Rafael Arbex/Estadão
Rafael Arbex/Estadão

Camila Turtelli, Leticia Pakulski e Nayara Figueiredo, O Estado de S.Paulo

30 Novembro 2017 | 05h00

O maior consenso no agronegócio brasileiro é de que o País é vocacionado a alimentar boa parte da população mundial nos próximos anos e, ao mesmo tempo, o seu amplo mercado interno. Atualmente, já figura como um dos principais exportadores de commodities agrícolas, e a demanda firme da China, o principal comprador, não deve arrefecer no curto prazo. Para o Brasil aumentar sua participação de maneira competitiva, é preciso superar inúmeros obstáculos, como a falta de uma política adequada de seguro rural, alto custo de produção, e pouca vocação para a comunicação do setor. As soluções para vários desses problemas surgem a todo instante – como o avanço da pesquisa e de tecnologias voltadas ao campo, desburocratização de processos e maior conscientização ambiental.

Esses grandes temas centralizaram os debates do Summit Agronegócio Brasil 2017, realizado na segunda-feira pelo Estado, com patrocínio da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp) e do Banco do Brasil. Um dos palestrantes, o vice-presidente global de Assuntos Corporativos da Bunge, Stewart Lindsay, confirmou que o futuro da empresa – uma das maiores tradings exportadoras de grãos do mundo – está relacionado ao sucesso da agricultura brasileira. “O País é uma região-chave”, garantiu. Lindsay citou, ainda, o Código Florestal como um padrão importante, que distingue os agricultores brasileiros.

Inteligência global. A presidente da Gro Intelligence, Sara Menker, observou que para o Brasil se manter em destaque num cenário altamente competitivo precisa lançar mão de inteligência global de mercado, para identificar as melhores oportunidades e também reduzir a extrema dependência da China.

Um dos fatores essenciais que reforçarão e ampliarão a competitividade brasileira daqui para a frente – após o salto de produtividade nos últimos 20 anos – é o uso intensivo de tecnologias, principalmente as relacionadas à conectividade, como internet das coisas e armazenamento de dados.

Entre os debatedores do painel “Agrotech: tecnologia e resultados”, a principal questão levantada foi que há um “dilúvio” de informações, que agora precisam ser filtradas para uso prático do produtor rural. “O grande problema é captar dados importantes e produzir tecnologia com resultado”, observou o chefe-geral da Embrapa Monitoramento por Satélite, Evaristo Eduardo de Miranda.

No campo da política agrícola, o desafio é garantir renda e crédito suficiente para o produtor rural, além de governo e setor privado trabalharem juntos para ampliar mercados. Nesse quesito, o ministro interino da Agricultura, Eumar Novacki, garantiu que o governo federal “tem dado todo o respaldo para as ações do setor”. Ele citou, em sua exposição, o programa Agro+, que tem como objetivo melhorar a competitividade agropecuária, por meio, por exemplo, da desburocratização.

A garantia de renda, tema caro à Faesp, também foi citada pelo presidente da entidade, Fábio Meirelles. No âmbito do que seria um plano plurianual para a agricultura, Meirelles alertou sobre a necessidade de instrumentos de mitigação de risco, como o seguro rural, “essencial para o fortalecimento de todo o agronegócio”, disse. “Deve haver maior ênfase a este assunto na política agrícola.”

Faturamento. Sob esse aspecto, o Banco do Brasil divulgou que a instituição lançará um programa pioneiro entre os bancos brasileiros: a oferta de seguro sobre o faturamento, que garante proteção à renda estimada pelo produtor durante a safra. O vice-presidente de Agronegócios do BB, Tarcísio Hübner, mencionou que o banco desenhou o seguro sobre renda “justamente para preencher uma lacuna, que dificultava a continuidade dos investimentos do produtor na atividade”, disse. “Agora, independentemente da produção e da situação de preço, ele garante uma renda pactuada com o produtor, ou seja, é um seguro que gera um prêmio sobre a rentabilidade estimada para a safra”, explicou.

'Produtor é guardião do meio ambiente', acredita Faesp

O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp), Fábio Meirelles, chamou a atenção, no evento, sobre a importância do combate à corrupção e de uma agenda de reformas. “O agro brasileiro é competitivo, mas não pode avançar sem planejamento”, disse. O dirigente ressaltou que a garantia de renda, via seguro rural, é essencial para o fortalecimento do produtor. Ele também destacou o esforço do setor em adotar práticas sustentáveis. “O agricultor é o verdadeiro guardião do ambiente.” Nesse contexto, lembrou da importância do RenovaBio – uma política de estímulo aos biocombustíveis e redução das emissões de gases-estufa.

Já o diretor-presidente do Grupo Estado, Francisco Mesquita Neto, ressaltou a importância do agronegócio na retomada da economia. “Responsável por um quarto do PIB, o agronegócio tem minimizado a crise.” E destacou a necessidade de se discutirem práticas que garantam a qualidade e competitividade e estímulos à inovação

Mais conteúdo sobre:
Faesp Summit Agronegócio

Encontrou algum erro? Entre em contato

Camila Turtelli, Leticia Pakulski e Nayara Figueiredo, O Estado de S.Paulo

30 Novembro 2017 | 05h00

Problemas relacionados a questões tributárias, gargalos logísticos, falta de garantia de renda e restrição de oferta de importantes insumos foram apontados no Summit Agronegócio como motivos para que o País tenha um dos níveis mais elevados do mundo em despesas no agronegócio. “O custo de produção no Brasil é 79% superior ao da Argentina e 39% acima das despesas no Uruguai”, afirmou o embaixador e presidente executivo da Associação Brasileira Indústria Trigo (Abitrigo), Rubens Barbosa, no painel “Tendências – o futuro do agro”.

O dirigente vê um acirramento na competitividade entre os produtores de commodities agrícolas no mundo, diante dos avanços de produtividade em todos os países. Além disso, Barbosa diz que estão ocorrendo alterações geopolíticas importantes desde a entrada mais forte da China no comércio exterior, com as quais os players do mercado precisam lidar.

Falta comunicar. O ex-ministro da Agricultura e coordenador do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas (GV Agro), Roberto Rodrigues, ressaltou, no mesmo painel, a necessidade de o setor comunicar melhor a sua relevância para a economia do País. “Temos incompetência brutal em comunicar a importância do agro”, disse Rodrigues. “Falta o setor urbano assumir a importância do segmento rural. Renda no campo não é questão para produtor, é para toda sociedade.”

De acordo com ele, seguro, crédito e preço de garantia são três peças conjuntas para a política agrícola, mas disse que o acesso ao seguro não avançou na mesma velocidade dos demais. “Seguro rural é tão importante ou mais do que crédito rural”, afirmou. Neste ano-safra, especificamente, em que houve atraso no plantio de soja no Centro-Oeste e se pode adiar também o milho safrinha, há risco climático maior envolvido, com possibilidade de lucro menor, apontou o ex-ministro.

Sobre a restrição da Rússia à importação de carnes do Brasil, Rodrigues ressaltou a importância de o País não mostrar “fragilidades” perante os clientes. “O governo está trabalhando firme (para solucionar a questão), a solução virá, mas com algumas perdas já consignadas”, disse.

Também presente ao painel, o deputado federal pelo PSD-PR e ex-ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, ressaltou a possibilidade de, no futuro, faltar adubo para o Brasil, principalmente o potássio. Ele lembrou que o País é extremamente dependente desse nutriente, o que é uma preocupação para o setor e que tem condições de ser solucionada. “Temos a terceira maior reserva de potássio do mundo”, disse o ex-ministro, que acrescentou: “Há sustentabilidade para exploração dessas reservas”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Camila Turtelli, Leticia Pakulski e Nayara Figueiredo, O Estado de S.Paulo

30 Novembro 2017 | 05h00

O vice-presidente de Agronegócios do Banco do Brasil, Tarcísio Hübner, disse na abertura do Summit Agronegócio 2017 que o agronegócio representa 23% do PIB brasileiro e é responsável pelo superávit na balança comercial. Ele atribuiu esse resultado às tecnologias empregadas e ao acesso a crédito. Hübner comentou que, com o cenário de juros mais baixos, crédito não será problema no futuro. “Estará mais disponível e competitivo, com juros baixos”, afirmou o executivo, acrescentando que o financiamento externo também estará mais acessível aos produtores rurais brasileiros. “Temos a opção de funding externo e o que não falta é recurso no mundo.”

