A volatilidade como um ‘novo normal’

Se for eleito um governo apoiado por uma coalizão de centro e comprometida com uma agenda de reformas, o caminho estará aberto à retomada do crescimento

Affonso Celso Pastore e Maria Cristina Pinotti*, O Estado de S.Paulo

11 Abril 2018 | 05h00

Era esperado que ao longo da campanha eleitoral crescesse a volatilidade dos preços dos ativos. Nos últimos dias o real se depreciou mais do que as moedas de outros emergentes e, na nossa interpretação, não há relação direta com a prisão de Lula, que deveria produzir efeito contrário, ao tirar de cena um candidato cada vez mais radical. Não foram, também, os movimentos desastrados de Trump que se refletiram nas cotações da moeda brasileira. Tivemos, até, uma boa notícia, vinda da Moody’s, removendo a “perspectiva negativa” de nossa dívida pública; mas o fez afirmando contar que um próximo governo aprove a reforma da Previdência, fato que, obviamente, depende do resultado da eleição. A conclusão é que, finalmente, a incerteza política começa a entrar nos cálculos dos agentes do mercado financeiro!

Fatos importantes ocorreram nas últimas semanas. Coube ao STF papel decisivo na confirmação da aplicação das regras vigentes para o caso do ex-presidente Lula – a possibilidade de execução da pena a partir de julgamento em segunda instância. Além de explicitar os problemas que afetam o funcionamento da Suprema Corte, o caso trouxe ao centro do debate a nefasta “jabuticaba” brasileira, que, embora vigorando em apenas 7 dos últimos 70 anos (entre 2009 e 2016), muito ajudou a alastrar a corrupção pelo País. A interpretação de que só após o “trânsito em julgado” (só após o julgamento de todos os recursos cabíveis no STF) se atende o princípio da “presunção da inocência” gera impunidade. Quem pode pagar bons advogados dificilmente chega a cumprir penas, mesmo no caso extremo de haver confessado a responsabilidade pela morte de pessoas. Sem a mudança desta jurisprudência em 2016 a Lava Jato não teria sobrevivido e nem teria alcançado a abrangência que hoje tem. Outros rounds sobre essa questão podem ocorrer, mas não se prevê alteração na interpretação atual.

Lula e o PT estão fora da disputa eleitoral, e diante de uma definição que se aproxima, os meros palpites sobre os resultados das eleições têm que se transformar em cenários prováveis, o que obriga que os atores no mercado financeiro comecem a se defender de eventos possíveis.

Mais encorpado com o passar do tempo, Rodrigo Maia vem atraindo parlamentares para o seu partido (DEM), aumentado seu cacife, seja para concorrer à Presidência, seja para ser vice de uma chapa mais robusta, ou mesmo para garantir a presidência da Câmara no próximo mandato. Geraldo Alckmin saiu do governo do Estado de SP há poucos dias, e espera-se que saia, também, do imobilismo. Fez acordos importantes, como o de Minas Gerais, mas ainda continua a se colocar timidamente diante dos eventos. A melhor notícia foi a confirmação da centralização do seu programa de governo nas mãos de Persio Arida, reforçando a hipótese – e a esperança – de que o Alckmin do passado tenha sido superado por um Alckmin mais moderno, arrojado e consistente. Permanece como o candidato do centro com maior potencial para vencer as eleições, mas precisa sair a campo e convencer os eleitores sobre as suas virtudes e propostas. Finalmente, se não quisermos considerar como possíveis as velhas propostas da esquerda de Ciro Gomes, que tanto mal fizeram ao País, temos que considerar que há quem se encante com a enganosa simplicidade das propostas da “direita” de Bolsonaro, avalizadas por Paulo Guedes, e que crescem na proporção direta do desencanto dos eleitores com o mau desempenho de nossa economia.

Não podemos perder de vista que o Brasil enfrenta um sério desequilíbrio fiscal, que não se resolve com um corte de gastos aqui e outro acolá, acompanhado de receitas extraordinárias. Se for eleito um governo apoiado por uma coalizão de centro e comprometida com uma agenda séria de reformas, o caminho estará aberto à retomada do crescimento. Mas há o risco de que, seduzidos por promessas populistas de um “ajuste sem custos”, os eleitores deem um apoio maior a candidatos que, se eleitos, acentuem em vez de corrigir os desequilíbrios.

Consequentemente é bom nos acostumarmos a conviver com maior volatilidade dos preços dos ativos. Esta situação é o nosso “novo normal”, até que o quadro fique mais claro.

*Ex-presidente do BC e sócio da A.C.Pastore & Associados

*Sócia da A.C.Pastore & Associados

Mais conteúdo sobre:
corrupção eleições 2018

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.