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‘Adiamento foi para preservar o IBGE’, diz Wasmália Bivar

Daniela Amorim

11 Abril 2014 | 21h 47

Para presidente do instituto, sem ajustes, riscos de a Pnad Contínua ser contestada seriam muito grandes

RIO - A decisão de suspender a divulgação da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) até janeiro de 2015, tomada na quinta-feira, 11, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), não foi influenciada por pressão política e visou a "preservar a instituição", nas palavras da presidente do órgão, Wasmália Bivar.

Em entrevista ao Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, Wasmália descartou a possibilidade de voltar atrás na decisão, alegando que ela foi tomada para atender exigências legais. Os questionamentos dos senadores Gleisi Hoffmann (PT-PR) e Armando Monteiro (PTB-PE), segundo a presidente do IBGE, serviram apenas para chamar atenção para o fato de que a instituição tinha prazo até janeiro de 2015, e não de 2016, como imaginava, para fazer adaptações na pesquisa.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Existe possibilidade de o IBGE rever a decisão de suspender as divulgações da Pnad Contínua?

Wasmália Bivar: Se o Congresso votar uma nova lei me dando mais um ano de prazo... Essa decisão não foi de vontade, foi uma reação ao fato de termos descoberto, agora muito recentemente, que a lei que achávamos que tínhamos até janeiro de 2016 para atender teremos de atender em janeiro de 2015. Ou seja, nos foi tirado um ano de trabalho do nosso cronograma. Junto com isso, veio uma demanda, que consideramos pertinente, a questão da equalização dos intervalos da amostra entre os Estados. Se isso não acontecer, vai ocorrer que os Estados vão contestar essas estimativas. São os parâmetros que nortearão os recursos que ele está recebendo.

 

Quais as consequências de não cumprir a lei?

Wasmália Bivar: Essa pesquisa está nascendo, ela não pode já nascer sob o peso de contestações. Ela não pode colocar em risco a própria pesquisa e o próprio IBGE e não atender a uma lei que estabelece esses prazos. A consequência do não atendimento é muito grave.

A suspensão não afeta a credibilidade do instituto?

 

Wasmália Bivar: Este ano, vínhamos divulgando os resultados da Pnad Contínua aos poucos, para ir familiarizando os usuários, aguardando eventuais críticas e sugestões de aperfeiçoamento, até que se transformasse na pesquisa única, em substituição da Pnad e da PME (Pesquisa Mensal de Emprego). Essa pesquisa nascendo, pesa sobre ela uma responsabilidade muito grande. Se não atender, a pesquisa estará fadada ao descrédito total. Não só a pesquisa, mas o IBGE também.

A suspensão deve-se à falta de recursos humanos? Faltaria pessoal para fazer a divulgação e, ao mesmo tempo, a revisão de metodologia?

Wasmália Bivar: A nossa equipe técnica é da maior competência. Infelizmente, o IBGE vem trabalhando com quadro reduzido de pessoal. E, diante de uma surpresa como essa, da redução desse prazo (de apresentação dos dados sobre a renda domiciliar em janeiro de 2015, em vez de janeiro de 2016, como o IBGE imaginava), o que o Conselho Diretor do IBGE percebeu é que temos, sim, dificuldade em termos de recursos humanos, não em qualidade, mas em número suficiente, para atender a essas exigências. Isso se transformou na prioridade máxima da instituição. Nós temos de atender a esse requisito legal, sob pena de consequências graves não só para o IBGE, mas para os Estados.

A diretora Marcia Quintslr pediu exoneração porque ela achava que dava para fazer as duas coisas ou porque ela era contra a revisão de metodologia?

Wasmália Bivar: Ela achava que dava para fazer as duas coisas. O conselho diretor é formado por sete diretores e eu, a presidente do IBGE. Nessa avaliação, ocorreram discordâncias. Acabou prevalecendo a avaliação de que os riscos incorridos em não dedicar os nossos recursos praticamente na sua integralidade à manutenção da coleta e ao ajuste da coleta para o atendimento dos requisitos da lei seriam altos. Houve a discordância, por parte da Marcia, porque ela achava que dava para manter as divulgações e atender, ao mesmo tempo, todas as demais demandas.

O corpo técnico discorda da necessidade de rever o cálculo da renda domiciliar per capita?

Wasmália Bivar: A pesquisa não tem erro algum. O que existe agora é que temos de retornar e introduzir uma nova questão metodológica, que não tem nada a ver com erro, porque surgiu uma nova exigência.

A carta enviada pelo corpo técnico à presidência inclui a assinatura de técnicos responsáveis por pesquisas importantes, como inflação e emprego. Isso não pode afetar o trabalho do IBGE?

Wasmália Bivar: O nosso corpo técnico tem um enorme compromisso com a casa. Tenho certeza de que isso vai prevalecer. A carta é uma reação à legítima saída da Marcia. Ela é uma pessoa que tem muitos anos de casa, é competente, responsável, conduziu suas equipes com competência. Quando ela sai, é óbvio que causa uma reação interna. Além disso, o Conselho Diretor do IBGE fez algo que foi um pouco diferente do que usualmente nós fazemos. Usualmente, informamos à casa nossas decisões e só depois informamos ao público externo.

Por que dessa vez foi diferente?

Wasmália Bivar: Diante da gravidade do problema, dessa vez nós invertemos. Temíamos que essa notícia surgisse antes de o próprio IBGE anunciá-la.

O corpo técnico não foi informado?

Wasmália Bivar: Não foi. Não tivemos oportunidade de nos reunir com eles e discutir nossas motivações. Isso vai ser feito agora. Mas essa legislação existe e ela não vai ser mudada. Essas decisões foram no sentido de preservar a instituição, seus compromissos constitucionais e, inclusive, a própria pesquisa. Vamos retomar toda a Pnad Contínua na sua plenitude, sem que pese sobre ela nenhum tipo de dúvida. Foram decisões difíceis de serem tomadas, mas necessárias no sentido de assegurar que a lei será cumprida. / COLABOROU VINICIUS NEDER