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A questão dos lucros

- Atualizado: 29 Março 2016 | 05h 00

Empresas americanas nunca viveram momento tão bom; agora é hora de ganhar competitividade

Os Estados Unidos costumavam ser a terra da oportunidade e do otimismo. Agora, as oportunidades são vistas como um privilégio da elite: dois terços dos americanos acreditam que a economia é manipulada em favor de grandes grupos financeiros e empresariais. E o otimismo deu lugar ao rancor. A revolta dos eleitores impulsiona políticos “outsiders”, como Donald Trump e Bernie Sanders, e enfraquece os identificados com a realidade atual, como Hilary Clinton.

Na campanha para a Casa Branca deste ano, já foram encontrados muitos culpados pelo atual estado de coisas: dos acordos de livre comércio à ambição sem limites de Wall Street. Mas o capitalismo americano atualmente enfrenta um problema que tem sido ignorado: a corrosiva falta de competição.

O segredo que as empresas americanas não contam para ninguém é que elas têm vida muito mais mansa dentro do que fora do país: suas atividades no mercado interno geram um retorno sobre o patrimônio 40% mais elevado do que no exterior. Os lucros obtidos internamente estão próximos de níveis recordes como proporção do PIB. Os EUA deveriam ser um templo do livre empreendimento. Não são.

Seria factível atribuir lucros tão elevados a inovações tecnológicas extraordinárias ou a acertados investimentos de longo prazo, não fosse o fato de eles apresentarem uma persistência um tanto quanto suspeita. Hoje há 80% de chance de que uma empresa americana extremamente lucrativa continue, dez anos depois, a embolsar lucros polpudos.

Na década de 1990, a chance era de cerca de 50% apenas. Sem dúvida, algumas empresas são capazes de manter elevado nível de excelência por muito tempo. Na maioria dos casos, porém, seria de esperar que o acirramento da concorrência fizesse os lucros cair consideravelmente. Nos dias que correm, os que estão por cima conseguem continuar por mais tempo levando a melhor.

Sem retorno. Os eleitores americanos deveriam ficar contentes ao ver as empresas do país ganhando tanto dinheiro. Acontece que, quando não são reinvestidos, ou são gastos pelos acionistas, lucros muito elevados podem prejudicar a demanda.

Atualmente, o setor privado gera nos EUA um excedente de US$ 800 bilhões, ou 4% do PIB, que não entra nos orçamentos de investimento das empresas. O sistema tributário estimula as multinacionais a manter no exterior os lucros gerados por suas subsidiárias. Lucros muito altos podem agravar a desigualdade quando decorrem de uma situação em que os preços se encontram persistentemente elevados ou os salários estão deprimidos.

Caso as empresas americanas reduzissem seus preços até que os lucros voltassem a patamares historicamente normais, é possível que os consumidores tivessem uma economia de 2% em seus gastos. Se os retornos suculentos não atraem novos participantes, é sinal de que as empresas talvez estejam abusando de posições monopolistas ou recorrendo ao lobby para restringir a competição. Em outras palavras, pode ser que o jogo esteja de fato sendo manipulado.

Paciência. Uma resposta possível à era da hiperlucratividade é dar tempo ao tempo. A destruição criativa não acontece de uma hora para a outra: fases anteriores de lucros excessivamente elevados – como, por exemplo, no fim da década de 1960 – chegaram ao fim de forma abrupta. Os apóstolos do Vale do Silício acreditam que uma nova era de big data, blockchains (tecnologia que está por trás do bitcoin, o dinheiro eletrônico peer-to-peer) e robôs está prestes a acabar com as margens gordas das corporações americanas. Nos últimos seis meses, os lucros das companhias de capital aberto sofreram pequeno recuo, já que a queda nos preços do petróleo teve impacto negativo sobre o setor de energia e a valorização do dólar prejudicou as multinacionais.

Infelizmente, porém, tudo indica que a situação das grandes empresas americanas é mais firme que nunca. Os lucros atuais da Microsoft correspondem ao dobro do que a companhia lucrava em 2000, quando foi alvo de uma ação judicial movida por autoridades antitruste. Análise conduzida pela The Economist com dados do censo dos EUA mostra que, dos cerca de 900 setores de atividade econômica, dois terços tornaram-se mais concentrados de 1997 para cá. Um décimo da economia americana está na mão de meia dúzia de grandes grupos – de ração para cães e baterias a empresas aéreas, operadoras de telecomunicações e administradoras de cartões de crédito.

