Ajuste na economia já começou, diz Nelson Barbosa

Para o ex-secretárioexecutivo do Ministério da Fazenda, só a políticafiscal e o setor externo não passaram por ajustes

Vinícius Neder, O Estado de S.Paulo

17 Junho 2014 | 02h06

RIO - Esperado para 2015, o ajuste da política econômica já começou. A ideia foi defendida ontem, pelo economista Nelson Barbosa, ex-secretário executivo do Ministério da Fazenda, em seminário no Rio. E recebeu aval de Samuel Pessôa, um dos assessores econômicos da campanha do senador Aécio Neves (PSDB-MG) à Presidência.

"Vai ter Copa e o ajuste já começou", disse Barbosa, ao término do seminário, numa paródia do bordão "Não vai ter Copa", repetido nos protestos contra a realização do Mundial no País.

Um ajuste na política econômica tem sido citado por analistas como essencial para tirar a economia do quadro de baixo crescimento e inflação pressionada. No entanto, como 2014 é ano eleitoral, a maioria dos cenários aponta 2015 como o ano dos ajustes. Para Barbosa, esse processo foi antecipado, em várias dimensões.

Fiscal. Apenas a política fiscal e o setor externo ainda não passaram por ajustes, segundo resumo feito pelo economista, no encerramento do Seminário de Análise Conjuntural do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), no Rio. "O ajuste já começou, ainda que incipiente. Quanto mais for feito este ano, menos será preciso fazer no ano que vem", afirmou Barbosa.

Algumas evidências do início do ajuste são a desaceleração do crescimento do PIB (de 2,5%, em 2013, para 1,6% este ano, conforme a projeção do Ibre/FGV); a descompressão dos preços administrados na inflação (subiram apenas 1,5% no IPCA de 2013, mas deverão registrar avanço de 5,8% neste ano, segundo o Ibre/FGV); e a piora do mercado de trabalho, com desaceleração no crescimento da população ocupada.

Outro forte ajuste antecipado foi a elevação da taxa básica de juros. Hoje a Selic está em 11,0%, ante 7,25% em abril do ano passado. As exceções são a política fiscal e o setor externo. Nas projeções do Ibre/FGV (revistas no Boletim Macro Ibre deste mês), a meta de superávit primário do governo, de 1,9% do PIB, não será atingida. Para Barbosa, que trabalha na FGV desde a saída do governo, a meta até pode ser atingida em termos globais (levando em conta manobras fiscais), mas o importante é que não ficará abaixo de 1,5% do PIB.

Déficit. No setor externo, um ajuste no câmbio, com alta do dólar, seria necessário por causa do déficit nas transações correntes. Pessôa, pesquisador do Ibre/FGV, destacou que o cenário da economia internacional mudou do início do ano para cá, dando mais tempo para o Brasil fazer seus ajustes na economia.

A principal mudança é a sinalização, por parte do Fed (Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos), de que a retirada dos estímulos à economia será mais lenta. Além disso, as projeções para o crescimento econômico nos EUA foram reduzidas, apontando para uma recuperação mais lenta por lá. Com isso, a perspectiva de aumento de juros nos países desenvolvidos, com consequente fuga de capitais de países emergentes, como o Brasil, para os desenvolvidos. "O ajuste externo será muito mais lento. A questão é o quanto a retomada da atividade no Brasil depende desse ajuste", disse Pessôa.

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