O representante do maior banco financiador do agronegócio do País, com cerca de 60% das contratações, ponderou que o crédito terá um papel importante no estímulo ao plantio em um cenário menos remunerador. “As margens são apertadas e, se o produtor não garantir a renda, teremos problemas.” Segundo ele, um dos desafios é levar plataformas e soluções digitais para garantir maior rentabilidade ao campo.

Com relação ao seguro agrícola, o executivo do BB disse que o banco substituiu a oferta de seguro de produção pelo seguro de faturamento, mas cobrou maior participação das seguradoras. “Para que avance, seguro de faturamento precisa ser mais ofertado”, assinalou. 

Mais conteúdo sobre:
Banco do Brasil Summit Agronegócio

Encontrou algum erro? Entre em contato

Camila Turtelli, Leticia Pakulski e Nayara Figueiredo, O Estado de S.Paulo

30 Novembro 2017 | 05h00

O chefe-geral da Embrapa Monitoramento por Satélite, Evaristo Eduardo de Miranda, de Campinas (SP), afirmou que o mundo vive um “dilúvio” de informações na agricultura e que o desafio, agora, é selecionar os dados mais relevantes e que possam de fato colaborar com avanços e ganhos de produtividade. “O grande desafio é captar dados importantes e produzir tecnologia com resultado”, disse Miranda, na terça-feira, na abertura do painel “Agrotech: tecnologia e resultados”, no Summit Agronegócio 2017, realizado em São Paulo. “Precisamos da capacidade de analisar informação na área rural e oferecer soluções.”

Citando dados apresentados na abertura do evento pelo ministro em exercício da Agricultura, Eumar Novacki, de que 66,3% das áreas do País são de cobertura verde, Miranda enfatizou o fato de agricultores e pecuaristas colaborarem para a sustentabilidade do País. “A agricultura brasileira tem essa particularidade, usa metade da área, a outra, preserva”, disse.

Sobre o uso de tecnologia no setor, Miranda afirmou que sistemas autônomos estão chegando à agricultura e que a indústria de máquinas “ganha muito dinheiro com informação da internet das coisas”.

O diretor de Tecnologia da Informação da Raízen, Fábio Mota, um dos palestrantes, acredita que, no ramo de commodities, as empresas sempre trabalham com margens baixas e, por isso, “não podem esbanjar dinheiro” e investir em inovações que não tenham resultados práticos.

Estratégia de inovação. De olho nesse cenário, as startups são um caminho mais seguro para se investir em inovação já com resultados comprovados, acredita Mota. “Inauguramos um espaço para hospedar startups com negócios que possam ajudar a empresa direta e indiretamente”, disse, sobre projeto da Raízen. Ele afirmou que sua equipe passou por período longo de conversas para que acionistas do grupo concordassem que o trabalho feito com startups faz parte da estratégia de inovação de empresas.

O presidente da Hughes Brasil, empresa de fornecimento de serviços de rede e tecnologia de comunicação via satélite, Rafael Guimarães, disse que ainda não existe tecnologia para levar conectividade a determinadas regiões do Brasil, mesmo que exista renda para isso. “Enxergamos conectividade como ferramenta para ligar produtor com indústria, sindicatos e associações.” Para Guimarães, a conectividade aumenta a qualidade de vida do produtor, com acesso à informação, comunicação e entretenimento.

O presidente da Strider, Luiz Tângari, enxerga nas startups, atualmente, a forma “mais eficaz de transformar mercados rapidamente”. “Produtores são ótimos experimentadores, mas para eles adotarem tecnologia precisam ver utilidade”, assinalou.

Para Tângari, esses “berçários” de empresas são capazes de pegar tecnologias sofisticadas e transformar em produtos que possam ter utilização prática. “Não adianta pintar mapa colorido se a pessoa não souber usar dados”, disse. A empresa de Tângari desenvolve inovações tecnológicas para o mercado agrícola.

O executivo ressaltou, no entanto, que as startups não substituem órgãos de pesquisa. “É preciso que a Embrapa desenvolva ciência. São coisas diferentes e não competem. Cada um tem o seu papel”, disse.

Biotecnologia. O chefe-geral da Embrapa Meio Ambiente, Marcelo Boechat Morandi, destacou que as startups mudaram o mercado de biopesticidas do País e que a sustentabilidade intensifica uma tendência de avanço da biotecnologia. Morandi ressaltou que o respeito ao meio ambiente cria oportunidades de crescimento econômico e eficiência produtiva, citando certificações de origem, geográfica, de produto e rotulagem ambiental. “Sustentabilidade é um fato consumado; não dá para escapar dela”, destacou.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Camila Turtelli, Letícia Pakulski e Nayara Figueiredo, O Estado de S.Paulo

30 Novembro 2017 | 05h00

O Ministério da Agricultura pretende ampliar a participação do agronegócio brasileiro no comércio internacional, declarou o ministro em exercício, Eumar Novacki, na abertura do Summit Agronegócio Brasil 2017, em São Paulo. Ele ressaltou que o presidente Michel Temer “tem dado todo o respaldo para as ações do setor”. “Queremos chegar a 10% de participação do Brasil no mercado externo”, disse Novacki. “Isso representa mais US$ 30 bilhões na economia brasileira.”

No evento, ao mencionar o tema meio ambiente, Novacki garantiu que o Brasil tem uma vasta área preservada, ou 66,3% das áreas do País. “Em nenhum lugar o produtor preserva tanto quanto no Brasil.” Para ele, por causa disso, o agronegócio tem cerca de R$ 2 trilhões imobilizados, “a serviço do meio ambiente”.

O diretor do Departamento de Acesso a Mercados do Ministério da Agricultura, Gustavo Cupertino Domingues, afirmou que ainda há um grande espaço para que o Brasil explore o comércio exterior de produtos agropecuários e, para isso, está em andamento um plano estratégico para trabalhar a imagem e a sustentabilidade do agronegócio e a abertura de novos mercados. “Queremos expandir nossa pauta de exportações”, disse o executivo painel “Novos mercados, novas oportunidades”. Segundo Domingues, o projeto será realizado com base em consulta pública, já iniciada, e deve avançar em todas as etapas de implementação até o ano que vem.

O presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja do Brasil (Aprosoja Brasil), Marcos da Rosa, também acredita que há espaço para o País crescer no exterior. Mas cabe às instituições o papel de ajudar o governo a apresentar o Brasil aos mercados lá fora, já que “os adidos agrícolas não são suficientes”.

Proteínas. Já na pecuária, o analista sênior do Rabobank, Adolfo Fontes, estima que o consumo de carnes no mundo deve crescer 45 milhões de toneladas nos próximos dez anos. Desse aumento, 10 milhões de toneladas devem ser apenas em carne bovina. Segundo Fontes, o crescimento da demanda global por proteínas sustenta a importância da oferta brasileira, que tem potencial de expansão, com ganhos de produtividade. O analista destacou que o País pode elevar sua produção, sem a necessidade de ocupar novos espaços ou mesmo desmatar, já que é possível recuperar as pastagens degradadas.

Sobre esse assunto, o diretor de Agronegócios do Banco do Brasil, Marco Túlio Moraes da Costa, disse acreditar que a recuperação dessas terras é de suma importância para o desenvolvimento da produção no País. Para Costa, o banco apoia o uso de integração lavoura-pecuária-floresta para retomar o cultivo em áreas degradadas. “Sabemos a importância de dar crédito sustentável”, destacou. 

