A provável subestimativa do PIB

Crescimento real pode estar sendo subestimado desde a segunda metade dos anos 90

Claudio Adilson Gonçalez, O Estado de S.Paulo

05 Junho 2017 | 05h00

Há pelo menos dois anos Bráulio Borges, economista da LCA Consultores e pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), argumenta que o índice de inflação usado pelo IBGE nas contas nacionais – ou seja, o deflator do PIB (DP) – está superestimado. Dado que o valor nominal do PIB, no cálculo definitivo, é bem apurado, o que estaria sendo subestimado seria o crescimento real, ou seja, o volume de bens e serviços produzidos na economia.

Se isso for verdadeiro, há enormes consequências para a análise da economia brasileira, tais como nosso entendimento sobre o crescimento econômico e a evolução da produtividade nas últimas décadas e, pois, sobre as expectativas para o comportamento dessas variáveis no futuro. Seriam também afetadas (para melhor) várias projeções de indicadores fiscais expressos como porcentuais do PIB, tais como resultado primário, gastos e déficit da Previdência e endividamento público.

Durante muito tempo fui cético sobre a pesquisa de Bráulio. Minha visão mudou, recentemente, quando me inteirei melhor do trabalho do pesquisador. E nisso estou bem acompanhado. O tema foi abordado na Carta de Conjuntura de abril, da revista Conjuntura Econômica, respeitada publicação do Ibre.

O ponto de partida da pesquisa é a constatação de que, nos últimos 25 anos, o DP supera a inflação oficial (IPCA) em 1,4 ponto porcentual, tanto na média como na mediana. Claro, não há por que esses índices devam ser iguais, já que estimam a evolução de preços de diferentes cestas de bens e serviços e por metodologias não coincidentes. Mas em nenhum país do mundo tal diferença é tão grande e, na sua grande maioria, as variações do DP ficam aquém das observadas nos índices de preços ao consumidor. Esse viés para baixo do DP decorre, principalmente, do fato de esse indicador levar em conta a substituição, pelo consumidor, dos bens que tiveram elevação de preço relativo, o que não ocorre com os índices de custo de vida. Além disso, mesmo quando se trabalha só com a parte do DP que mede a variação dos preços dos bens e serviços de consumo – o deflator do consumo –, a diferença ainda é grande, com o IPCA correndo aproximadamente 1 ponto porcentual ao ano, a menos.

Mas não seria o IPCA que subestimaria a inflação, em vez de o DP superestimá-la? É pouco provável. Há vários índices que medem a inflação ao consumidor (IPC-FGV, IPC-Fipe, cesta de consumo do Banco Mundial, entre outros) e todos convergem, a longo prazo.

O IBGE calcula, de forma preliminar, as variações trimestrais nominais e reais do PIB. Esse cálculo se baseia principalmente em pesquisas mensais da indústria, do comércio e dos serviços. Tais indicadores não são muito apropriados para medir a evolução do PIB, principalmente da indústria. Até aí, nenhum problema maior, dado que são preliminares. Dois anos depois, o IBGE tem informações de pesquisas anuais muito mais confiáveis e apura, de forma acurada, o valor nominal do PIB. O problema é que, diferentemente da orientação internacional, que recomenda deflacionar o PIB nominal por deflatores apropriados para obter o PIB real (volume), o IBGE mantém praticamente inalteradas as variações reais apuradas no cálculo trimestral e obtém o DP endogenamente.

Ocorre que há vários indicadores sugestivos de que as variações reais trimestrais do PIB estejam subestimadas, principalmente na indústria. O pesquisador destaca os dados da produção de veículos (no PIB, bem inferiores às informações dos fabricantes), consumo de energia elétrica e evolução do índice “Night Time Lights” (NTL), captado por satélite.

Se tudo isso estiver correto, o crescimento real do PIB vem sendo subestimado em algo como 0,5 a 1,0 ponto porcentual ao ano, desde a segunda metade dos anos 90. Dada a importância do tema, é imprescindível persistir nessas pesquisas e ouvir as explicações do IBGE, instituição de alta credibilidade pela excelência de seu trabalho.

* ECONOMISTA, DIRETOR DA MCM CONSULTORES, FOI CONSULTOR DO BANCO MUNDIAL, SUBSECRETÁRIO DO TESOURO NACIONAL E CHEFE DA ASSESSORIA ECONÔMICA DO MINISTÉRIO DA FAZENDA

 

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