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BRF perde quase R$ 5 bi em valor de mercado após PF deflagrar 3ª fase da Carne Fraca

Ações ordinárias da empresa fecharam com baixa de 19,75%; valor de fechamento, de R$ 24,75, não era registrado desde agosto de 2011

O Estado de S.Paulo

05 Março 2018 | 10h39

A BRF fechou como a principal queda não só do Ibovespa, mas entre todas as ações negociadas na B3 nesta segunda-feira. O desempenho é consequência da Operação Trapaça, um desdobramento da Operação Carne Fraca, que teve inclusive prisão de ex-executivos da companhia. A Tarpon Investimentos, uma das principais acionistas da BRF, acompanhou o desempenho. As outras empresas do setor também caíram. Na ponta positiva, destaque para a Petrobras, que subiu com o petróleo.

BRF ON fechou com baixa de 19,75%. A operação da Polícia Federal resultou na prisão temporária do ex-presidente da empresa Pedro de Andrade Faria e o ex-diretor-vice-presidente da BRF, Hélio Rubens Mendes dos Santos. Em um dia, a empresa perdeu quase R$ 5 bilhões em valor de mercado, segundo cálculos da consultoria Economatica. O valor de fechamento da ação, de R$ 24,75, não era registrado desde agosto de 2011, ainda segundo a consultoria.

Os analistas do BB-BI afirmam que é "mais que provável" um rebaixamento da recomendação da ação da BRF em breve, diante de tantas incertezas que envolvem a companhia. Além das investigações da Polícia Federal, a analista Luciana Carvalho cita as propostas de mudanças no conselho de administração em um momento de necessidade de melhorar os resultados e reduzir o nível de alavancagem. Para ela, as investigações devem impactar os indicadores operacionais da BRF.

Já analistas do Itaú BBA relatam que enxergam consequências não apenas do ponto de vista da governança, mas também operacional. Entre as possíveis ocorrências citam impactos sobre o médio escalão da empresa, possível fechamento de unidades reflexo do efeito dos mercados para exportação, um impacto colateral potencial nas suas duas marcas mais importantes, Sadia e Perdigão, e/ou sobre custos associados para mitigar esse impacto, e a eventual perda do grau de investimento, diz o documento.

Até então, os investidores vinham atribuindo um desconto de governança à BRF, em função do risco de execução, das mudanças na diretoria e de incertezas quando à nova estratégia, lembram. "Estamos confiantes em dizer que um desconto relacionado à governança não estava nessa lista", diz o relatório do Itaú BBA. 

+ Ministério da Agricultura paralisa exportações de frango de três unidades da BRF

Tarpon ON fechou com baixa de 20,34%, na mínima do dia. A gestora informou que, embora não seja alvo da Operação Trapaça, a Polícia Federal realizou hoje buscas na sede da empresa. As buscas tiveram por objeto documentos de Pedro de Andrade Faria, relacionados ao período em que ele atuou como diretor presidente da BRF. Pedro Faria, sócio da Tarpon, deixou a presidência da BRF em agosto.

O segundo pior desempenho do Ibovespa ficou com JBS ON (-5%). Também caíram Marfrig ON (-0,95%) e Minerva ON (-0,43%, na máxima). O mercado já demonstra preocupação com as possíveis consequências das investigações nas exportações de carne brasileira. A Europa já pediu esclarecimentos sobre as prisões feitas hoje. Bruxelas não descarta aplicar novas medidas restritivas contra os produtos brasileiros, caso considere que seja necessário. Segundo a Economatica, todas as empresas do setor perderam, somadas, R$ 6,3 bilhões em valor de mercado hoje.

O Ibovespa fechou em alta de 0,30%, aos 86.022,82 pontos. Em março, o índice acumula avanço de 0,78%, e em 2018, ganhos de 12,59%. O giro financeiro nesta segunda-feira ficou em R$ 10,1 bilhões, segundo dados preliminares.

Exportações. Na opinião de analistas, essa nova etapa das investigações deve afetar novamente as exportações brasileiras. A abrangência desse impacto, porém, ainda é difícil de ser avaliada, já que o fato é recente. 

Entre as repercussões da notícia, o Ministério da Agricultura já suspendeu os estabelecimentos envolvidos na operação para exportar a países que exigem requisitos sanitários específicos de controle e tipificação de salmonela.

Em nota, a PF informou que agentes cumprem 91 ordens judiciais nos Estados do Paraná, de Santa Catarina, do Rio Grande do Sul, de Goiás e de São Paulo: 11 mandados de prisão temporária, 27 mandados de condução coercitiva e 53 mandados de busca e apreensão. Cerca de 270 policiais federais e 21 auditores fiscais federais agropecuários participam da ação coordenada entre a Polícia Federal e o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Ferman, da Elite, ressalta que a operação ocorre no exato momento em que a empresa passa por um momento de conflito interno, com os fundos de pensão dos funcionários da Petrobras e do Banco do Brasil, Petros e Previ, pedindo a destituição do atual colegiado, comandado pelo empresário Abilio Diniz. "Além de o timing ser péssimo, as investigações acabam respingando em todo o setor", acrescenta.

A pedido dos fundos foi convocada para hoje uma assembleia para tratar do assunto. Na sexta-feira, os fundos de pensão apresentaram chapa com dez nomes para o Conselho de Administração da BRF.

Operação Trapaça.  A operação batizada de Trapaça aponta que cinco laboratórios credenciados junto a Agricultura e setores de análises do grupo BRF fraudavam resultados de exames em amostras de seu processo industrial, informando ao Serviço de Inspeção Federal dados fictícios em laudos e planilhas técnicos.

As fraudes tinham como finalidade burlar o Serviço de Inspeção Federal (SIF/MAPA), do Ministério, e, com isso, não permitir que a Pasta fiscalizasse com eficácia a qualidade do processo industrial da empresa.

As investigações indicam que a prática das fraudes contava com a anuência de executivos do grupo empresarial, bem como de seu corpo técnico, além de profissionais responsáveis pelo controle de qualidade dos produtos da própria empresa.

Também foram constatadas manobras extrajudiciais, operadas pelos executivos do grupo para acobertar a prática desses ilícitos ao longo das investigações.

Novo conselho da BRF. Duas semanas antes da nova etapa da operação da PF, os fundos de pensão Petros e Previ, que são os principais acionistas da BRF, e detém, cada um, cerca de 11% do capital da empresa, divulgaram carta pedindo a realização de uma assembleia geral extraordinária para destituir o atual conselho de administração, presidido pelo empresário Abílio Diniz. 

Insatisfeitos com os resultados da companhia de alimentos, que registrou prejuízo bilionário em 2017, os fundos decidiram se unir para forçar mudanças no colegiado. Embora tenha uma fatia menor que a dos fundos, Abilio dá as cartas na BRF desde 2013, quando foi trazido para o negócio pelo fundo brasileiro Tarpon. 

Uma reunião para deliberar sobre o pedido dos fundos já tinha sido convocada por Abílio, antes da deflagração da terceira fase da Carne Fraca, para esta segunda-feira, 5. /RENATO CARVALHO, RICARDO BRANDT, JULIA AFFONSO, FAUSTO MACEDO, LUIZ VASSALLO​, RENATA AGOSTINI, MONICA SCARAMUZZO E FABIANA HOLTZ

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