Ainda devagar, mas sem parar

Resultado razoável do sistema produtivo em 2017 foi obtido mais com base no aproveitamento da capacidade ociosa do que no crescimento do investimento propriamente dito

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

01 Março 2018 | 20h00

Do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB ou renda nacional) no quarto trimestre de 2017 pode-se dizer que não decepcionou. Foi menor do que o 0,3% esperado, não passou de 0,1% em relação ao trimestre anterior, mas completou 2017 com bom resultado, de 1,0% no ano.

Para uma economia que vinha de dois tombos anuais consecutivos de 3,5%, o avanço de 1,0% não deixa de ser promissor. Mas o País terá de crescer mais de 6,0% para chegar ao patamar do último trimestre de 2014.

Bem mais positiva foi a retomada da indústria, de 2,7% no trimestre, maior impulso desde 2013. E animadora foi a recuperação do investimento, de 3,8%, também no trimestre ante o mesmo período do ano anterior.

Todos sabem que, em 2017, a agricultura bateu recorde histórico de produção: cerca de 140 milhões de toneladas de grãos, valor mais de 30% superior à safra anterior. Por isso, pode-se estranhar que, no PIB, o aumento registrado foi de apenas 6,1%. A explicação para o resultado mais contido está em que o PIB mede também valores e não só quantidades. E aí pesou a queda das cotações no mercado internacional.

O resultado razoável do sistema produtivo em 2017 foi obtido mais com base no aproveitamento da capacidade ociosa (máquinas e instalações subutilizadas) do que no crescimento do investimento propriamente dito.

Somos um país que age como certas tribos primitivas, que não liga para a multiplicação da riqueza e da renda, e que come as galinhas. Por isso, obtém poucos ovos. Ou seja, consumimos cada vez mais, poupamos e investimos cada vez menos. Os últimos números mostram que, de toda a renda obtida em 2017, a poupança não passou de 14,8% e o investimento, contando com a participação dos estrangeiros, ficou em 15,6%. Bobagem dizer que de um país pobre como o Brasil não se pode esperar mais poupança porque sobra pouco da renda. Apenas para comparar, os emergentes asiáticos (o Japão está fora dessa) poupam cerca de 33% do PIB e a China, mais de 50% do PIB.

No assunto PIB, as primeiras indicações são de que o ano de 2018 começou melhor do que 2017 terminou. É, por exemplo, o que tem mostrado o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), que procura antecipar o PIB. Este ano tem tudo para crescer 3,0% ante 2017. E melhor não será o desempenho por três fatores limitantes.

O primeiro deles é a já conhecida situação calamitosa das contas públicas e a falta de perspectiva de virada nessa área. O aumento já verificado da arrecadação apenas atenua o problema. A falta de reformas deixa turvo o horizonte.

O segundo fator é o baixo investimento, já lembrado acima. E o terceiro são as incertezas que cercam a escolha do novo presidente da República. As apostas se concentram num candidato moderado, comprometido com as reformas, que ninguém sabe quem será. Além de cru, o processo eleitoral está eivado de variáveis fora de controle, a começar pelas decisões que ainda se esperam da Justiça Eleitoral, o que aumenta as incertezas.

CONFIRA

» A fatia de cada setor

O gráfico ao lado mostra como evoluiu, de 2010 a 2017 a participação no PIB dos principais setores da economia. Como se vê, o setor de serviços sozinho (comércio, finanças, educação, serviços de saúde, serviços pessoais, etc.) pesa mais de 73% no PIB total (renda total). Forte crescimento do PIB passa por forte crescimento dos serviços. Outro dado relevante é a forte queda da fatia da indústria na produção de renda. É o resultado do que os críticos identificam como “desidratação do setor industrial”.

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