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Jim Urquhart/Reuters

Adepto do bitcoin vive crise de fé

Disputa dividiu a pequena fraternidade de desenvolvedores entre populistas e elitistas, levantando dúvidas quanto à sobrevivência da moeda virtual

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Nathaniel Popper,
The New York Times

28 Janeiro 2016 | 05h00

Mike Hearn, britânico programador de computador, se enfiou em seu apartamento de dois quartos em Zurique durante vários dias e noites de janeiro, para escrever um protesto.

Dois anos atrás, Hearn largou um bom emprego de programação na sede suíça do Google para se dedicar em tempo integral ao que era sua grande paixão: o bitcoin, a moeda virtual. Ele era um dos poucos desenvolvedores do mundo inteiro dedicados a manter o programa básico que governa tanto a criação de novos bitcoins quanto a rede na qual as transações financeiras ocorrem.

Porém, uma luta feia dividiu a pequena fraternidade de desenvolvedores de bitcoin, levantando dúvidas quanto à sobrevivência da moeda virtual. Hearn ficou tão desiludido que, em dezembro, vendeu as centenas de bitcoins que sobraram e, sem alarde, aceitou um emprego em uma startup.

O post apaixonado no blog em que trabalhava foi o anúncio de que deixaria a comunidade bitcoin de uma vez por todas. "O bitcoin passou de comunidade transparente e aberta a uma dominada por censura desenfreada e bitcoiners atacando uns aos outros."

A disputa - nascida de uma dúvida sobre o número de transações que a rede bitcoin pode suportar - pode parecer algo que interessa somente aos fãs mais radicais de tecnologia. Porém, ela expôs diferenças fundamentais a respeito das metas básicas do projeto bitcoin e de como as comunidades on-line deveriam ser governadas. Em termos gerais, as duas facções se pintaram como, de um lado, os populistas, concentrados em expandir o potencial comercial da moeda e, do outro lado, elitistas mais preocupados em proteger seu status como um questionador radical das moedas existentes.

Nos últimos seis meses, a divisão levou a ameaças de morte contra desenvolvedores de bitcoin e ataques de hackers que derrubaram provedores da internet. A sensação de traição é forte nos dois lados. Um dos principais antagonistas de Hearn, um programador californiano barbudo chamado Gregory Maxwell, também parece ter se retirado do trabalho com a moeda após receber ameaças de morte anônimas.

Parte do apelo básico do bitcoin tem sido a promessa de oferecer uma alternativa mais confiável às moedas existentes e redes financeiras. Ao contrário do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, e de Wall Street, instituições administradas por humanos, o bitcoin deveria se valer da lógica infalível da matemática e da programação. Nesse sistema, os programadores como Hearn, que muitas vezes ofereceram seu conhecimento e trabalho, eram vistos como técnicos neutros.

Entretanto, a disputa atual é um lembrete de que o programa do bitcoin - como todo programa de computador - é um produto que evolui da mente humana e que seu emprego é vulnerável às fragilidades humanas e ideais divergentes.

Talvez ainda exista um meio-termo da questão que deu início à luta, mas por enquanto os lados estão paralisados, o que deixou o programa do bitcoin - e a moeda virtual em si - em um estado de limbo. Hearn está convencido de que o impasse irá em breve dificultar a realização de transações simples, terminando por afastar os usuários, levando a um colapso de preço.

Gavin Andresen, colega próximo de Hearn e um dos mais antigos colaboradores do programa, disse que a disputa deveria provocar divisões em curto prazo, mas discorda de que vá prejudicar o bitcoin em longo prazo. Outros líderes da moeda manifestaram sentimento similar, e os investidores estão inclinados a acreditar neles: o preço de um bitcoin subiu nos últimos meses para US$ 430.

Aliados de Hearn na batalha esperam que a paralisação seja vencida se as maiores empresas de bitcoin adotarem coisas como Bitcoin Classic, uma nova versão do programa básico da moeda anunciada em janeiro e que busca aumentar a capacidade da rede, além de apresentar novos padrões de governança.

Hearn, no entanto, acredita ser tarde demais.

Ele foi um dos primeiros programadores sérios a se interessar pelo bitcoin, em abril de 2009, poucos meses após seu fundador misterioso, conhecido como Satoshi Nakamoto, o lançar no mundo.