Exportação de carne deve ser 5% maior em 2018

As exportações brasileiras de carne bovina devem crescer 5% em volume em 2018, afirmou o analista sênior do Rabobank, Adolfo Fontes, nos bastidores do Summit Agronegócio 2017. A perspectiva leva em conta que o embargo da Rússia às carnes brasileiras seja resolvido em 60 dias. Caso isso não aconteça, as projeções precisarão ser revisadas. Ele também parte do princípio de que os embarques da carne bovina in natura aos EUA sejam retomados no início de 2018. “Essa é a chave para o Brasil buscar outros mercados como México, Canadá e Japão”, disse, explicando que eles são responsáveis por 40% do mercado global da proteína. 

Sob iguais condições, Fontes projeta que as exportações de carnes suína e de frango avancem 3% em 2018. “As compras da China devem voltar a crescer após os ajustes de 2017.” As compras da Coreia do Sul, por Santa Catarina, devem sustentar os embarques. “Caso a Rússia não retome as compras de carne suína até fevereiro, vamos ter pressão interna de preços.” 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Camila Turtelli, Leticia Pakulski e Nayara Figueiredo, O Estado de S.Paulo

30 Novembro 2017 | 05h00

No painel “Sustentabilidade dá dinheiro: as oportunidades do mercado verde”, dentro do Summit Agronegócio 2017, o chefe-geral da Embrapa Meio Ambiente, Marcelo Boechat Morandi, apontou a falta investimento em implementos para a produção agropecuária sustentável e disse que o Brasil precisa de recursos de fomentadores e de fundos para ampliar a participação do segmento. Mesmo com essas deficiências, práticas mais ecológicas avançam na agropecuária, garantiu, e exemplificou: “O Brasil já tem 11 milhões de hectares com sistemas de integração – lavoura-pecuária ou lavoura-pecuária-floresta (ILPF)”, disse. “Tem-se verificado que a ILPF reforça a resiliência ao ambiente, ampliando a resistência de plantações a períodos prolongados de déficit hídrico, por exemplo.”

Já a falta de comunicação dentro do sistema de produção sustentável foi o principal gargalo apresentado pelo presidente do Grupo de Trabalho de Pecuária Sustentável (GTPS), Ruy Fachini Filho. “Com uma articulação mais ampla da cadeia de valor, teríamos resultados melhores”, disse. Ao citar o GTPS, explicou que um dos seus objetivos é promover sustentabilidade na cadeia pecuária. “A meta é aumentar a produção de forma sustentável”, afirmou. Fachini ressaltou que o grupo realiza programas de capacitação de pecuaristas que promovam a melhoria das técnicas de produção. “Queremos, também, formar um produtor que trabalhe em conjunto com a indústria.”

Outro obstáculo apontado por quem lida com agropecuária sustentável é a ausência de recursos para pesquisa. Para o diretor industrial da Korin Agropecuária, Luiz Carlos Demattê, embora a agricultura orgânica venha se estabelecendo com bases científicas, a falta de recursos “é uma questão estrutural que limita avanços”, assinalou. “O solo e as condições climáticas do País exigem o desenvolvimento de pesquisa para o setor obter melhores resultados”, defendeu Demattê, acrescentando, porém, que se antes a sustentabilidade era um entrave, hoje é oportunidade.

Neste contexto, ele destacou o aumento da demanda por alimentos cuja produção leva em conta valores como bem-estar animal e que prezam e divulgam princípios de sustentabilidade ambiental. “Há um conjunto de consumidores adotando esses alimentos diferenciados”, disse. Sobre a indústria que representa, Demattê explicou que a Korin, ligada à Igreja Messiânica, valoriza “características territoriais dos produtos agrícolas” e que os melhores resultados provêm da produção de frangos orgânicos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Leticia Pakulski, O Estado de S.Paulo

30 Novembro 2017 | 05h00

A importância do Brasil como fornecedor de alimentos fica ainda mais relevante com o aumento da demanda global e das mudanças climáticas, diz o vice-presidente global de Assuntos Corporativos da Bunge, Stewart Lindsay, em entrevista exclusiva ao Broadcast Agro, serviço de notícias do agronegócio em tempo real da Agência Estado. Ele destaca, porém, que o País tem muito a fazer para assegurar o escoamento de sua produção. “Para ter competitividade é crucial melhorar a logística no Brasil e desenvolver redes integradas e multimodais. Hoje, muito tempo e muito dinheiro são perdidos por causa de condições precárias de estradas.”

Lindsay, que participou do Summit Agronegócio, promovido pelo Estado, é responsável pela estratégia e pelos programas de sustentabilidade da Bunge em nível global. “Consumidores têm um interesse crescente em produtos sustentáveis, e eles contam cada vez mais com dados para fazer escolhas com base nessas preferências.”

O executivo ressalta que, mesmo com o consumo mais restrito no Brasil nos últimos dois anos, o País segue tendo papel crucial dentro da estratégia da Bunge. “O Brasil ainda é um dos principais mercados para a Bunge; a relevância do mercado interno é constante.” A seguir, os principais trechos da entrevista feita por e-mail antes do evento.

Como grande exportador de soja e milho, o Brasil terá maior participação no mercado global?

Com certeza. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) estima que até 2027 o Brasil exporte 30 milhões de toneladas adicionais de soja. Outras fontes preveem crescimento similar. O País tem um setor agrícola eficiente, tecnologia de ponta, recursos hídricos amplos e pastagens onde a agricultura pode se expandir. Isso faz do Brasil uma região-chave para o futuro, e o seu papel crescerá em importância à medida que a demanda global por alimentos se expande e as mudanças climáticas tornarem o comércio mais importante.

Como o sr. avalia a logística de grãos no Brasil? A Bunge planeja novos investimentos no País?

A empresa investiu consideravelmente na última década para melhorar nossa capacidade de embarcar grãos dentro do Brasil e exportá-los para o exterior. Nossos terminais portuários recentemente concluídos em Miritituba e Barcarena melhoraram a eficiência e a sustentabilidade da logística de exportação pelo Norte para grãos de Mato Grosso. Em 2016, expandimos nossa parceria com a Amaggi, permitindo um gerenciamento compartilhado de todas as operações na rota. Melhorar a logística e desenvolver redes integradas e multimodais são cruciais para a competitividade agrícola do País. Os sistemas de hidrovias têm grande potencial, mas precisam estar conectados a boas redes rodoviárias e ferroviárias. Hoje, muito tempo e dinheiro são perdidos por causa de condições de estrada precárias. Existem alguns planos importantes de expansão ferroviária no Brasil para os próximos anos, incluindo projetos listados no Programa de Investimento Federal e iniciativas privadas, como a Ferrogrão.

A Bunge investiu para estimular práticas sustentáveis na produção de grãos no Brasil. A intenção é comprar mais soja e milho sustentáveis no futuro?

Estamos orgulhosos de ter ajudado a aumentar a sustentabilidade da agricultura brasileira. Nos juntamos a organizações não governamentais (ONGs) e a associações setoriais em projetos em favor da implementação do Código Florestal Brasileiro nas fazendas, de uma melhor governança ambiental nos municípios em que operamos. Também para fornecer informações aos agricultores em relação a práticas trabalhistas e agrícolas e lutar contra o estresse hídrico em áreas sensíveis. O Brasil sempre foi um produtor eficiente, mas, com recursos naturais sob pressão em todo o mundo, precisamos continuar colaborando para produzir mais alimentos, de forma mais eficiente e com maior sensibilidade ao ambiente. Isso significa reduzir o desmatamento e gerenciar bem a água e outros ativos ambientais. Consumidores também têm um interesse crescente em produtos sustentáveis, e eles têm cada vez mais os dados para fazer escolhas com base nessas preferências. Na Bunge, estamos trabalhando para desenvolver cadeias de valor do século 21 que atendam a todas essas demandas, e que sejam mais rastreáveis, confiáveis e sustentáveis.

