1. Usuário
E&N
Assine o Estadão
assine
  • Comentar
  • A+ A-
  • Imprimir
  • E-mail

Além do desembarque

O desembarque do governo que o PMDB está decidindo nesta terça-feira deve ser visto como a busca da porta de emergência por parte de políticos dotados de forte instinto de sobrevivência

Celso Ming

A manchete do Estadão dessa segunda-feira mostra, na prática, o descalabro que tem sido a política econômica do governo nos últimos sete ou oito anos. Em 2015, nada menos que 4,4 mil fábricas fecharam suas portas apenas no Estado de São Paulo, como relata matéria redigida pela repórter Cleide Silva.

Não fecharam em consequência da atuação da Operação Lava Jato como tem explicado, inexplicavelmente, o ex-presidente Lula. Fecharam em consequência da política econômica desastrada adotada pelo governo.

Dizer, simplesmente, que esse é o resultado da recessão e que é preciso colocar em marcha uma política econômica contracíclica é ignorar que a recessão está sendo provocada pela desordem das contas públicas e que estas só estão assim porque o governo vem gastando substancialmente mais do que vem arrecadando. Olhar para os resultados estatísticos das políticas sociais e ignorar o cemitério de empregos que essa destruição de empresas está produzindo é outra demonstração de desconhecimento e de inconsequência do governo Dilma. 

Temer. Novo rumo?
Temer. Novo rumo?

A mesma atenção precisa ser estendida para as pedaladas fiscais. Certos políticos, até mesmo da oposição, têm afirmado que as pedaladas fiscais podem parecer práticas um tanto esquisitas, mas não podem ser vistas como crime grave, que desemboque na destituição de um governo: “Impeachment apenas por causa dessa insignificância que eles chamam de pedalada?”, perguntam eles.

Pensar assim é desconhecer que as pedaladas, ou seja, práticas que empurram artificialmente a contabilização de despesas do governo para o exercício seguinte, foram expediente condenado pela lei, destinado a escamotear as contas públicas, que já estavam substancialmente deterioradas. E por que ficaram deterioradas? Porque a política fiscal adotada foi equivocada, o que corroeu os fundamentos da economia, que por sua vez, corroeram as bases políticas do governo.

O desembarque do governo que o PMDB, presidido por Michel Temer (foto), está decidindo nesta terça-feira não pode ser visto apenas como reação visceral de uma batelada de políticos, muitos deles dados a ostensivas práticas fisiológicas. Deve ser visto como a busca da porta de emergência por parte de políticos dotados de forte instinto de sobrevivência, porque ficou impossível apoiar um governo que já não governa, que despreza regras básicas de administração pública e que repete automaticamente que, além de destruir a economia, o Poder Judiciário está patrocinando o golpe.

Como a política econômica já é caótica, não dá para dizer que esse desembarque, se confirmado, vá produzir o caos. O mercado financeiro, altamente sensível a movimentos tectônicos, entende de outro jeito. Prefere ver nessas novidades a possibilidade de saída da crise, como se pode ler pelo comportamento do mercado de ações e do câmbio (veja o gráfico, no Confira).

Ninguém consegue ver o que nos trará o dia seguinte a uma mudança de governo, especialmente se for traumática. Só se pode dizer que, mantidas as coisas como estão, tudo tenderá a ser ainda mais caótico.

CONFIRA:

Cotação do dólar
Cotação do dólar

O gráfico mostra o comportamento das cotações do dólar desde janeiro deste ano. Só em março, houve queda de 9,35%.

Câmbio e crise

Esta valorização do real diante do dólar não comprova apenas a inexistência de uma crise cambial (fuga de dólares). Mostra que a expectativa do mercado é a de que a mudança de governo aumente a probabilidade de que a crise econômica seja superada. É uma percepção ainda precária, na medida em que o quadro de incertezas não será automaticamente removido.

Mais em EconomiaX