A exemplo de muitos dos programadores que se interessaram de início, Hearn admirava a natureza baseada em regras do sistema. Somente 21 milhões de bitcoins seriam criados. E a distribuição de novos bitcoins estava claramente definida, valendo-se de algoritmos matemáticos que não davam espaço à interferência humana.

Satoshi escrevera o programa contendo essas regras, mas depois que foi lançado, qualquer um poderia ver o código e fazer mudanças. Quem baixava o programa de código aberto votava em quais mudanças aceitar, tomando por base qual versão do software escolhera usar. Se Satoshi propusesse modificações que eles não gostassem, não era preciso baixar e rodar.

Demorou um pouco para o bitcoin pegar, mas no final de 2010, quando Hearn começou a colaborar com o código, a moeda passou a ter fãs apaixonados.

Hearn entrou para um grupo pequeno e crescente de voluntários que trabalhavam no programa básico do bitcoin a partir de vários cantos do mundo. Eles só se encontravam pessoalmente algumas vezes, mas conversavam constantemente on-line e trocavam e-mails discutindo mudanças potenciais. Depois que Satoshi bateu em retirada em 2011, o líder passou a ser Andresen.

A camaradagem começou a degringolar no ano passado em função do que parecia um desdobramento positivo: o crescimento contínuo no número de usuários e de transações.

O problema era que, desde o começo, Satoshi estabeleceu um limite ao número de transações que poderiam ser processadas na rede a cada dez minutos. O limite pretendia garantir que os computadores que dão suporte à rede e processam as transações não ficassem sobrecarregados. Todavia, o criador sugerira que o limite seria temporário.

Quando Hearn começou a defender mudanças no núcleo do programa bitcoin para permitir blocos maiores de transação de dados, encontrou resistência. Maxwell afirmou que os blocos maiores seriam mais difíceis para computadores comuns processarem, e que a solução seria entregar o controle da rede a grandes empresas que pudessem comprar computadores potentes.

Hearn respondeu que a questão técnica não era um grande problema. Para ele, mais importante era que o bitcoin precisava, em primeiro lugar, ter sucesso como uma rede de pagamento mais rápida e barata, como PayPal ou Visa.

No passado, Andresen, o líder do projeto do programa do bitcoin, intervia para mediar. Porém, ele se afastou desse papel diário em 2014 e deu o posto de mantenedor líder a outro voluntário do projeto, Wladimir J. van der Laan, programador holandês, que disse não pretender seguir o modelo de Andresen.

Hearn e Andresen decidiram no ano passado que a única maneira de seguir adiante era dar voto às pessoas que usavam o programa. Eles prepararam uma versão do programa, batizado Bitcoin XT. Se uma maioria nítida dos usuários do sistema o baixasse, seria a nova lei.

O lançamento do Bitcoin XT foi visto como um ato de traição por van der Laan e Maxwell.

A briga ganhou uma nova dimensão quando um hacker poderoso distribuiu o Bitkiller, programa que procurava computadores que haviam baixado o Bitcoin XT e os sobrecarregava com tráfego. Sem surpresas, isso afastou muitos usuários de bitcoin.

No final do ano passado, Maxwell e apoiadores tentaram chegar a um meio-termo. Eles organizaram reuniões em Montreal e Hong Kong em que os principais desenvolvedores se encontraram para discutir alternativas de crescimento do sistema. Andresen foi ao primeiro evento, quando os aliados de Maxwell anunciaram um plano mais gradual para aumentar a capacidade da rede. Entretanto, Andresen e Hearn acharam que as recomendações não bastavam.

Apesar da discórdia, Hearn não perdeu a fé em todas as ideias por trás do bitcoin. A startup nova-iorquina em que começou a trabalhar, a R3, está desenvolvendo redes similares ao bitcoin para os bancos possibilitarem maneiras mais rápidas e baratas de transacionar ativos de todos os gêneros.

Esse mundo não tem a pureza do bitcoin, mas após meses insone, preocupado com as promessas traídas, ele disse: "Quero estar novamente num ambiente profissional em que as pessoas tenham um pé em algum tipo de realidade comercial".

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