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Alta do milho já afeta preço da carne de frango

Cotação do cereal, principal insumo utilizado na ração de aves, disparou desde o início do ano

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Daniela Frabasile,
O Estado de S.Paulo

18 Fevereiro 2016 | 16h23

A disparada dos preços do milho neste início de ano pressionou as margens dos produtores de proteína animal, como carne de frango, mas é esperado um alívio nos próximos meses. A oferta do grão tende a aumentar com a colheita da primeira safra do cereal, que já está em curso. Em janeiro, a cotação do milho disparou no mercado interno. No dia 21 de janeiro, o indicador Cepea/Esalq alcançou R$ 43,46/saca, 20,2% acima do reportado um mês antes. No mercado interno, a alta do milho já começa a se refletir no preço da carne de frango. Após a queda sazonal das cotações da ave em janeiro, agora em fevereiro houve recuperação. Conforme o indicador Cepea/Esalq, o preço do frango resfriado no Estado de São Paulo avançou 10,96% em fevereiro, alcançando R$ 4,15/quilo ontem (17). Em janeiro, o indicador havia recuado 7,88%.

Na avaliação do presidente do Sindicato das Indústrias de Produtos Avícolas do Estado do Paraná (Sindiavipar), Domingos Martins, em entrevista ao Broadcast Agro, serviço de notícias em tempo real do agronegócio da Agência Estado, a partir de março os preços do frango devem retomar os níveis do fim do ano passado. Apesar do cenário de crise econômica no País, ele afirma que os produtores conseguirão repassar a alta dos custos para o preço do produto final. "Para o frango, não é tão difícil. Nossa proteína ainda é a mais acessível de todas", comenta. Com a crise econômica no País, segundo ele, é natural que os consumidores troquem a carne bovina pela de frango, mais barata.

"Ao analisar a relação de preço entre a carne de frango e a bovina, podemos ver que há espaço para aumento de preços (do frango)", disse o analista Adolfo Fontes, do Rabobank. Segundo ele, historicamente, com 1 quilo de carne bovina é possível comprar 2,1 quilos de carne de frango no varejo. Em janeiro, essa relação ficou melhor para a ave, com 2,5 quilos de frango por quilo de carne bovina. 

Fontes, avalia ainda que o cenário de janeiro, com os altos custos da ração para o avicultor e os preços domésticos da carne de aves pressionados, não deve se manter. "Ao longo do ano, esses problemas vão ser minimizados e as margens de lucro do setor continuarão positivas, mas é difícil dizer se serão tão altas quanto as reportadas nos últimos dois anos", disse. Para ele, "é certo que a rota de crescimento para o setor neste ano será o mercado internacional". Domingos Martins, do Sindiavipar, disse que o aumento de preços do milho ao produtor "não foi previsto" e provoca um descontrole no planejamento dos custos. "Estávamos vendo estoques confortáveis, mas não esperávamos essa depreciação do real frente ao dólar, que incentivou ainda mais as exportações do cereal", afirmou.

Com a perspectiva de custos mais elevados, margens mais estreitas do que as registradas nos últimos anos e com a crise econômica no Brasil, Martins afirma que haveria a possibilidade de redução do volume de aves alojadas em granjas do País. Entretanto, a oportunidade de crescimento das exportações deve compensar o cenário doméstico mais difícil. "Temo que possa haver redução da produção em pequenas empresas, que não estão no mercado de exportação", disse o presidente do Sindiavipar. "No geral, vamos continuar ganhando espaço na exportação, e quem exporta não vai reduzir a produção e pode até aumentar."

O presidente executivo da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Francisco Turra, por outro lado diz que "não há como manter o nível de produção, mesmo com a porta aberta para as exportações". Mas ele concorda que o Brasil continuará se beneficiando da forte demanda externa. "Essa elevação brusca do dólar melhorou a competitividade e aumentou a rentabilidade. No ano passado, a receita em real aumentou 23%, mesmo tendo decrescido em dólar", explica.

Em 2015, as vendas de carne de frango registraram incremento de 8,6% em volume, somando 3,888 milhões de toneladas, ante 3,577 milhões de t em 2014. A receita cambial, no entanto, teve queda de 9,5%, para US$ 6,230 bilhões. Em janeiro de 2016, embarques de carne de frango somaram 286.400 toneladas, avanço de 15,8% na comparação com o mesmo mês de 2015. As informações são do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC).

Na avaliação de Adolfo Fontes, 2016 deve ser "excepcional para as exportações brasileiras", com projeção de aumento entre 5% e 10% nos embarques de frango do País. Além da vantagem competitiva do câmbio, ele aponta os casos de gripe aviária nos Estados Unidos como oportunidade para o Brasil, que pode ganhar mais mercado na China. "Mesmo que o mercado interno continue a tomar uma parte maior da produção brasileira, com uma porcentagem menor voltada ao exterior, a indústria deve continuar crescendo, ainda que menos velozmente que nos últimos anos", afirma.

Recuperação no mercado doméstico. A chegada ao mercado da safra de milho verão sinaliza para um abastecimento mais tranquilo e possivelmente para uma interrupção da alta de preços, reduzindo a pressão sobre os custos de produção das carnes. Turra diz esperar que o ritmo de alta de preços caia "em relação aos preços estratosféricos pelos quais foram vendidos os volumes remanescentes da safra passada, além de amenizar o problema de escassez". Conforme o executivo, os valores da saca de milho devem cair mesmo só no segundo semestre, com a colheita da safrinha.

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