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Economia

Goiás

ALHEIA À CRISE, CRISTALINA CRESCE E GERA EMPREGOS

Município goiano diversificou sua atuação no agronegócio e ficou entre as seis cidades que mais abriram vagas no Brasil

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Renée Pereira (Texto), Sergio Castro (Fotos)

02 Janeiro 2016 | 20h01

Conhecida como a capital dos cristais, a pequena Cristalina, no leste de Goiás, virou paraíso do milionário mundo da agricultura. Localizado a quase 1.200 metros de altitude, o município é rico pela diversidade. Ali, como diria Pero Vaz de Caminha, tudo que se planta dá: de soja, milho e café até batata, cebola, alho, tomate e frutas. Um dos segredos está na tecnologia. Quando o clima não favorece, sistemas de irrigação são acionados para garantir a produtividade no campo. A cidade tem a maior área irrigada da América Latina e, por isso, produz o ano inteiro.

Não fosse pelo nome, poucos saberiam que Cristalina já foi um reduto do garimpo. Hoje em dia a vocação da cidade, a 131 quilômetros da capital federal, é facilmente percebida no comércio de insumos agrícolas, nos inúmeros silos de armazenagem que rodeiam o município e nas plantações que ocupam áreas a perder de vista. Empresas do setor alimentício, como Bonduelle, Fugini e Sorgatto, também estampam suas marcas na cidade, que se transformou num dos maiores PIBs (Produto Interno Bruto) agrícolas do Brasil. Ali, muitas vezes, não é o real a moeda principal da cidade, mas as sacas de grãos ou de hortifrútis.

As condições favoráveis colocaram Cristalina entre os municípios brasileiros que mais criaram emprego no ano passado, apesar da crise econômica que assola o País. Segundo dados do Ministério do Trabalho, até outubro, estava entre as seis com maior número de empregos no Brasil. É claro que, como o resto do País, a cidade sente alguns reflexos da retração econômica, mas de forma mais amena do que outros municípios.

“Por ter atividade o ano todo, a cidade sente menos os efeitos da crise”, afirma o presidente da cooperativa de crédito Sicredi Planalto Central, Pedro Jaime de Araujo Caldas. Dali sai quase 40% de todo o alho consumido no Brasil e 10% da batata e da cebola nacional, além de ervilha, feijão e beterraba. No total, são 36 culturas diferentes produzidas em Cristalina. Quando termina a safra de uma determinada plantação, começa outra e logo vem o plantio e, assim, vai girando o ciclo do emprego e da renda na cidade. Hoje, segundo a prefeitura local, a taxa de desemprego está abaixo de 4%.

Mas nem sempre foi assim. A cidade, que vai comemorar seu centenário neste ano, teve origem na exploração de cristais no fim do século 19. O garimpo, porém, não deixou nenhum legado para o município, que hoje tem 53 mil habitantes. Até 2008, o índice de desemprego chegava perto de 39%, diz o prefeito de Cristalina, Luiz Carlos Attié. Mas a expansão da agricultura mudou o rumo da história. A expectativa é que Cristalina feche o ano com crescimento de 2% do PIB enquanto o País deve amargar 3% ou 4% de queda.

Motor de crescimento. Os investimentos, embora de forma menos intensa do que em 2014, continuam movimentando a economia local, seja no ramo imobiliário, comércio ou na agricultura. De olho no aumento do número de visitantes que a cidade pode atrair por causa da expansão dos negócios agrícolas e na chegada de novas empresas, Airton Arikita, iniciou a construção de um complexo que inclui um hotel, uma área para eventos e um restaurante. No total, vai investir cerca de R$ 11 milhões no empreendimento, que emprega 43 pessoas na construção e estará concluído em dezembro. 

O restaurante foi inaugurado em abril de 2015 e tem 38 funcionários. Desde então, o estabelecimento virou reduto dos funcionários das grandes empresas da cidade. Na hora do almoço, trabalhadores com uniformes de várias companhias desfilam pelo amplo salão do restaurante Ity, que à noite vira o point dos endinheirados da cidade. “A reboque da agricultura há uma série de possibilidades de emprego na cidade”, diz Arikita, que também está investindo na plantação de 320 hectares de eucalipto. “Estamos empenhados na viabilidade do setor florestal. Queremos profissionalizar e agregar valor ao produto”, diz o empreendedor, nascido em Taquarituba, no interior de São Paulo.