Setores como o de açúcar e de bioenergia, nos quais a Bunge também opera no Brasil, vivem momento de recuperação. Como a empresa vê as perspectivas desses setores no longo prazo?

Após o período de crise no setor, a perspectiva é boa para etanol, açúcar e geração de bioenergia.

A demanda chinesa por soja e outras commodities agrícolas cresceu significativamente nos últimos anos, o que tem apoiado os preços e estimulado a produção. O sr. acredita que esse movimento é crescente?

Deve continuar, sim. A capacidade de fornecer produtos seguros, de alta qualidade e sustentáveis diretamente da origem no Brasil continuará a ser um ativo vital para empresas como a Bunge. Cada vez mais, esperamos que os consumidores chineses adotem uma maior preferência por alimentos de valor agregado e sustentáveis.

O mercado interno no Brasil se retraiu nos últimos anos por causa da crise econômica. Qual foi o impacto disso para a Bunge? Espera mudança em 2018?

A economia brasileira experimentou um crescimento econômico negativo por dois anos consecutivos, e as implicações vão de lado a lado: isso afetou desde decisões de investimento até o comportamento do consumidor, uma vez que existe um nível de incerteza incomum. Apesar disso, o Brasil ainda é um dos principais mercados para a Bunge. A relevância do mercado interno é constante. Trabalhamos para fortalecer nossa posição como líderes de mercado e continuaremos buscando oportunidades que ofereçam mais valor ao nosso negócio.

Como a Bunge vê a produção brasileira de soja e milho em 2017/2018? Analistas até agora projetaram safras menores. Isso representa uma ameaça para aquisições de grãos?

Como uma empresa listada na Nyse, a Bunge não faz declarações prospectivas sobre questões que interfiram nos lucros.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Nayara Figueiredo, O Estado de S.Paulo

30 Novembro 2017 | 05h00

Os Núcleos de Inovação Tecnológica (NITs) do segmento agrícola em São Paulo devem se expandir em 2018, apoiados pela liberação de novos recursos públicos e pelo aumento das parcerias com o setor privado.

Na primeira semana de dezembro, o governador Geraldo Alckmin deve divulgar o resultado de um edital aberto em maio que destinará parte dos R$ 120 milhões da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) aos seis institutos de pesquisa agropecuária ligados ao governo. A informação foi antecipada ao Broadcast Agro, na segunda-feira, nos bastidores do Summit Agronegócio Brasil 2017, pelo secretário de Agricultura do Estado, Arnaldo Jardim.

Sem revelar o volume de recursos que será aplicado no segmento de pesquisa e inovação em 2018, o secretário também afirmou que a expectativa é que 25% do total de investimentos usados nos institutos venha da iniciativa privada. Atualmente, as empresas contribuem com 18% desses aportes. Em anos anteriores, essas parcerias geravam apenas 5% em recursos. Foram beneficiados os institutos Biológico (IB), Agronômico (IAC), de Zootecnia (IZ), Pesca (IP), Economia Agrícola (IEA) e Tecnologia de Alimentos (Ital).

Intensificação. “Estamos fazendo um movimento para intensificar a atuação dos institutos de pesquisa do setor em 2018, adequando-os ao momento do agronegócio. Também aumentamos as parcerias com o setor privado que vão render outros investimentos”, ressaltou Jardim.

Para ele, esses avanços ganharam força com a assinatura do Decreto n.º 62.817, em setembro, que regulamentou as parcerias das instituições de pesquisa paulistas, entre si e com empresas, para pesquisas voltadas à inovação. No âmbito estadual, a medida se enquadra ao novo Marco Legal de Ciência, Tecnologia e Inovação e à Lei Paulista de Inovação.

Na avaliação de Jardim, a regulamentação com as empresas privadas e o fomento à pesquisa vindo do governo do Estado permitirão que especialistas e institutos registrem os resultados obtidos e façam deles algo rentável. “Durante muito tempo, os institutos desenvolveram novas variedades químicas e biológicas que não foram registradas, se tornaram de domínio público e deixaram que colaborar, financeiramente, para que a engrenagem continue a girar”, explica o secretário.

Não há meta estabelecida para a entrada de novas empresas nas parcerias em 2018, mas Jardim comenta que há negociações em andamento. Ele estima que mais de 30 já estejam envolvidas com os institutos de pesquisa agropecuária de São Paulo, entre elas a empresa de saúde animal Phibro Animal Health.

“A parceria mais recente que podemos citar é o fornecimento de dados do IAC para a Bolsa B3, que serão usados na composição do índice do boi gordo, anunciado há três semanas”, acrescenta.

Neste mês, somente o IAC recebeu o aporte de R$ 4,5 milhões para a nova instalação do Laboratório de Fisiologia Vegetal e Pós-Colheita.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Rogério Barros Moraes, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

30 Novembro 2017 | 05h00

A China consome a maior parte das commodities agrícolas exportadas pelo Brasil. Há anos, o país asiático figura como um dos principais responsáveis pelos sucessivos resultados positivos na balança comercial do agronegócio brasileiro. E não há sinal de mudança dessa tendência no curto prazo. Até outubro deste ano, os chineses compraram US$ 23,8 bilhões em produtos do Brasil, o equivalente a quase 30% do total de US$ 81,99 bilhões, em relação a igual período de 2016 (veja gráfico). 

O país asiático também merece destaque nos números do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC). A Pasta calcula saldo positivo entre US$ 65 bilhões e US$ 70 bilhões na balança comercial, sendo que, até setembro, apenas o superávit ligado às transações com a China representava 30% desse total. Parte considerável desse montante veio da compra de commodities agrícolas, como a soja.

Com tamanho peso nas exportações brasileiras do agronegócio, a dúvida que sempre permeia as análises de especialistas do setor é se não é arriscado manter uma dependência nesse nível. Alguns setores, por exemplo, tomaram um tombo de 2016 para cá. É o caso do açúcar brasileiro, que por causa de taxas protecionistas impostas pelos chineses, teve sua participação reduzida significativamente em 2017. No ano passado, os embarques da commodity somaram US$ 850 milhões. Até outubro de 2017, estavam 84% menores.

Analistas concordam porém que, se houver recuo nas compras da China, isso não deve ocorrer nos próximos anos. Para o analista Fábio Meneghin, da consultoria Agroconsult, o consumo de commodities brasileiras – não só as do agronegócio – pelo gigante asiático deve se expandir, mesmo porque se projeta um incremento anual da economia daquele país na taxa de 6% a 7% para os próximos anos. “A China deve continuar sendo principal parceiro comercial do Brasil.”

O pesquisador Thiago Bernardino de Carvalho, do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq-USP, lembra que o agronegócio do Brasil continuará a ser estratégico para o abastecimento não só da China, mas do mundo. Apesar de reconhecer que a tecnologia nacional ainda precise avançar, Carvalho ressalta que, em termos de clima, disponibilidade de solo e água, não há um país com vantagens comparativas maiores. “A China, com toda a sua expansão populacional e dificuldades com área para produção, clima e água, tem aqui um grande e estratégico parceiro para os próximos anos”, analisa. 

Competição. Ele assinala que a disputa entre as commodities mais vendidas para lá deve se acirrar nos próximos anos, o que não prejudicaria o Brasil. A liderança deve permanecer com a soja, “até pelas escolhas políticas e de mercado tanto do governo brasileiro quanto do chinês”, diz. “Entretanto, as carnes ganharão cada vez mais espaço.” No dia 1.º de novembro, por exemplo, o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, anunciou a habilitação, pela China, de mais 22 plantas frigoríficas brasileiras, sendo 11 de bovinos e 11 de frangos, com potencial para gerar US$ 50 milhões por ano. Além disso, em meados do mês um grupo de empresários chineses visitou Mato Grosso para conhecer a produção de suínos, informou o governo do Estado.

O presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), Antonio Jorge Camardelli, também é otimista quanto à expansão dos embarques do agronegócio brasileiro para o mercado asiático. No seu setor, projeta que o incremento da receita de exportações de carne bovina in natura só para a China, que até outubro deste ano foi de US$ 718 milhões, com 166 mil toneladas, deverá alcançar 10% – o volume embarcado até outubro já superava o total de 2016 em 7,4%, conforme a Abiec, com base nos dados do MDIC. Ele avalia que a manutenção no poder do líder do Partido Comunista Chinês, Xi Jinping, indica que o país manterá a tendência de abrir mais a economia. Para o executivo, a credibilidade da proteína animal brasileira naquele mercado conseguiu, inclusive, prevenir maiores estragos provocados pela Operação Carne Fraca, em março, além dos escândalos envolvendo os executivos a JBS. “A China chegou a suspender alguns contratos de exportação, mas logo reviu a decisão.”

Aves e suínos. O otimismo quanto ao parceiro chinês permeia igualmente as projeções da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). O presidente executivo, Francisco Turra, recorre a números da economia chinesa para reforçar a tendência de alta. O país deve crescer este ano de 6,5%, segundo ele. “Se por um lado o consumo está aquecido na China, por outro a produção avícola reduziu sua capacidade produtiva”, diz, lembrando que 80% da carne de frango adquirida pela China vem do Brasil, que é um país livre de influenza aviária, o que aumenta sua competitividade. “Em 2016, foram 480 mil toneladas com receita de US$ 860 milhões.”

Urbanização no país asiático amplia oportunidades

Para o diretor da KPMG, rede de consultores e auditores com presença também no agronegócio, Daniel Lau, o Brasil deveria investir mais em visitas governamentais, setoriais e empresariais para favorecer a relação comercial entre os dois países. 

Lau também acredita que a situação atual da China leva à conclusão de que a voracidade pelas commodities brasileiras tem fôlego para seguir adiante. Segundo o consultor, a perspectiva de aumento das importações se deve a fatores como o processo de urbanização da China, que promete se estender até 2030. Esse movimento envolve, no mínimo, 18 milhões a 20 milhões de pessoas. 

Além da soja, a demanda deverá crescer para commodities como celulose, proteína animal e minério de ferro. “Alguns vão crescer mais e outros menos, mas todos vão se expandir”, afirma Lau, complementando que para o milho as expectativas são mais favoráveis. Isso porque o governo chinês adotou como meta até 2020 adicionar 10% de álcool derivado do cereal para cada litro de gasolina.

Embora a China tenha um grande estoque do grão, o mercado interno vai demandar maior importação do produto. “É uma oportunidade para o Brasil aumentar sua pauta de exportação para China”, avisa Lau. 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Camila Turtelli, Leticia Pakulski e Nayara Figueiredo, O Estado de S.Paulo

30 Novembro 2017 | 05h00

A presidente da Gro Intelligence, Sara Menker, disse nesta segunda-feira, durante sua exposição no Summit do Agronegócio 2017, promovido pelo Grupo Estado, que as exportações do Brasil têm grande dependência da China ainda que, nos últimos 40 anos, o País tenha feito um grande trabalho no mercado internacional. Para ela, o país asiático tem um papel “desproporcional” na balança comercial brasileira. “Há vários mercados em que o Brasil ainda não está participando como deveria.”

Sara Menker ressaltou a força da produção brasileira e assinalou que a área de soja no Brasil continua crescendo, apesar da queda dos preços globais. Ela citou também a Operação Carne Fraca, deflagrada em março no País, lembrando que teve uma forte influência no mercado global de carne de frango, já que o Brasil domina este segmento e é o principal exportador da proteína.

Demografia. Para a executiva, que mantém uma empresa de dados e consultoria voltada ao desenvolvimento de produtos que modificam a forma como o mundo entende a agricultura, existe uma grande inflexão demográfica que deve acontecer em breve.

“Em 2023, Índia, África e China vão representar 55% da população mundial”, disse Sara Menker. Ela comentou também que a dieta da China vai sofrer alterações e a demanda do país por alimentos será crescente. Ainda assim, ressaltou a necessidade de o Brasil acompanhar o crescimento da África. “Muito do crescimento da demanda por alimentos virá da África Subsaariana”, acrescentou a empresária.

Para ela, neste cenário, o Brasil precisa lançar mão de inteligência global de mercado para se manter na liderança mundial da produção e exportação de alimentos. Isso significa entender o mercado internacional e seus competidores e monitorar oportunidades de novas parcerias comerciais. 

Mais conteúdo sobre:
Agronegócio

Encontrou algum erro? Entre em contato

Rogério Barros Moraes, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

30 Novembro 2017 | 05h00

O debate sobre uma política agrícola de longo prazo será um dos pontos que voltarão aos palanques eleitorais em 2018. Previsibilidade orçamentária, clareza na concessão de crédito, juros de longo prazo, maior proteção ao produtor, com oferta de seguro rural condizente com as necessidades, prioridade para o planejamento de atividades e investimentos e uma maior inserção do Brasil no mercado externo. Esses são alguns dos benefícios apontados por representantes do agronegócio, caso a política agrícola brasileira contemple um horizonte de no mínimo cinco anos.

Atualmente, o setor lida com mudanças anuais, no âmbito de Planos Safra, que começam em junho de um ano e se encerram em julho do ano seguinte. Pouco tempo antes do início de cada período é que se divulgam as condições e crédito disponíveis e também a verba para subvenção ao prêmio do seguro rural.

O vice-presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), José Mário Schreiner, assinala que o processo de convencimento na adoção de uma política agrícola de longo prazo teria de ser gradual. Para ele, inicialmente, se deveria considerar um horizonte de dois anos, em seguida três, e assim por diante. O importante, explica, é encontrar um ritmo em que governo, pequenos, médios, grandes produtores e toda a cadeia produtiva percebam os benefícios das mudanças.

Eleições. A CNA, com outros representantes do agronegócio, deve apresentar, até março de 2018, um esboço com as principais sugestões nesse sentido aos candidatos a cargos executivos. O documento será enviado também aos candidatos à Presidência da República. “Nossa proposta é contribuir para a criação de uma política de Estado, que paire acima de governos e que reúna medidas capazes de garantir a continuidade do desenvolvimento do agronegócio, sem as intempéries da política partidária”, enfatiza Schreiner.

O modelo plurianual, esclarece ele, atribuiria maior efetividade e abrangência, por exemplo, a um dos calcanhares de aquiles do agronegócio, o seguro rural. “No Brasil, apenas de 13% a 14% dos produtores fazem apólices para reduzir prejuízos, enquanto nos Estados Unidos esse porcentual beira os 80%”, diz o representante da CNA, acrescentando que na proposta também deverão constar políticas públicas inclusivas, aplicáveis por longos períodos e que criem ambiente estável para os negócios. “O que se pretende é que investimentos de médio e longo prazos em tecnologia, benfeitorias estruturais, aperfeiçoamento profissional e em melhorias sanitárias, entre outros, sejam planejados com a antecedência necessária e contem com parâmetros confiáveis.”

O ex-ministro da Agricultura e coordenador do GV Agro, Roberto Rodrigues, também defende a adoção de um plano plurianual, o que, para ele, resultaria em avanços significativos para toda a cadeia produtiva. Em outubro, Rodrigues assumiu a titularidade da cátedra Luiz de Queiroz, da Esalq-USP, justamente com a missão de elaborar um plano de governo para o País – e não só para a agricultura e pecuária. Em evento posterior, no mesmo mês, o ex-ministro garantiu que já havia recebido o contato de potenciais candidatos à Presidência interessados nesse trabalho.

