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A pedido da Suíça, delator do HSBC é preso na Espanha

Hervé Falciani, que delatou mais de 100 mil contas sob suspeita do banco, já havia sido condenado a cinco anos de prisão na Suíça

Jamil Chade, correspondente, O Estado de S.Paulo

04 Abril 2018 | 15h58

GENEBRA - Hervé Falciani, o homem que delatou mais de 100 mil contas sob suspeita do banco HSBC na Suíça, foi preso nesta quarta-feira em Madri, a pedido da Justiça da Suíça. Ele já havia sido condenado a cinco anos de prisão na Suíça, depois de ter sido julgado por revelar dados confidenciais de milhares de clientes da instituição. 

Suas revelações ficaram conhecidas como "Swissleaks" e envolveram dezenas de brasileiros. Mas o Ministério Público em Berna o acusou de violação do segredo bancário. Ex-funcionário do banco HSBC, ele foi condenado por espionagem industrial e econômica.

Depois de passar pela França e ajudar a Justiça local a identificar evasores, ele passou a viver na Espanha, realizando o mesmo trabalho de cooperação. Seus nomes permitiram que a Fazenda espanhola recuperasse 260 milhões em impostos. 

Agora, porém, os espanhóis optaram por atender ao pedido dos suíços e considerar sua extradição. O caso ocorre no mesmo momento em que a Suíça se recusa a prender e extraditar suas ex-deputadas condenadas no caso do processo de independência da Catalunha, Anna Gabriel e Marta Rovira.

No caso de Falciani, sua prisão é mais uma reviravolta na vida de um personagem repleto de polemicas.  Nascido em Mônaco em 1972, ele sempre viveu perto dos bancos. Trabalhar no setor financeiro, segundo ele, foi uma "opção óbvia". Mas tudo começaria a mudar quando, em 2006, foi transferido do escritório do HSBC no principado para o banco em Genebra. 

Segundo seu depoimento à Justiça francesa, obtido pelo Estado, Falciani começou a coletar os dados sobre as contas secretas ainda em 2006 e, até 2007, havia copiado as mais de 100 mil informações. Sua estratégia era sofisticada. Ele não possuía qualquer tipo de pen drive ou de discos. Tudo era enviado a servidores de aliados em diversos países do mundo. 

No início de 2008, sua história começou a ganhar contornos de uma aventura. Numa manhã gelada em Genebra, sua caminhada até o trabalho foi interrompida por uma van que parou ao seu lado. Homens saíram do veículo e exigiram que Falciani os acompanhasse até o subsolo de um prédio abandonado. 

Eles se apresentaram como supostos representantes do Mossad, o serviço secreto israelense, e sugeriram que fizesse uma viagem até o Líbano para consultar bancos locais e oferecer a venda de dados de grandes clientes. Aquela seria a porta para ter acesso às contas dos bancos libaneses e, portanto, saber de que forma organizações terroristas lavavam dinheiro.

Meses depois, Falciani faria a viagem com uma de suas colegas, Georgina Mikhael. Eles criaram uma empresa de fachada, abriram um site e ainda ofereciam serviços personalizados. Em quatro reuniões com banqueiros libaneses, Georgina se apresentaria com seu próprio nome, enquanto Falciani optou por um nome falso. 

A viagem de Georgina chamou a atenção dos serviços de inteligência da Suíça e, ao retornar para Genebra, a colaboradora foi interrogada. Em seu depoimento, indicou que era a amante de Falciani (casado e com uma filha) e o entregou. Questionada pela polícia, ela também revelaria que Falciani teve sempre a intenção de roubar os dados do HSBC desde que entrou para o banco e sua meta era vendê-los para enriquecer. Para a Justiça suíça, a venda do arquivo era também seu objetivo. 

Em 22 de dezembro de 2008, entregue por sua companheira, ele seria algemado e levado pela polícia de Genebra para um interrogatório diante da suspeita de que teria roubado os dados bancários do HSBC. 

Fuga. Com 36 anos, Falciani respondeu por horas sobre como e o que teria feito com os dados bancários. Ao final de um longo dia, a polícia de Genebra o autorizou a voltar para sua casa. Mas exigiu que, pela manhã do dia seguinte, Falciani estivesse de volta à delegacia para mais perguntas e, eventualmente, um indiciamento. 

Assim que deixou a polícia, porém, Falciani alugou um carro, buscou a mulher e a filha e atravessou a fronteira da Suíça com a França. 

Na França, ele começou a fazer um vasto download das informações que tinha roubado e que estavam espalhadas em servidores pelo mundo. Um total de cinco CDs foram produzidos e entregues a autoridades francesas e americanas. Elas sugeriram que Falciani saísse da França e fosse viver na Espanha, já que Madri não extraditaria ninguém por conta de um crime de violação do segredo bancário. 

Mesmo assim, em 2012, a polícia espanhola cumpriu uma ordem de prisão internacional emitida pela Suíça e Falciani passou cinco meses na cadeia. Mas também acabou sendo liberado. 

Em suas explicações, Falciani sempre faz questão de justificar que queria revelar "a verdade sobre os bancos". Garantindo que jamais vendeu a lista, ele mesmo se compara a Edward Snowden, ex-funcionário da CIA que, ironicamente, também em Genebra, roubou os dados da diplomacia americana e, em 2013, revelou ao mundo como funcionava a maior potência do planeta. 

"É fundamental que existam pessoas que contem a verdade e que mostrem os problemas sistêmicos que enfrentamos", disse em entrevista ao Le Monde. Para ele, bancos como o HSBC "criaram um sistema para enriquecer às custas da sociedade, ajudando a promover a evasão fiscal e a lavagem de dinheiro”

Brasil. Delator do escândalo do HSBC, ele havia alertando ainda em 2015 ao Estado que “dezenas” de nomes iam ainda surgir na Operação da Lava Jato, no que se refere às contas no exterior.  

“Mais que novos nomes, vamos entender os mecanismos usados e nos dará a oportunidade para entender e prevenir os futuros escândalos”, disse. Para Falciani, o cidadão comum está “longe de conhecer o que se passa no caso da Petrobrás e HSBC". "O Brasil só agora começa a ver o aspecto mais amplo das finanças”, disse. “Temos como agir. Graças ao contexto que existe no Brasil, temos muito a fazer.” 

No Brasil, uma CPI foi instaurada para investigar o escândalo envolvendo o HSBC e correntistas brasileiros. Em agosto de 2015, o francês foi a última testemunha ouvida pelos senadores por meio de um teleconferência. Falciani disse aos parlamentares que o número de brasileiros com contas na filial do banco ultrapassa muito os 8,7 mil que se conhecia até aquele momento. Na ocasião, ele se disse disposto a compartilhar seu banco de dados com os parlamentares e a colaborar nas investigações. Ainda assim, os senadores não ficaram convencidos. 

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