'Acabou a exuberância do minério de ferro'

Diretor da Vale diz que o ciclo favorável de preços da commodity ainda nãoterminou, mas não voltaráa ser 'excepcional'

MÔNICA CIARELLI, MARIANA DURÃO / RIO, O Estado de S.Paulo

28 Setembro 2014 | 02h05

A Vale espera um cenário difícil para o minério de ferro em 2015. O preço da commodity derreteu 40% desde janeiro, caindo ao menor nível dos últimos cinco anos. O diretor executivo de Ferrosos e Estratégia da companhia, José Carlos Martins, não enxerga um quadro muito diferente no próximo ano, mas diz que a queda livre do minério de ferro não tira o poder de fogo da Vale.

Em entrevista exclusiva, ele se mostra mais otimista do que o mercado em relação aos rumos da economia chinesa e ressalta que a empresa continua muito rentável. Martins não se arrisca a cravar um patamar para a cotação do minério. "Fazer previsão de preço faz mal à saúde. Ninguém tem bola de cristal", brinca.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

A queda livre do preço do minério tem preocupado?

O pessoal aí fora está mais preocupado do que nós. Eu acho que o preço caiu, mas continua muito bom. Esse preço é muito rentável para nós.

Mesmo a menos de US$ 80 por tonelada? Quando ele deixa de ser rentável?

Vai ter que cair muito. Tem muitas empresas que já estão deixando de funcionar. Sabe aquela história de que o último a sair apaga a luz? Se tiver que apagar a luz, a Vale vai ser a última. Eu entrei na Vale em 2004, o preço do minério era US$ 20 (por tonelada) e a Vale ganhava dinheiro porque o custo era US$ 5 a US$ 6. Hoje, o custo é mais de US$ 20 e o preço é US$ 80. Então, a situação é melhor do que em 2004, 2005, 2006, 2007. Eu diria que a situação hoje é equivalente a 2008, quando a gente estava no boom da economia mundial (antes da crise financeira do "subprime").

O sr. espera que o preço se estabilize em qual patamar?

Fazer previsão de preço faz mal à saúde. Ninguém tem bola de cristal. Fiz uma previsão para este ano em torno de US$ 110 (por tonelada) e em nosso planejamento econômico vínhamos trabalhando com preço entre US$ 110 e US$ 115. A expectativa era de excesso de oferta de 50 milhões de toneladas (de minério de ferro no mundo). Só que esse excesso de oferta foi de 100 milhões de toneladas. Então, o preço tem que recuar um pouco mais.

Quanto a Vale tem em contratos de longo prazo e quanto é no mercado à vista?

Hoje, cerca de 50% das vendas da Vale são contratos de longo prazo e o restante são contratos mais curtos. Mas isso não significa muita coisa porque a gente aprendeu que, quando o mercado cai, o contrato é letra morta, né? O importante são os fundamentos da indústria. A China não parou de crescer. O que existe no mercado é a percepção de dependência da Vale do preço do minério. Mas a Vale não é só minério.

Mas é o grosso da receita...

Sem dúvida, mas durante algum tempo a Vale era só minério de ferro. Porque os outros negócios não ajudavam. Quando os outros negócios não ajudam, você fica dependente daquele que está puxando, que, no caso, era o minério de ferro. Hoje, o preço do minério de ferro não é tão bom quanto foi no passado, mas os outros negócios, como níquel, estão com performance melhor.

Deve ser mais difícil se planejar e fazer previsões que sirvam de base para projetos futuros neste momento de transição...

Eu tive reunião do conselho (de administração da Vale) hoje (quinta-feira, 25) e a pergunta foi essa. Eu disse: temos acertado mais que os analistas. Agora, não quer dizer que isso não mude. Está todo mundo naquela (dúvida)... Teve uma mudança, o preço caiu muito. Tem quem diga que é o fim do ciclo (de alta do minério de ferro).

O sr. acredita nisso?