Avanço. Para o ex-ministro, em relação à agricultura e pecuária, o sistema atual produz dependência demasiada do crédito rural oficial, “porque não há no Brasil uma rede que ao mesmo tempo fomente investimentos e proteja o produtor de perdas causadas pelo clima ou pelas oscilações do mercado internacional”. Além disso, Rodrigues lembra que uma política pensada para vários anos é mais condizente com a característica básica do agronegócio, que é uma atividade de longo prazo. Isso não significa, porém, que não possam haver ajustes pontuais. “Claro que correções anuais deverão ser feitas sempre que for necessário, principalmente, para se adequarem à sazonalidade e às necessidades de acomodação de preços e de abastecimento.”

Rodrigues aponta ainda como positiva, uma política que contemple a possibilidade de criar alternativas economicamente viáveis de seguro rural na iniciativa privada. Mas, para isso, ressalta, é preciso remodelar o formato atual, para que a apólice de fato cubra as demandas do produtor.

Outro setor forte do agronegócio, o do cooperativismo, também defende a elaboração de um plano de longo prazo. O coordenador do ramo agropecuário da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), Paulo César Dias do Nascimento Jr., concorda que o setor não pode ficar, de uma safra para a outra, dependente de alterações circunstanciais nos diversos mecanismos de política pública. “O Plano Agrícola e Pecuário tem de ser considerado política de Estado, reduzindo, assim, as incertezas e garantindo a segurança necessária para o desenvolvimento do agronegócio brasileiro.”

Para governo, setor já tem programas de longo prazo

A ideia de reformulação das políticas em favor de um planejamento de longo prazo para o agronegócio enfrenta resistências no governo. Para o secretário de Política Agrícola Substituto do Ministério da Agricultura, Sávio Pereira, o setor já conta com políticas plurianuais, com revisões ano a ano e que não podem escapar de acompanhar as instabilidades da economia. “Alguns programas de financiamento público, como o Moderfrota, destinado à aquisição de máquinas agrícolas, existem há mais de 15 anos.

A Política de Garantia de Preços Mínimos foi criada em 1943”, defende Pereira, que ressalta que o Brasil tem uma das políticas agrícolas mais bem estruturadas do mundo. Sobre o seguro agrícola, tema que sempre volta à baila em ano eleitoral, ele diz que ofertar ao produtor brasileiro algo nos moldes do que os EUA oferecem aos seus produtores é descabido. “O orçamento anual americano para a área gira em torno de US$ 15 bilhões, cifra bem distante da realidade brasileira, de R$ 400 milhões (para o atual ano-safra).” 

Pereira enfatiza que as mudanças propostas ou já existem na atual política agrícola ou ultrapassam o ambiente do setor. “Dependem da conjuntura política nacional, da redução da taxa de juros básica e da estabilização da economia”, diz. O representante do ministério admite, porém, que o atual sistema de seguro agrícola está, de fato, aquém do ideal. Mas comenta que, por causa das instabilidades da economia, equalizações de taxas de juros, principalmente as de custeio, continuarão a ser feitas. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Anna Carolina Papp, O Estado de S.Paulo

30 Novembro 2017 | 05h00

A onda da alimentação saudável veio para ficar – e agora ganha força na indústria de proteína animal brasileira. Para atender à demanda dos consumidores, empresas lançam linhas de produtos sustentáveis, como carnes sem antibióticos e ovos de galinhas criadas soltas, fora de gaiolas. A produção de proteína animal orgânica, ainda que tímida quando comparada às grandes cifras norte-americanas, vem crescendo no País. Segundo a consultoria Euromonitor, em 2016, foram vendidas 116,6 mil toneladas de carne orgânica no Brasil. Em igual período, foram comercializadas 1,3 mil toneladas de ovos orgânicos. 

Esse crescimento tende a se acelerar, uma vez que, em 2017, diversas empresas anunciaram revisão em seus processos de fabricação para seguir essa tendência global. Kraft Heinz, Nestlé, a rede Giraffas, o Grupo Pão de Açúcar e a BRF, maior exportadora global de frango, assumiram neste ano o compromisso de deixar de usar ovos de galinhas confinadas em gaiolas até 2025. A JBS se comprometeu a fazer o mesmo até 2020, e a International Meal Company – dona de empresas como Frango Assado, Viena e Brunella –, até 2022. 

No ano passado, diversas companhias também já haviam se posicionado: as redes McDonald’s, Burger King, Subway e Brazil Fast Food Corporation (do Bob’s, Pizza Hut e KFC). Já a Tyson Foods, maior processadora de carne dos Estados Unidos, eliminou em junho o uso de todos os antibióticos de seus frangos com a marca Tyson. 

Seguindo o movimento do varejo, a cadeia produtiva se mobiliza para suprir essa demanda. Desde julho, a granja Mantiqueira, a maior da América do Sul, localizada no interior de Minas Gerais, passou a produzir diariamente 154 mil ovos cage free – oriundos de galinhas livres de gaiola. “Mesmo enquanto o meio avícola brasileiro e órgãos como o Ministério da Agricultura e a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) ainda discutem a adoção do sistema cage free, decidimos nos antecipar e lançar a linha Happy Eggs, a primeira linha do gênero em larga escala do País”, diz o presidente do Grupo Mantiqueira, Leandro Pinto.

O custo da nova linha, afirma, é de 35% a 40% maior que do que o sistema convencional. “A resposta do mercado é tímida. Porém, acreditamos no projeto e continuaremos investindo.”

A granja também é fornecedora do Grupo Pão de Açúcar, que lançou a sua linha no meio do ano pela marca Taeq. “Apenas quatro meses após o lançamento, foi notada uma evolução significativa da venda – 112% acima da expectativa inicial”, afirmou a empresa, em nota. Em outubro, a linha correspondeu a 3,2% das vendas de todos os ovos de marcas exclusivas do grupo. Segundo o Pão de Açúcar, até dezembro, a expectativa é de que a participação chegue a 5%. Em breve, será lançada uma linha de ovos vermelhos cage free, que serão fornecidos pela granja Korin. 

Além dos ovos, outro derivado que ganha apelo natural são os lácteos. A Nestlé, nos últimos meses, fechou parceria com nove novos produtores no interior de São Paulo interessados na conversão de suas propriedades para a produção de leite orgânico. “Agora já são 27 fazendas contratadas, representando 21,5 mil litros por dia”, afirmou a empresa, em nota. O plano é alcançar 30 mil litros por dia no primeiro semestre de 2019 – quando a Nestlé passará a comercializar o produto.

Desafio. Na trincheira da produção de carne livre de antibióticos e orgânica no País, a Korin, que também produz ovos, frutas e vegetais, vem expandindo sua gama de produtos – já são 236 – e acompanhando a evolução do mercado global. Neste ano, a empresa lançou linhas de embutidos sustentáveis e orgânicos, como almôndegas, quibes e hambúrgueres. “Ano que vem, será a vez do charque orgânico”, conta Reginaldo Morikawa, diretor superintendente da Korin. Este ano, a empresa realizou a primeira exportação de frango orgânico do Brasil, para Hong Kong. “Em fevereiro, exportaremos para os Emirados Árabes”, diz ele. A carne bovina orgânica comercializada pela Korin é produzida no Pantanal, seguindo normas técnicas e de sustentabilidade recomendadas pela Associação Brasileira de Produtores Orgânicos (ABPO).

Obstáculos. “O uso de grãos orgânicos é um dos maiores gargalos para a produção desse tipo de carne, porque as safras de soja e milho orgânicos são muito pequenas, limitadas a pequenos produtores”, observa Sylvia Wachsner, coordenadora do Centro de Inteligência em Orgânicos da Sociedade Nacional de Agricultura (SNA). Cerca de 90% da colheita de grãos no País é de lavouras transgênicas.

