À margem do meio

Repúdio da população aos corruptos encastelados deverá se impor, tornando o apoio de Temer um enorme passivo

Monica de Bolle, O Estado de S.Paulo

04 Outubro 2017 | 05h00

“É a economia, estúpido!”, frase de James Carville, estrategista de Bill Clinton, marcou uma era. A era breve em que a economia se sobrepôs à política, às guerras de valores, às “guerras culturais” que chegam ao Brasil com certo atraso. A frase, tão anos 90, não mais ajuda a entender as tensões, a raiva, o repúdio ao establishment que têm caracterizado as reviravoltas políticas mundo afora. Trump não foi resultado de uma economia mal gerida – os EUA já apresentavam anos de recuperação quando de sua surpreendente vitória. O Brexit tampouco resultou de fracassos econômicos, bem como a ascensão do partido de ultradireita alemão, o AfD, não pode ser atribuída a inexistentes erros econômicos do governo Merkel. Em todos esses casos prevaleceram valores, questões de identidade, e outros fatores políticos e culturais ortogonais à economia. O alardeado aumento da desigualdade como explicação para esses acontecimentos surpreendentes, sobretudo nos EUA e na Grã-Bretanha, perde força quando se considera que a distensão da distribuição de renda precede a crise de 2008.

Se as evidências mundo afora revelam que as preferências dos eleitores, hoje, têm maior relação com fatores não econômicos do que econômicos, por que haveria de ser diferente no Brasil? Sobretudo nesse Brasil destroçado pela corrupção? Por que haveria de ser diferente em um país onde a desconfiança em relação ao establishment está exacerbada pelos escândalos em profusão e escala jamais vistos?

Faço-me essas perguntas por notar no Brasil, entre determinados setores da sociedade, profunda desconexão com o que revelam as pesquisas de opinião e as pesquisas de intenção de voto para as eleições de 2018. A narrativa esperançosa que prevalece no mercado, alimentada por alguns economistas, cientistas políticos e formadores de opinião, é que a recuperação econômica que começa a despontar será suficiente para mover mentes e corações em outubro do ano que vem.

Segundo esse raciocínio, eleitores dar-se-ão conta de que a continuidade do crescimento, da melhora no mercado de trabalho, da inflação baixa, apenas serão possíveis com a vitória de um candidato do meio, o meio reformista. Caso a profecia se concretize, não há por que temer o descalabro fiscal armado por Dilma e acentuado por Temer – afinal, haverá solução com uma equipe econômica responsável, indicada pelo vencedor “centrista”.

São muitas as falácias dessa narrativa. De um lado, há a crescente rejeição ao governo Temer apontada pelas mais recentes pesquisas de opinião. Difícil acreditar que um governo tão carente de aprovação e com imenso índice de rejeição seja capaz de apoiar candidatos em 2018. Dito de outro modo, ainda que o governo possa se vender como o fiador da melhoria econômica, o repúdio da população aos corruptos encastelados deverá se impor, tornando o apoio de Temer não um ativo, mas enorme passivo. De outro, há indícios claros de que a sociedade clama por alguém que represente a “mudança”, independentemente do que esteja acontecendo na economia. Entre determinadas faixas de renda e regiões do País, Jair Bolsonaro desponta como candidato da “mudança”. Para os mais pobres e para os nordestinos, Lula ainda simboliza a mudança, pois, afinal, foi no seu governo que houve melhorias significativas na vida dessas pessoas. É provável que Lula não seja candidato viável em 2018. Contudo, isso não aumenta as chances de qualquer candidato que queira se autodenominar “centrista”, pois os que aí estão não são vistos como agentes de mudança, à possível exceção de Marina Silva.

O elevado grau de pulverização do suposto centro reformista tampouco casa bem com a ideia de que um desses candidatos chegue ao segundo turno, ou, mesmo que chegue, que possa enfrentar o discurso da lei e da ordem, antiestablishment, de Jair Bolsonaro. Bolsonaro não tem agenda econômica – o pouco que disse remonta ao velho nacional-desenvolvimentismo pregado por outros partidos. Mas a ausência de propostas para a economia não deverá ser fator decisivo – ou mesmo de segunda ordem – nas eleições. Quem acredita em James Carville, preso está aos anos 90, fadado poderá estar a ver sua versão Clinton esmagada pelo forasteiro.

Disse Fernando Pessoa que o gênio, o crime, a loucura representam de diferentes maneiras, uma inadaptabilidade ao meio. Não temos gênios, mas crime e loucura temos de sobra. Extinguir essa inadaptabilidade ao meio começa pelo duro reconhecimento da realidade.

* ECONOMISTA, PESQUISADORA DO PETERSON INSTITUTE FOR INTERNATIONAL ECONOMICS E PROFESSORA DA SAIS/JOHNS HOPKINS UNIVERSITY

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