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A produtividade andando para trás

Desde o início dos anos 2000 ocorre, no País, de forma sistemática, o aumento da remuneração do trabalho a uma velocidade superior à da nossa produtividade. Com o custo unitário do trabalho elevado e o índice de produtividade sendo baixo, não é possível uma empresa ser competitiva. Essa é a realidade de boa parte das companhias no Brasil.

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Sérgio Amad Costa*

27 Janeiro 2016 | 08h21

O modelo econômico adotado, tanto no período do governo do então presidente Lula quanto no primeiro governo da presidente Dilma, procurou fazer o País crescer fundado apenas no aumento de empregos. Manteve-se, assim, com ausência de reformas estruturais e uma série de custos sistêmicos, refletindo no grau de confiança dos empresários e, consequentemente, em queda sensível dos investimentos. Tal quadro não poderia deixar de afetar, significativamente, a produtividade do trabalho e também a produtividade total dos fatores na produção.

Verifica-se, no caso da indústria, o quanto é alarmante a situação. Estudo realizado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que no período 2002 a 2012 o Brasil teve taxa média de crescimento do índice de produtividade, por ano, de 0,6%, o menor na comparação feita pela pesquisa com outros 11 países concorrentes. Na Coreia do Sul, por exemplo, o crescimento médio por ano foi de 6,7% e nos EUA, de 4,4%. Quanto ao custo unitário do trabalho, o Brasil ficou em primeiro lugar em termos de elevação, na pesquisa, com um aumento de 9% ao ano.

No que diz respeito somente à indústria de transformação, esse setor há décadas vem perdendo produtividade no trabalho. Estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) assinala que nos últimos 30 anos a produtividade caiu 15%. No Chile, ao contrário, ela aumentou 82,11%.

Mas a baixa produtividade não é um problema apenas do setor industrial do País. Ela afeta as empresas em geral. Relatórios do Centro de Pesquisa Internacional Conference Board mostram a forte desaceleração da produtividade total dos fatores no Brasil. Em 2011, o índice brasileiro recuou 0,4%, bem abaixo, por exemplo, da média dos demais países emergentes. E em 2012, 2013 e 2014 continuou a cair, respectivamente, 1,9%, 0,9% e 2,3%.

No que concerne à produtividade do trabalhador brasileiro, o Conference Board revela que ela também recuou do início dos anos 2000 para cá, além de permanecer significativamente menor, comparada à de trabalhadores de outros países. Hoje, por exemplo, o trabalhador brasileiro apresenta 24% da produtividade do trabalhador norte-americano, 40% da do sul-coreano, 51% da do chileno e 59% da do russo.

Todos esses números mostram que a produtividade no Brasil se mantém baixa e em ritmo de queda. A reversão deste quadro é uma tarefa extremamente complexa. Se olharmos só para dentro da empresa, de nada adianta ter novas tecnologias se não houver profissionais preparados para elas. O mesmo ocorre se existirem profissionais qualificados sem a aquisição de novas tecnologias. E, inevitavelmente, pouco vai adiantar se ela contar com colaboradores capacitados, novas tecnologias, porém sob um sistema de gestão inadequado e que desmotiva os empregados no trabalho.

Mas a produtividade almejada pela empresa não depende apenas de fatores internos da companhia. É necessário que o País esteja focado no objetivo de criar condições favoráveis para elevação da capacidade produtiva das organizações. São muitos os fatores, porém destaco os básicos e imprescindíveis: estimular investimentos significativos em tecnologia e inovação; promover a educação também alinhada com as necessidades do mundo empresarial; investir maciçamente na infraestrutura; eliminar disfunções da burocracia; e valorizar a competição externa. Cuidando desses fatores, creio, já poderíamos começar a andar para a frente em termos de produtividade. Todavia, não sou ingênuo de achar tal tarefa factível no momento atual. Mas mais cedo ou mais tarde nós teremos de cuidar disso.

*Sérgio Amad Costa é professor de Recursos Humanos e Relações Trabalhistas da FGV-SP

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