Esse é um dos desafios enfrentados pela Seara, do grupo JBS, que lançou em 2015 a linha de frangos DaGranja. “O produto atende a toda a legislação do frango verde, com ração vegetal, certificado de bem-estar animal e ausência de antibióticos”, afirma Marcelli Ganzarolli, gerente executiva de Marketing de Seara. “Porém, não trabalhamos com ração orgânica, até porque a produção é muito restrita para a escala de que precisamos.”

Ela afirma que a empresa quadruplicou o volume de vendas do início do projeto para agora. “Ainda temos o desafio de distribuir mais por todo o País. Para isso, precisamos conquistar o varejista em relação ao valor do produto e o benefício que ele entrega.”

O preço ainda é um fator limitante para a adesão mais expressiva de produtos naturais, mas, segundo especialistas, a disparidade tende a cair. “Nós já baixamos cinco vezes o preço do filé de peito de frango, por exemplo”, diz Morikawa. “Só este ano reduzimos em 12%, pois investimos em uma máquina de corte automático que deu ganho de escala em 3%.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tânia Rabello, O Estado de S.Paulo

30 Novembro 2017 | 05h00

Problemas cada vez mais caros e de complexa solução rondam a agricultura convencional. O pacote monocultura-adubo químico-agrotóxicos-transgênicos dá sinais de esgotamento em algumas frentes. Resistência a agroquímicos; surgimento de mais pragas; perda gradual da capacidade nutritiva do solo, e, consequentemente, da produtividade, e poluição de mananciais são alguns dos problemas para os quais a pesquisa e os agricultores buscam alternativas no campo da biologia e da agroecologia.

O professor Carlos Armênio Khatounian, da Área de Agroecologia e Agricultura Orgânica da Esalq-USP, lembra, por exemplo, de uma lagarta, a falsa-medideira, que virou praga após o surgimento da ferrugem da soja. A aplicação intensiva de fungicida para controlar a ferrugem matou outros micro-organismos que a controlavam. “Sem inimigos naturais, ela se tornou uma praga.” 

Uma grande multinacional do setor de agroquímicos, a FMC, resolveu direcionar, há cerca de 15 anos, parte dos seus investimentos para o desenvolvimento de defensivos biológicos. Conforme o presidente da companhia no Brasil, Ronaldo Pereira, esta é a linha que mais cresce na empresa, na base de 30% ano, enquanto o rendimento total da indústria de agroquímicos no Brasil deve se manter ou subir levemente em 2017, diz. “A tendência é que os biológicos ganhem mais importância.” Atualmente, 4% do faturamento da FMC, de US$ 520 milhões em 2016 veio dos biológicos. Entre as vantagens, ele aponta menor custo, um tempo mais curto para o registro e a dificuldade de pragas criarem resistência. 

Mitos. Na pesquisa e nas próprias lavouras, alguns mitos têm sido quebrados em relação à agricultura que se volta a práticas ecológicas. O principal paradigma a cair por terra é de que “custa mais” ser sustentável. Recente pesquisa feita na Esalq-USP prova que, ao contrário, a sustentabilidade é mais rentável. A autora do estudo, a agrônoma Dienice Bini, testou o efeito de práticas de sustentabilidade sobre o desempenho econômico de produtores de café. Sob orientação da professora Silvia Helena Galvão de Miranda, Dienice apurou que a renda do produtor sustentável aumentou em relação ao produtor convencional. “O custo de produção em cafezais certificados foi de R$ 408,99 por hectare (referente à média das safras 2011 e 2013), e o de um produtor não certificado foi menor, de R$ 394,91”, diz Dienice. “Mas o produtor certificado colheu mais por hectare, 47,8 sacas, ante 39,9 do convencional.”

Além do café, outra importante cultura que contribui para o superávit da balança comercial brasileira, a cana-de-açúcar, tem exemplos cabais de que pode ser economicamente viável quanto mais métodos naturais forem adotados. “Representantes da agricultura convencional sempre vêm me procurar para ampliar conhecimentos em relação a técnicas que aliem preservação da biodiversidade com aumento de produtividade”, relata um ícone nesse setor, o empresário Leontino Balbo, de Sertãozinho (SP).

Principal produtor e exportador mundial de açúcar orgânico, sob a marca Native, Balbo cultiva 22 mil hectares de cana orgânica, seguindo os preceitos da “Agricultura Revitalizadora de Ecossistemas”. Biodiversidade é a palavra-chave, principalmente em relação à vida do solo. “Ao mesmo tempo que essa agricultura providencia produção comercial em larga escala, restaura os recursos naturais presentes no ecossistema”, explica. “Após 30 anos de trabalho, a fertilidade dos nossos solos é maior do que há 500 anos, isso comprovado cientificamente, por meio da restauração da bioestrutura ativa do solo.” 

O resultado é produtividade 25% maior em relação à média dos canaviais de SP e até 7 cortes por planta, ante a média de 4 a 5 no entorno. O produtor é categórico ao afirmar que, sob a agricultura convencional, o solo está se degradando. E que a agricultura convencional terá de mudar seus métodos. “Produtores no Centro-Oeste já estão percebendo isso.”

Mais conteúdo sobre:
Agronegócio

Encontrou algum erro? Entre em contato

Gustavo Porto, O Estado de S.Paulo

30 Novembro 2017 | 05h00

A cana-de-açúcar sempre é citada como exemplo de matéria-prima para a produção de energia limpa, renovável e competitiva. É no etanol, produzido no Brasil a partir dessa cultura, que o setor deposita esperanças para cumprir as metas de redução de emissões de gases do efeito estufa. Mas a cadeia do biocombustível enfrenta gargalos para a efetiva distribuição no território nacional. Postos de regiões brasileiras onde o etanol hidratado não tem competitividade econômica com a gasolina simplesmente abandonaram a venda do bicombustível. O motivo é básico: falta de demanda. 

O hidratado só tem se mostrado viável em veículos flex quando seu preço representa no máximo 70% do litro da gasolina. Entre os fatores que levam o etanol a ficar acima dessa porcentagem estão a produção pequena ou inexistente do biocombustível, a logística complexa para o transporte e a alíquota do Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços.

A situação se agravou este ano. Usinas deram prioridade, na maior parte da safra, à produção do açúcar em detrimento do etanol, porque os preços do alimento estavam mais remuneradores do que os do álcool. Só mais para o fim da colheita a situação se inverteu.

Esse fato poderia ter barateado o biocombustível, mas coincidiu com seguidas altas da gasolina em razão da nova política de preços da Petrobrás, de promover reajustes diários no combustível fóssil. Como o derivado de petróleo apresentou mais aumentos do que recuos, repassados aos postos, o hidratado se valorizou.

Levantamento da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostra que, no começo de novembro, de 42.171 postos em operação no País, 8.249 não possuíam bombas de etanol hidratado, ou 19,56% do total. Para a agência, “a própria dinâmica do mercado é quem dita o ritmo das vendas do etanol hidratado, de forma que não cabe à ANP interferir na situação”. 

Os dados da ANP, divulgados semanalmente, mostram que somente em Mato Grosso e em São Paulo, Estados com produção bem acima do consumo e com alíquotas diferenciadas de ICMS, o hidratado é competitivo com a gasolina. Em Goiás e Minas Gerais essa situação é comum, mas a competitividade nem sempre ocorre. Em outros 23 Estados, quase sempre o preço médio do etanol supera o porcentual de 70% e não é possível competir com a gasolina, que, por ter maior poder calorífico, rende mais por quilômetro rodado.

Nas regiões onde não há a paridade, estabelecimentos que possuem o etanol estão localizados em capitais e grandes cidades. O consumidor de etanol ou tem o viés ambiental ou é de órgão público cuja norma é usar o biocombustível. Com 2.850 postos, o Rio Grande do Sul é um dos exemplos da falta de competitividade do etanol. Distribuidoras trazem o pouco álcool consumido ali do Paraná e São Paulo. Além do preço e do frete, o combustível é tributado em 30% nos postos só de ICMS. “No interior do Estado não se encontra etanol. Alguns postos na capital e grandes cidades ainda têm para o uso de locadoras, mas boa parte está deixando de vender”, disse o presidente do Sindicato Intermunicipal do Comércio Varejista de Combustíveis e Lubrificantes do RS, Adão Oliveira. 