Outro que diversificou os negócios é o mineiro Marcio Braga de Resende. Além de uma empresa de insumos agrícolas, equipamentos para ordenha e assistência técnica, Resende tem 46 hectares de área plantada de manga, além de eucalipto. “A logística de Cristalina é muito boa (está a 131 km de Brasília e a 281 km de Goiânia). Isso sem contar que nossa safra de manga começa quando termina a de São Paulo. É um ponto positivo pra gente.”

Apesar da piora da economia brasileira, ele manteve um grande investimento na construção da nova sede da Polo Produtos Agrícolas. O estabelecimento terá 6.300 metros quadrados (m²), sendo 2.400 m² de área construída com dois armazéns para sementes e fertilizantes. A transferência da loja, que hoje ocupa um imóvel alugado de 900 m², deve ocorrer no segundo semestre de 2016. 

A situação de Cristalina hoje é resultado de mais de 20 anos de investimentos, especialmente em tecnologia. Hoje, além de grandes produtores, a cidade também tem centenas de pequenos agricultores, que elevam a renda do município. Segundo o presidente da Associação dos Engenheiros Agrônomos de Cristalina, Renato Leal Caetano, a região tem 600 produtores e 1.200 famílias na agricultura familiar. “Isso produz um impacto positivo no número de empregos da cidade, cujo PIB Agrícola somou R$ 2,6 bilhões em 2014”, diz ele.

Marcas de peso. A presença de grandes empresas processadoras de alimentos em conserva também tem uma participação bastante relevante nos bons resultados que a cidade tem colhido nos últimos anos. A diretora do Sistema Nacional de Empregos de Cristalina (Sine), Elaine Fachinello, afirma que a oferta média por dia tem ficado na casa de 50 vagas, sendo que boa parte delas é destinada ao setor industrial. Mais recentemente tem aparecido oportunidades para o setor rodoviário, para trabalhar em praças do pedágio recém-inauguradas na BR-050.

“Recebo ligações de pessoas de cidades vizinhas em busca de vagas. Mas a prioridade é para a população local”, diz ela. A executiva observa, no entanto, que nem tudo é “um mar de rosas” em Cristalina. O comércio local deu uma arrefecida nos últimos meses. 

“Até julho, as vendas foram muito bem. Mas, de repente, as pessoas passaram a ficar mais receosas e pararam de comprar”, destaca a presidente da Associação Comercial e Agroindustrial de Cristalina, Joana D’Arc Rodrigues da Silva Assad. Segundo ela, até meados do ano, o comércio tinha crescido 30% e agora caiu quase na mesma proporção.

Joana, que há 20 anos tem uma loja de roupas no centro de Cristalina, destaca que o poder aquisitivo da cidade cresceu muito nos últimos anos. Basta verificar as grandes caminhonetes que circulam pelas ruas do município – pelos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 29% da frota de Cristalina é formada por caminhonetes e caminhonetas. Mas o efeito do aumento na renda tem tido um efeito perverso para o comércio local. Com a proximidade de Brasília, muita gente prefere fazer compras na capital federal.

 

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Renée Pereira (Textos); Sergio Castro (Fotos)

02 Janeiro 2016 | 17h00

O primeiro pedaço de terra adquirido pela família Figueiredo em Cristalina foi praticamente trocado por uma mula. Em meados dos anos 80, pouca gente queria se arriscar por aquelas bandas, ainda sem tradição na produção de grãos ou pecuária. O produtor rural Luiz Carlos Figueiredo deixou mulher e filhos no Paraná e se embrenhou pelos campos de Cristalina. Em pouco tempo já havia dominado as características locais e percebido que a tecnologia poderia ser uma grande aliada no Cerrado. 