Fusões. Uma onda de fusões que teve início em 2008, movimentando US$ 10 trilhões, contribuiu para aumentar ainda mais a concentração. As empresas envolvidas nesses negócios se comprometeram a cortar seus custos em US$ 150 bilhões ou mais, coisa que faria seus lucros subir 10%. As que pretendem repassar os ganhos aos consumidores são minoria.

Aumentar de tamanho não é a única maneira de sufocar os concorrentes. Com o adensamento do novelo regulatório, ocorrido depois da crise financeira de 2008, a tarefa de navegar pelos escaninhos da burocracia tornou-se mais central para o sucesso das empresas. Os gastos das corporações americanas com atividades lobistas aumentaram um terço ao longo dos últimos dez anos e hoje somam US$ 3 bilhões.

O setor corporativo americano cavou um gigantesco fosso defensivo em torno de si
Nos setores de saúde e tecnologia, dois dos segmentos mais lucrativos da economia dos EUA, tornou-se essencial conhecer a legislação de patentes de cor e salteado. E as novas normas do setor financeiro não servem apenas para garantir a solidez das grandes instituições bancárias: acabam também dificultando o ingresso de novos concorrentes.

Com capital de giro limitado e recursos menos abundantes, as pequenas empresas têm dificuldades para lidar com a papelada, os lobistas e a burocracia. Esse é um fatores que explica por que a taxa de criação de pequenas empresas nos EUA encontra-se num de seus níveis mais baixos desde os anos 1970.

O talento para entrar em novos mercados e dar combate a empresas acomodadas deixou de valorizado, já que a ortodoxia predominante entre os investidores institucionais estabelece que as empresas devem se concentrar numa única área de atividade e manter as margens elevadas. Warren Buffett diz gostar de companhias que cavam um “fosso” a seu redor para se proteger das concorrentes. O setor corporativo americano cavou um gigantesco fosso defensivo em torno de si.

A maioria das soluções propostas pelos políticos para enfrentar os problemas da economia americana tornaria as coisas ainda piores. Aumentar os impostos desestimularia os investimentos. Promover elevações no salário mínimo prejudicaria a expansão do emprego. Adotar medidas protecionistas tornaria as coisas ainda mais confortáveis para os grande grupos empresariais. Seria muito mais proveitoso estimular a competição.

O primeiro passo é mirar as empresas que reinam incontestes em seus segmentos. Para tanto, as agências antitruste precisam ser modernizadas. Fusões que resultam em elevada participação de mercado e influência excessiva sobre os preços precisam continuar a ser policiadas. Mas o fato é que as empresas encontram muitos meios de extrair renda da economia. A legislação de patentes e direitos autorais deveria ser flexibilizada, a fim de impedir que grandes empresas continuem a tirar proveito de velhas descobertas.

As grandes plataformas de tecnologia, como Google e Facebook têm de ser vigiadas de perto: talvez ainda não sejam monopólios, mas, nos valores que os investidores atribuem a elas, está embutida a crença de que um dia serão. O papel das gigantes gestoras de fundos que detêm participações cruzadas em companhias concorrentes também deve ser alvo de exame atento.

Soltando as amarras. O segundo passo é tornar a vida mais fácil para as startups e as pequenas empresas. É preciso reconhecer que as preocupações com a ampliação da burocracia e da ação regulatória do Estado são legítimas, e não apenas paranoia de liberais radicais que só fazem gritar contra o intervencionismo estatal. Leis como as que instituíram o Obamacare têm impacto significativo sobre as pequenas empresas. As novas normas do setor financeiro levaram os bancos a parar de atender clientes que dão menos lucros. A expansão nociva das licenças ocupacionais sufoca as startups. Para exercer cerca de 29% das ocupações, incluindo as de cabeleireiro e da maior parte do segmento de saúde, as pessoas precisam de certificados, frente a 5% na década de 1950.

Uma onda de competição traria desconfortos: as companhias incluídas no índice S&P 500 empregam um em cada dez americanos. Mas também criaria novos empregos, estimularia mais investimentos e ajudaria a reduzir os preços. Acima de tudo, produziria um tipo mais justo de capitalismo. Isso contribuiria para melhorar o humor dos americanos e dar mais vigor a sua economia.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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