Sem hábito. O Distrito Federal é outro exemplo onde o álcool foi ignorado. O próprio presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Combustíveis e de Lubrificantes (Sindicombustíveis-DF), Daniel Costa, admite ter desistido de vender etanol hidratado. “O DF não tem usina, nunca teve cultura e como os preços da gasolina e do etanol se igualaram, os postos pararam de vender por falta de consumo”, explicou Costa. Além desses motivos há um fator técnico. Em regiões quentes e úmidas, tanques acumulam água nas paredes internas em volume suficiente para adulterar o etanol. “Você coloca 5 mil litros de etanol em um tanque e demora um mês para vender. É tempo para acumular gotículas de água, que se misturam ao combustível e podem consolidar a adulteração”, disse o vice-presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo no Pará, Nélio Murta. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

30 Novembro 2017 | 05h00

A tecnologia tem mudado a cara das tradicionais fazendas brasileiras. A cada ano, uma série de técnicas desenvolvidas para melhorar o solo e combater os efeitos das intempéries são aplicadas em locais que, em situação normal, teriam poucas condições de produzir. Com a ajuda da inovação, regiões inteiras viraram campeãs de produtividade e diversidade de produtos.

“Normalmente, o que puxa o desenvolvimento desses polos é a terra mais barata e não a qualidade do solo, que é compensada com máquinas e equipamentos modernos e muita tecnologia”, afirma o assessor técnico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Rogério Avellar. Hoje em dia, a agricultura avança principalmente sobre pastagens degradadas, o que é mais barato do que desmatar. Foi o que ocorreu com Cristalina, no leste de Goiás – cidade localizada a 131 km de Brasília e a 281 km de Goiânia.

Em meados dos anos 1980, pouca gente queria se arriscar por aquelas bandas, ainda sem tradição na produção de grãos ou pecuária. Mas, com a chegada de famílias do Sul e de Minas, a cidade se transformou com a adoção da tecnologia. Ali, quando o clima não favorece, sistemas de irrigação são acionados para garantir a produtividade no campo. A cidade tem a maior área irrigada da América Latina e, por isso, produz o ano inteiro.

Hoje tem 45 diferentes atividades diferentes. Produz soja, trigo, milho, tomate, cenoura, beterraba e café, entre outros. O município é o maior produtor de alho do Brasil e o segundo em cebola e batata. Também tem uma pecuária forte e, recentemente, iniciou a produção de frutas, como pêssego, uva, maçã, atemóia e goiaba.

O mineiro de Capinópolis Edson Carlos da Silva é um dos precursores da fruticultura no município goiano. Há sete anos, ele e outros empresários locais decidiram criar um projeto experimental. Em 10 hectares, iniciaram a plantação de cinco culturas: pêssego, uva, maçã, atemóia e goiaba. A produção é vendida para grandes redes varejistas da região.

Hoje, além da área experimental, o produtor Silva tem, sozinho, 15 hectares com fruticultura. “Nossa ideia é tornar Cristalina um polo de fruticultura”, diz Silva, que tem apoio do Instituto Agronômico (IAC), em Campinas (SP), para desenvolver o negócio na região. Nos últimos meses, ele iniciou a colheita das primeiras frutas na sua propriedade.

O agricultor acabou de fazer a colheita de pêssego, está terminando a de maçã e, em meados de dezembro, fará a de uva. “A qualidade da fruta está muito boa e já conseguimos colocar tudo no mercado, o que era nossa grande preocupação.” Segundo Silva, o retorno do investimento, no entanto, só deve ocorrer em três anos. “Gastamos bastante com irrigação e condução das lavouras. Foi muito tempo de dedicação exclusiva à fruticultura. Agora temos de aguardar resultados.”

Condições ideais. O presidente do Sindicato Rural de Cristalina, Alécio Maróstica, conta que o fator preponderante para o crescimento da agropecuária em Cristalina foi a irrigação, a altitude de quase 1.200 metros e a amplitude térmica (a temperatura varia entre 30 e 15 graus Celsius entre o dia e a noite).

Ele acrescenta que a taxa de crescimento da agricultura na cidade tem variado entre 2,5 mil e 3 mil hectares por ano. Há três anos, diz o dirigente, Cristalina tinha 52 mil hectares de área plantada. Hoje já possui 60 mil. “O potencial de crescimento é enorme, pois há cerca de 280 mil hectares de área com plantio sem irrigação.”

Maróstica alerta, no entanto, que é preciso organizar o negócio: “Temos de começar a olhar a questão da água que tem sido bem séria no País inteiro. Se tiver organização, há capacidade para triplicar a produção aqui”. O que ele quer dizer é que alguns sistemas de irrigação terão de ser alterados para evitar o desperdício de água.

Além disso, os produtores terão de investir mais em barramentos para alimentar a irrigação. Hoje a cidade tem cerca de 150 barragens. “Por causa dos investimentos feitos no passado, tivemos cinco meses de seca e não houve problema nenhum com duas safras.”

Avellar, da CNA, destaca que a adoção de tecnologias é um aliado de peso para os agricultores. Mas é preciso fazer a conta para saber até que ponto vale a pena economicamente. “A tecnologia pode elevar, por exemplo, a produtividade para mais de 100 sacas por hectare. Mas tem de ter retorno financeiro.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

30 Novembro 2017 | 05h00

No Paraná, algumas regiões também conseguiram elevar de forma expressiva a produtividade com o uso intensivo de tecnologia e muita pesquisa voltada à recuperação do solo. Os produtores do centro-sul do Estado, por exemplo, conseguiram transformar os solos “rasos e pedregosos” de Guarapuava e Ponta Grossa em terra fértil. “Hoje, soja, trigo, milho e a pecuária leiteira têm alta produtividade”, afirma o assessor técnico da Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar), Gilson Martins. Segundo ele, um exemplo é a Cooperativa Agrária, uma referência em termos de organização.

Formada por descendentes alemães, a sociedade entendeu desde o princípio que precisaria investir em muita pesquisa para superar as dificuldades e conseguir produzir. “Eles compreenderam que a fertilidade do solo não se constrói de um ano para outro. Hoje, têm uma das melhores produtividades do Brasil.”

O oeste do Paraná é outra área bastante empreendedora e que tem diversificado a produção. Além da agricultura, a tecnologia é aplicada em avicultura e suinocultura e, mais recentemente, na piscicultura. Cafelândia, por exemplo, começou a fomentar a produção de tilápia e hoje detém toda tecnologia envolvendo o negócio. “Por causa desse projeto, a cidade virou um dos grandes fornecedores de alevinos e o Paraná, o maior produtor de tilápia”, afirma Martins.

Agricultura digital. O assessor técnico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Rogério Avellar, afirma que entre os grandes produtores de soja nas regiões de Sorriso e Primavera do Leste, em Mato Grosso, o que predomina é a agricultura de precisão. Hoje, numa mesma área, é possível elevar a produção de 55 para até 70 sacas de soja por hectare usando tecnologias específicas e correção da fertilidade do solo. Por meio de sensores e captação de imagens por satélite, consegue-se saber onde e quanto usar de sementes, corretivos e fertilizantes. “O investimento inicial é alto, mas calculamos que cerca de 70% dos grandes produtores já usam essas tecnologia.”

O Matopiba, diz Avellar, já começou num outro patamar, com tecnologia mais avançada. O técnico afirma que, hoje, o País está numa fase em que o médio produtor começa a aderir a essas tecnologias, entre eles produtores de cana de São Paulo, Goiás e Triângulo Mineiro.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.