Mike Segar/Reuters
Mike Segar/Reuters

'A nota não muda este ano, a não ser que ocorra algo inesperado'

Vice-presidente da Moody’s diz que a dívida brasileira só deve se estabilizar no fim do governo Dilma

Entrevista com

Mauro Leos, vice-presidente da Moody's

Álvaro Campos, Francisco Carlos de Assis, O Estado de S. Paulo

11 Agosto 2015 | 21h58

A Moody’s só espera uma estabilização da relação dívida bruta/PIB no fim do mandato da presidente Dilma. Nesta terça-feira, 11, a agência de classificação de risco rebaixou a nota de crédito do Brasil para "Baa3", um patamar antes do grau especulativo. Mesmo assim, isso não significa que o País perderá o grau de investimento. “A menos que algo muito inesperado aconteça, o rating não deve ser alterado este ano”, disse Mauro Leos, vice-presidente da Moody’s, em entrevista ao Broadcast, serviço de informações da Agência Estado.

Quais foram os principais motivos para o rebaixamento? 

O primeiro é a deterioração do perfil de risco do Brasil, que está relacionada com o fraco crescimento. O crescimento está mais fraco do que antecipávamos e continuará fraco durante o resto do governo. Também temos resultados fiscais mais fracos do que o previsto. Não apenas a arrecadação, que é importante, mas também os gastos no médio prazo. Boa parte dessa fraqueza fiscal está relacionada à tendência dos gastos obrigatórios. Outro fator que levou ao rebaixamento é o fraco consenso sobre as reformas políticas. Tudo isso resulta em um perfil de crédito pior do que antes. O perfil é mais fraco, não só em bases absolutas, mas também em bases relativas. Quando comparamos com outros países com rating na faixa Baa, o Brasil tem indicadores fiscais mais fracos. Para a relação entre dívida e PIB estabilizar, o Brasil precisa de um crescimento de 2% e um superávit primário de 2%. Isso não vai acontecer este ano e não vai acontecer no próximo ano. Só no médio prazo, 2017, 2018, deve chegar nisso. Isso significa que a dívida vai continuar subindo, para perto de 70% em 2018. Esse nível está entre os mais altos dos países com rating Baa.

Por que a perspectiva ficou estável? 

Há um equilíbrio entre os fatores positivos e negativos. O Brasil é resistente a choques externos. Quando olhamos para a categoria Baa, vários países têm problemas no balanço de pagamentos e choques externos podem ter impacto significativo na economia. O Brasil é o oposto, é muito forte em termos de contas externas. A maior parte do déficit é financiada por investimento estrangeiro direto. Há um nível elevado de reservas internacionais. Para cada dólar que precisa pagar de dívida externa, tem quatro dólares em reservas, uma das maiores relações em economias emergentes. O governo tem uma exposição relativamente baixa à dívida externa. Esses elementos compensam os fatores negativos.

Qual o papel da crise política nesse rebaixamento? Vocês consideram em algum cenário o impeachment da presidente Dilma?

Fatores políticos sempre entram na conta dos ratings. Um dos fatores que nós incorporamos no rating do Brasil está relacionado ao fraco consenso político para reformas. A tensão entre o Congresso e o governo está tornando a vida difícil. Nós vemos isso todo dia. Isso é capturado nos números fiscais, porque o ministro Joaquim Levy não tem conseguido aprovar tudo o que queria, e também afeta os números de investimentos. A confiança dos investidores estava baixa no ano passado e continuou a cair este ano, e isso causa impacto no crescimento. Podem existir cenários extremos, eventos extremos, como o que você mencionou. O que avaliamos é a situação atual, os problemas, o grau de tensão, e tentamos incorporar isso no rating. Quem sabe o que vai acontecer? Acreditamos que os números que vemos já capturam uma parte importante do risco político.

A perspectiva estável do rating significa que não devemos ter alterações este ano? 

A menos que algo muito inesperado aconteça, sim. Até além deste ano. Uma consideração muito importante para a perspectiva estável é a análise sobre o que vai acontecer após 2016. Esperamos uma recuperação cíclica na segunda metade de 2016. O crescimento continuará baixo, mas será uma recuperação, e isso deve ajudar na arrecadação. Esperamos que juros e inflação caiam no próximo ano. Porém, se nossa expectativa de melhora gradual no próximo ano e de estabilização nas condições em 2017 estiver errada, e os juros continuarem a subir e a economia continuar a cair, teremos de rever nosso rating. Contanto que o desempenho da economia e das contas públicas esteja em linha com o que pensamos, há elementos para apoiar a perspectiva estável, não só para este ano, mas o próximo.

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