários públicos da Califórnia, dispensou os serviços de suas administradoras de fundos de hedge. De 2008 para cá, o PGGM, que administra os recursos do fundo de pensão dos cidadãos holandeses, cortou pela metade os desembolsos destinados a investimentos em infraestrutura, optando por realizá-los diretamente. Alguns fundos de pensão estão se juntando para negociar com as administradoras e obter taxas de administração mais favoráveis.

Talvez investidores tenham agora retornos tão polpudos quanto os de executivos das gestoras
A tecnologia também permite que as estratégias dos fundos ativos sejam reproduzidas com custos significativamente mais baixos. Veja-se o caso dos fundos operados por “value managers”, que dizem conseguir obter desempenho melhor que a média do mercado investindo em ações baratas. Programas de computador são capazes de vasculhar as bolsas de valores à procura de ações que pareçam baratas em relação a seus lucros, ativos ou dividendos; os investidores não precisam se preocupar com a possibilidade de que sua gestora perca o foco ou mude de estratégia. Quando se trata de escolher entre diferentes mercados, consultores robóticos, que fazem uso de modelos de computador, podem ajudar os investidores a administrar seu patrimônio em troca de módicas taxas de administração. No início de março, o banco Goldman Sachs tornou-se a primeira grande instituição financeira a adquirir um sistema desse tipo.

As taxas de administração cobradas por fundos ativos de ações vêm recuando lentamente, tendo caído 4% para investidores de varejo entre 2012 e 2014, segundo a BCG. Mas a concorrência oferecida pelos fundos passivos é intensa: no mesmo período, as taxas cobradas por esses fundos tiveram queda de 20%. Sobre o valor total investido, o grupo Vanguard, especializado em fundos que acompanham índices, atualmente cobra uma taxa de 0,18%, o que representa um quinto do porcentual cobrado por esse mesmo grupo em 1975.

Os investidores de varejo cada vez mais optam por instituições como o Vanguard, atraídos por soluções baratas em fundos de índices de ações ou fundos multiativos (que mesclam ações, títulos e outros investimentos), em vez de contratar os serviços de especialistas em ações. Administradoras de recursos especializadas em fundos passivos, como os grupos Vanguard e BlackRock — que também operam com fundos ativos — são as que mais têm a ganhar com a reformulação por que passa o setor. Em 2015, os dois grupos abocanharam quase metade da entrada líquida de recursos. As perspectivas para os novos participantes também são boas: na China, aproveitando-se do reconhecimento conquistado por suas marcas, algumas empresas de tecnologia entraram no ramo de administração de ativos. Em 2014, um fundo lançado pelo Alibaba rapidamente captou US$ 90 bilhões junto a mais de 100 milhões de investidores.

Algumas gestoras especializadas em fundos ativos com desempenho acima da média, como o fundo de hedge Bridgewater, continuarão atrair clientes. Mas para as que não conseguem acompanhar o mercado será impossível estancar a perda de recursos. Para os investidores, é uma boa notícia: talvez o segmento finalmente comece a oferecer retornos tão polpudos para eles como os que proporciona para seus executivos.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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