Hoje a família Figueiredo tem 4.100 hectares de terra onde produz 12 culturas diferentes, como soja, milho, café, feijão e trigo. Quem conta a história de sucesso de Luiz Carlos Figueiredo é o filho Reinaldo Carlos Figueiredo, diretor administrativo da empresa. “Meu pai foi um visionário, um grande empreendedor. Morou em casa de sapé e veja onde está hoje”, orgulha-se. Formado em veterinária, ele chegou ao Cerrado goiano em 2005 para ajudar o pai a tocar os negócios de pecuária, que já haviam sido iniciados no Paraná, em pequena escala. 

Em Cristalina, com terra de sobra, ele pode colocar em prática a paixão que tem pelo gado leiteiro. Antes de iniciar os trabalhos, rodou várias fazendas pelo Brasil, Estados Unidos, Canadá e Nova Zelândia para estudar casos de sucesso. “Queria fazer um projeto legal, sustentável e bem planejado.” Começou com algumas vacas holandesas que trouxe do Paraná, produzindo 1,5 mil litros de leite por dia. 

Hoje, com quase 700 vacas holandesas e produzindo 21,6 mil litros de leite por dia, a empresa já é a 14.ª maior produtora do Brasil. A meta é alcançar 1.800 vacas e produzir 60 mil litros de leite por dia. Mas Figueiredo não tem pressa. O objetivo é produzir de forma sustentável e com qualidade, diz ele, que fornece leite para a comunidade árabe. Além de controles sanitários rígidos, quase tudo é automatizado e monitorado para garantir a qualidade e quantidade do leite produzido.

Prêmios. O trabalho tem dado certo. Em outubro, pelo segundo ano, a Fazenda Figueiredo foi eleita a produtora de leite do ano – em 2012, a empresa já havia conquistado esse prêmio. Na sala de Figueiredo, as dezenas de troféus de vacas holandesas em miniaturas, que decoram o escritório, revelam a rápida ascendência dos negócios da família, fruto de muita tecnologia e dedicação. São prêmios conquistados desde que Luiz Carlos trouxe o filho para tocar a divisão de pecuária em Cristalina. 

O veterinário, que até os sete anos de idade queria ser padre, acredita que Cristalina tem todas as características para os produtores rurais. “Essa cidade foi feita para os agricultores. Daqui saem, por exemplo, as melhores sementes de soja do País.” 

Segundo ele, a produção da cidade, seja de grãos ou na pecuária, ainda tem muito potencial a ser descoberto e explorado. “Calculamos que Cristalina tenha o dobro da capacidade para crescer. Ainda é muito subutilizada.”

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Renée Pereira (Texto); Sérgio Castro (Fotos)

02 Janeiro 2016 | 19h47

Mineiro de Capinópolis, Edson Carlos da Silva soube como ninguém aproveitar as oportunidades que Cristalina lhe deu. Chegou à cidade há 23 anos como funcionário de uma cooperativa de agropecuária e hoje é um empresário de sucesso na região, com negócios no comércio, na indústria e na agricultura.

Além de uma loja de insumos agrícolas, inaugurada em 2003, ele é dono de uma fábrica de ração e de sal mineral, onde emprega cerca de 50 pessoas. Mas atualmente é outra atividade que tem tomado o tempo e o gosto de Silva.

Há sete anos, ele e outros empresários locais, decidiram investir numa nova empreitada para aproveitar o clima favorável de Cristalina: a fruticultura. Numa área de dez hectares, eles iniciaram a plantação experimental de cinco culturas diferentes: pêssego, uva, maça, atemóia e goiaba. A produção local tem sido vendida para grandes redes de supermercados da região.

Hoje, além da área experimental, ele tem, sozinho, 15 hectares em fase de cultivo. Nossa ideia é tornar Cristalina um local de várias culturas de frutas, diz Silva, que tem conseguido apoio do Instituto Agronômico de Campinas para desenvolver o negócio na região. Ele conta que não é uma tarefa fácil convencer outros agricultores que sempre cultivaram soja e milho, por exemplo, a destinar um espaço para as frutas. Mas, aos poucos, temos tido retorno positivo. Isso porque, embora seja uma cultura de custo mais elevado, as frutas têm maior valor agregado. Alguns agricultores já reduziram parte da lavoura de soja para plantar frutas.

