Almoço líquido

Uma startup americana chamada Soylent quer mudar a maneira como as pessoas consomem calorias

The Economist

19 Setembro 2015 | 07h25

“Devemos comer para viver, e não viver para comer”, escreveu Molière. Alguns empreendedores workaholics levam o dramaturgo francês ao pé da letra. A Soylent, uma startup com dois anos de vida, tenta ajudar os consumidores a economizar tempo e dinheiro oferecendo-lhes uma “refeição” saudável e barata que é ingerida como uma bebida. Cada uma das porções vegetarianas tem cerca de 400 calorias, custa por volta de US$ 3 e, a se acreditar no que vem escrito no rótulo, é tão nutritiva quanto carne e alimentos processados, além de ser mais ecológica.

A Soylent conquistou um lugar entre os americanos workaholics, que se aborrecem com os recursos e as horas de trabalho que são obrigados a investir no preparo de refeições regulares. A afirmação se aplica especialmente ao Vale do Silício, onde moram muitos dos primeiros fãs do alimento, engenheiros preocupados demais em codificar o futuro para interromper o trabalho quando chega a hora do almoço. Seus maus hábitos alimentares podem ser prejudiciais à saúde. Há alguns anos, o empresário Sam Altman, que hoje é presidente da incubadora de startups Y Combinator, andava tão preocupado em controlar os gastos, e estava tão focado em tocar sua primeira empresa, a Loopt, que passou semanas a fio se alimentando a base de miojo lámen e sorvete de café, até que começou a sofrer de escorbuto. Tempos depois, tornou-se um dos investidores da Soylent. No início, o produto vinha em pó; mas, para alguns consumidores, até isso era uma inconveniência. Assim, em 9 de setembro, a empresa começou a despachar a versão 2.0 da refeição, que já vem misturada e engarrafada.

O nome Soylent é uma homenagem ao romance de ficção científica Make Room! Make Room!, publicado em 1966, que se passa num mundo superpovoado, onde as pessoas se alimentam com uma mistura de lentilhas e soja (e, na versão para o cinema, carne humana). Rob Rhinehart, o criador da bebida, teve a ideia enquanto trabalhava em outra startup, relacionada com internet sem fio. Atualmente com 27 anos, na época o jovem andava tão duro que começou a fazer sua própria “mistura”. Logo depois, abandonou o projeto inicial para se dedicar à tecnologia alimentar. Rhinehart é, sob todos os aspectos, um “radical”. Para ele, ir a um mercado e se expor a verduras “em estado de putrefação”, é um “verdadeiro pesadelo multissensorial”. Em sua casa já não há geladeira.

A Soylent dá mostras de que é capaz de cultivar um nicho de mercado e vem chamando a atenção de investidores: em janeiro deste ano, a empresa levantou US$ 20 milhões. Entre os que puseram dinheiro no negócio, estava o respeitado fundo de capital de risco Andreessen Horowitz. Mas a empresa ainda tem desafios pela frente. Ingredientes cujo nome não remete a associações muito apetitosas, como o óleo de alga, afugentarão muitas pessoas. Igualmente prejudiciais são os comentários dos primeiros usuários, que dizem ter sofrido de gases com a bebida. “Prefiro alimentos com sabor e textura”, diz um jovem empreendedor vegetariano que experimentou a novidade. Rhinehart diz que o sabor “neutro” do Soylent é a melhor maneira de atender aos desejos do maior contingente de pessoas possível. Que tamanho tem esse contingente, porém, ainda é uma incógnita.

©2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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