Não. Acho que vai ser um ciclo normal agora. Acho que acabou a exuberância. Reconheço que no meio dessa confusão é difícil ser positivo. As perspectivas continuam boas. Não excepcionais como foram, mas continuam boas.

O que a Vale está fazendo para reduzir o custo de produção nesse cenário complicado?

Não sei por que vocês veem o cenário complicado. Quando eu vim para essa companhia o preço do minério era US$ 20 e a Vale ganhava dinheiro. Aí, chegou a US$ 180, ela ganhou muito dinheiro. Agora está em US$ 80, na média deste ano em US$ 105. Continua muito rentável, tanto é que a gente não para os projetos.

Como o sr. enxerga a economia da China? Está indo bem? Qual é o problema da China?

O país continua crescendo, com um "pibinho" de 7% ao ano, a renda continua subindo. Não tem problema na China. O problema está na Europa, nos Estados Unidos. A China vai muito bem. O preço do minério não é mais US$ 180 como já foi, que era uma maravilha. Mas, ainda é muito bom.

O sr. minimiza as preocupações com a China, mas há uma desaceleração...

Será que as pessoas é que não estão maximizando demais essa ameaça? A China é um país economicamente sólido, com índice de urbanização de apenas 50% e que quer urbanizar 80%. Já imaginou quanto aço você precisa para urbanizar 400 milhões de pessoas? O que acontece é que a velocidade diminuiu. O cara estava correndo, agora tá andando. Mas a direção é a mesma.

O presidente da Vale, Murilo Ferreira, falou em US$ 95 para o preço do minério até o fim do ano. O que traz essa perspectiva de recuperação?

Você conhece aquele ditado que diz que quando a maré baixa é que você vê quem está nadando pelado? Imagine que o preço é a maré e está caindo, então a maré está baixando. Aí você tem um monte de produtores de minério lá. Muitos estão pelados e vão ter que sair correndo. No momento eles estão se agachando para não ficarem expostos. É muito difícil estabelecer um prazo. Eu compartilho da opinião dele (Murilo). Acho que esse preço desceu muito e tem espaço para uma pequena recuperação.

Tem algum dado que mostre que os produtores menos competitivos estão fechando as portas?

A China importa do mundo todo. Já se verificou que, pelo menos, 50 milhões de toneladas que vinham de mercados fora do eixo Brasil/Austrália (principais produtores globais de minério) já saíram do mercado. O que está surpreendendo é a resistência dos produtores chineses. Temos de reconhecer: os produtores de custos mais altos, principalmente na China, estão resistindo mais do que esperávamos.

Como estão os estoques de minério nos portos da China?

Os estoques nos portos estão altos, em 100 milhões de toneladas. Um país que importa 1 bilhão de toneladas de minério por ano precisa ter um giro de minério no estoque, algo em torno de 50 milhões a 70 milhões de toneladas.

Quais as projeções para 2015? Ainda não dá para avaliar. No ano passado, temos de reconhecer, nós erramos (na avaliação para 2014). Tínhamos estimado um balanço de oferta e procura com um excedente de 50 milhões. Apesar disso, você sabe qual foi o preço médio desse ano? US$ 105 (por tonelada), US$ 10 dólares abaixo do que havíamos previsto.

Mas qual é o cenário base?

O preço desceu muito e tem espaço para uma pequena recuperação. Acho que o ano que vem continua sendo um ano difícil nesse particular, porque ainda tem mais capacidade de produção contratada. Não vejo para 2015 um cenário muito diferente deste ano.

É o excedente maior que o esperado que derruba o preço?

Será preciso expulsar 100 milhões de toneladas para abrir espaço no mercado. No caso, eu estou falando da BHP (Billiton), da Rio Tinto e da Vale. Essas grandes mineradoras não vão reduzir produção. Vão continuar bombando. Tudo que a Vale produz, eu vendo.

O sr. vê espaço para o preço continuar caindo?

Não vejo espaço para cair muito abaixo de US$ 80 (na sexta-feira o fechamento foi de US$ 78,6 a tonelada). Acho que a demanda não terá grande recuperação, mas não vai cair.

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