Represas. Segundo ele, numa pequena área consegue-se ter um resultado bom do ponto de vista financeiro. Pelos cálculos de Silva, cada hectare rende R$ 20 mil. Por isso, o objetivo é atrair pequenos e médios agricultores para a fruticultura. Potencial a região tem bastante. Com a proximidade das represas de Furnas, estatal do setor elétrico que detém várias hidrelétricas na região, criou-se dezenas de assentamentos em Cristalina e redondezas.

Na época da construção das usinas, o governo comprou várias áreas na região para reassentar as famílias que foram desalojadas. Isso criou um ambiente ideal para o desenvolvimento da fruticultura na cidade, afirma o pesquisador do Instituto Agronômico de Campinas, Afonso Peche Filho.

Segundo ele, Cristalina tem todo potencial para se tornar um grande produtor de frutas no Brasil. Além do clima ameno, que permite até a produção de uvas, a questão logística é um ponto positivo para o município. Cristalina tem grandes cidades no seu entorno. De um lado Brasília e do outro Goiânia. Isso ajuda na comercialização.

O empresário Marcio Braga Resende, dono de uma loja de insumos agrícolas, também está no grupo de produtores que iniciaram os experimentos na fruticultura. Hoje o mineiro do município de Luz tem 46 hectares de plantação de manga e vende para os Estados de Goiás, Brasília e Rio de Janeiro. Para a próxima safra, o Rio já pediu preferência nas vendas, comemora ele.

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Renée Pereira (Textos); Sergio Castro (Fotos)

02 Janeiro 2016 | 17h00

A variedade de culturas agrícolas é um dos diferenciais na criação de empregos em Cristalina. A rotatividade dos trabalhadores é enorme. Durante todo o ano, eles migram de uma lavoura para lavoura, colhendo ou preparando a terra para o cultivo. A maranhense Carlícia Gomes da Silva, de 30 anos, por exemplo, ficou apenas dois meses em casa depois da colheita de cebola. Logo foi para a plantação de frutas de Edson Carlos da Silva, onde ganha R$ 60 por dia.

“Aqui não fico sem emprego. Acaba uma plantação e começa outra e sempre tem algo para fazer”, diz a trabalhadora, que mora há 13 anos em Cristalina. Desde que chegou à cidade já fez de tudo um pouco. “Até feijão já arranquei”, conta ela, explicando que foi o trabalho mais duro até agora na lavoura. Na plantação de frutas, a missão de Carlícia é bem mais leve. Todos os dias ela tem de monitorar, um a um, cada pé de uva e enrolar os brotos num arame. É uma atividade manual que exige muito cuidado para não quebrar a videira.

O trabalho é feito em conjunto com a paraense Maria do Socorro da Silva, de 49 anos. Entre um serviço e outro, ela ficou seis meses desempregada, mas o tempo é atribuído ao fato de ainda não conhecer muitos empregadores na cidade. Nascida em Primavera, no Pará, ela chegou à cidade há dois anos em busca de melhores condições de vida. Ex-doméstica, decidiu seguir os passos da irmã que deixou a cidade natal há oito anos para viver em Cristalina. “Lá a gente lutava o mês inteiro para ganhar R$ 250 a R$ 300. Vivo muito melhor aqui.”

Mais perto da família. Cristalina também foi uma saída para a engenheira agrônoma Kheity Cardoso Rodrigues, que queria ficar mais próxima dos pais, que moram em Uberlândia – a 286 km da cidade. Antes de ser contratada pela Brava Agronegócios, a mineira de Patos de Minas trabalhava no norte de Minas Gerais, no Projeto Jaíba, que envolve irrigação e produção de frutas. Mas a distância da família, cerca de 900 km, começou a pesar na decisão de Kheity continuar no trabalho. 

“Mas nem precisei me esforçar muito para conseguir um emprego em Cristalina”, diz ela, que trabalha com fruticultura. Ela conta que, numa conversa com uma amiga, ficou sabendo da procura de Silva por uma profissional na área. “Mandei meu currículo e fui contratada em seguida.” 

Além da parte de produção e cultivo das frutas, Kheity também é responsável pelo trabalho de comercialização. 

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