Alívio no custo da vida

Inflação no padrão de país avançado preserva poder de compra do consumidor e, portanto, cria espaço para mais consumo e pagamento das dívidas

O Estado de S.Paulo

12 Novembro 2017 | 05h00

Ficou bem mais provável que a inflação deste ano não chegue aos 3%. Isso semeia um punhado de consequências para a vida econômica do brasileiro.

O IPCA, o medidor do custo de vida, avançou em outubro menos do que o esperado: 0,42%. Esse número perfez inflação acumulada de 2,21% nos dez primeiros meses de 2017 e de 2,70% em 12 meses. Parece improvável que novembro e dezembro acusem inflação mensal média de 0,4%, de modo a produzir uma acumulada algo superior a 3%.

A primeira consequência é a de que essa inflação, a mais baixa em 19 anos, produz um arrasto (carry over) também baixo para 2018 e desarma eventuais projeções mais pessimistas. E cabeças mais leves ajudam na recuperação da economia.

Outra consequência, provavelmente a mais importante, é a de que uma inflação no padrão de país avançado preserva poder de compra do consumidor e, portanto, cria espaço para mais consumo e para alívio das dívidas. É também excelente alavanca para o PIB e, portanto, para a renda. Uma coisa é o valor do salário com uma inflação de 10% ao ano, como a que o Brasil teve há apenas 20 meses, e outra, bem diferente, com uma inflação inferior a 3% ao ano.

A princípio as pessoas comuns podem não se dar conta do efeito da inflação baixa sobre o estado de ânimo. Mas, aos poucos, perceberão o alívio e essa percepção tende a desfazer a retranca que cada um põe na vida econômica quando o tempo é de crise e de perspectiva de novos trancos à frente. Num ano eleitoral, esse arejamento pode ter impacto político.

Uma terceira consequência tem a ver com a administração de um patrimônio. Em dezembro, os juros básicos deverão cair a 7,0% ao ano. E, dependendo da marcha da inflação, mais à frente podem cair um pouco mais. Em princípio, se os juros reais (descontada a inflação) continuarem por aí, à altura dos 4% ao ano, a remuneração dos ativos de renda fixa continua excelente. O problema está em que outras despesas podem continuar altas demais. Não custa repetir o que esta Coluna já disse há algumas semanas: não faz sentido pagar num fundo de investimento em renda fixa a mesma taxa de administração que se pagava quando a inflação era de 10% ao ano. Nesses casos, vale a pena transferir a aplicação para outra administradora. O direito à portabilidade é para esses casos.

Fica no ar uma dúvida que dói como unha encravada: até que ponto a derrubada da inflação é determinada por fatores estruturais, portanto persistentes, e não por um clima episodicamente favorável, que não se repetirá?

O próprio presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, tem advertido que essa inflação baixa não se sustentará se as contas públicas não se reequilibrarem. Se a dívida do Tesouro continuar subindo como está, a confiança ficará abalada, consumidores e poupadores correrão para suas tocas e a inflação voltará a cavalgar enfurecida, como as Valquírias de Richard Wagner.

Reequilibrar as contas públicas implica crescer mais, para puxar pela arrecadação, conter as despesas correntes e, mais que tudo, levar as reformas adiante. E é aí que mais uma vez chegamos à questão central: quando é que teremos condições políticas para isso?

CONFIRA:

Menor risco

Apesar das incertezas e da apreciação negativa das agências de avaliação de risco, o mercado internacional continua reduzindo sua percepção de risco sobre a qualidade da dívida do Tesouro. O gráfico mostra a evolução do Credit Default Swap (CDS) dos títulos públicos de cinco anos do Brasil. Esse número indica o quanto de rendimento extra (sobre a referência, que é a remuneração dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos) o mercado está pedindo para ficar com títulos do Tesouro do Brasil.

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