‘A procura pela caderneta cresceu muito'

‘A procura pela caderneta cresceu muito'

Oliveira, dono de mercadinho no ABC, recusa pedidos, pois o desemprego é alto na região

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

19 Março 2017 | 05h00

Edilson de Oliveira, dono do Mercadinho Sambelar, no bairro Vila Jerusalém, em São Bernardo do Campo (SP), tem enfrentado tempos difíceis. Desde que abriu a pequena loja com dois caixas, há 21 anos, aceita vender na caderneta para os moradores conhecidos do bairro. A venda fiado para conhecidos era uma forma de fidelizar a clientela, oferecendo um atrativo em relação à loja do hipermercado Carrefour que fica na vizinhança.

Mas, de um ano e meio para cá, Oliveira tem desempenhado a difícil tarefa de recusar esse tipo de venda para desconhecidos. E não são poucos os que têm procurado a loja para comprar pela caderneta. “Recebo entre 10 e 15 ligações por mês de gente pedindo fiado. Outros vem à loja e encontram clientes marcando a compra na caderneta e também querem o mesmo benefício. A procura pelo fiado aumentou muito”, conta o microempresário.

Ele diz que chegou a aprovar abertura de novas cadernetas, mas pelo fato de não conhecer bem esses clientes, que são moradores novos do bairro, decidiu recusar a venda, com medo do calote.

Oliveira explica que a renda da população da região é muito dependente do desempenho da indústria automobilística. “Estou muito próximo da Volkswagen e não muito longe da Ford. Essas foram as primeiras empresas a cortaram funcionários por conta da crise. Há muitos desempregados por aqui.”

Apesar da resistência em aprovar novas cadernetas para pessoas desconhecidas, o microempresário conta que o número de clientes que compram fiado dobrou entre as pessoas do seu relacionamento. Antes da crise, eram cerca de dez cadernetas, e hoje chegam a vinte. “Aceito fiado só de gente que conheço, morador do bairro.”

A maior cautela na aprovação do fiado não tem garantido a pontualidade dos pagamentos. Segundo Oliveira, quem pagava a caderneta quinzenalmente às vezes demora agora entre 20 e 25 dias para quitar as pendências. Também aqueles que pagavam mensalmente estão atrasando, demoram 40 dias para liquidar a caderneta e algumas vezes parcelam o débito. “Está difícil para todo mundo.”

Bom negócio.  Se não fosse a crise, o risco maior de inadimplência e a dificuldade de obter capital de giro, o microempresário acredita que a venda por meio de caderneta valeria a pena. Segundo Oliveira, quando o consumidor compra para pagar na caderneta, ele gasta mais. “No final do mês, ele percebe que gastou além da conta e que, se tivesse pago na hora, não iria gastar tanto.”

Oliveira diz que não tem planos de acabar com a venda por caderneta. No entanto, não quer que ela cresça, porque a empresa não tem retaguarda financeira para bancar esse tipo de negócio. “Se tivesse um bom capital de giro, abriria mais cadernetas.”

Uma das vantagens da caderneta em relação à aceitação do cartão, apontada por Oliveira, é o fato de não ter de pagar taxa de administração. No débito, a taxa é de 1,8% sobre a transação e no crédito, de 2,6%. A contrapartida dessa despesa é a garantia de recebimento. Mas, pela experiência de Oliveira, ninguém deixa de pagar a caderneta e, mesmo com atraso, é bom negócio.

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