Daniel Teixeira
Daniel Teixeira

Renée Pereira / TEXTOS e Daniel Teixeira / FOTOS; ALTAMIRA (PA), O Estado de S. Paulo

02 Abril 2016 | 16h00

As pesadas e gigantescas máquinas, tratores e caminhões fora de estrada que nos últimos cinco anos removeram milhares de toneladas de terra e pedra para dar forma à Hidrelétrica Belo Monte deram lugar a um trabalho quase manual. Agora, profissionais treinados fazem o acabamento final da terceira maior usina do mundo. Sob um calor que beira os 35 graus nessa época do ano, cerca de10 mil trabalhadores correm contra o tempo para inaugurar, com mais de um ano de atraso, a primeira turbina do projeto. Alguns vivem pendurados nas alturas para soldar os enormes dutos por onde passará a água que vai gerar energia. Outros gastam o dia empilhando milhares de placas milimétricas dentro da enorme roda que abrigará a turbina.

Se todo esse esforço der certo, no dia 16 de abril a emblemática Belo Monte produzirá seus primeiros 611 megawatts de energia. Três dias depois, uma nova turbina, desta vez de 38 MW, também começará a operar. A partir daí, o cronograma prevê a entrada de uma nova máquina a cada dois meses até 2019 – quando a hidrelétrica alcançará sua potência máxima, de 11.233 MW. 

Mas, conforme a usina avança, a cidade de Altamira, no oeste do Pará, vive uma espécie de ressaca: a economia minguou, a população cresceu, os índices de criminalidade aumentaram e a nova infraestrutura, com hospital e rede de água e esgoto, construída por causa da usina, continua parada.

Com 95% das obras de terraplenagem concluídas, a megausina iniciou no ano passado o processo de desmobilização do canteiro de obras. Dos 32 mil trabalhadores contratados até 2014, 22 mil foram demitidos. A nova fase do empreendimento, que envolve mais a montagem das máquinas, atingiu em cheio as empresas da cidade, especialmente as do setor de material de construção – que também sofrem com a crise econômica do País.

Com a demanda mais fraca e aumento da concorrência, algumas lojas tradicionais de Altamira já decidiram fechar as portas. A Comercial Valente, do empresário Valdir Narzetti, colocou até o prédio à venda. Na Comacol, loja que tem mais de 30 anos, os funcionários estão cumprindo aviso prévio, diz o proprietário Jucelino Francisco Covre. O setor imobiliário é outro que foi pego no contrapé. Depois de investirem pesado na construção de imóveis para abrigar funcionários das empresas que chegaram para construir a hidrelétrica, as unidades estão vazias. Algumas ainda nem ficaram prontas.

O reflexo da baixa demanda foi imediato. O aluguel de uma residência de 3 ou 4 dormitórios, que antes custava R$ 4 mil, hoje não passa de R$ 1,8 mil, segundo dados da imobiliária Consulte Imóvel. Uma casa com piscina, bastante procurada no início da obra, era alugada por R$ 6 mil. Hoje, o proprietário não consegue nem R$ 2 mil por ela. Segundo a imobiliária, a procura por imóveis para alugar caiu 40% no último ano. “A cidade está parada, e ainda nem sentimos todo o impacto das demissões em Belo Monte”, afirma Narzetti, destacando que os ex-funcionários da usina ainda estão gastando a indenização. 

O presidente da Associação Comercial de Altamira, Milton Elias Fischer, conta que, embora todos soubessem que um dia haveria a desmobilização, o movimento surpreendeu o comércio. “Pegou todo mundo de calça curta. Sabíamos que haveria um fim, mas esperávamos que a desmobilização fosse mais gradativa.” Ele conta que muita gente pegou empréstimo no banco para investir em novos negócios e nem teve tempo para começar a operar. O sentimento de muitos moradores de Altamira é que a cidade perdeu o bonde para reduzir pelo menos parte da dívida social de mais de 100 anos.

No início da década, quando os primeiros engenheiros e máquinas começaram a desembarcar na cidade para construir Belo Monte, os empresários apostavam no empreendimento como um trampolim para o desenvolvimento do município, que em 2010 tinha um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)) de 0,665 – semelhante ao de países como Vietnã, Iraque e Bolívia. “Acreditávamos que mais investimentos viriam para a cidade de forma definitiva. Mas vieram apenas os fornecedores da usina, cumpriram o contrato e já foram embora”, afirma Narzetti. “Continuamos sem um grande supermercado e, dos shoppings planejados, apenas um pequeno virou realidade.”

Infraestrutura. Mas, apesar dos entraves, algumas melhorias foram feitas. Falta apenas a prefeitura entrar em acordo com a Norte Energia para assumir os novos ativos, como o hospital e a rede de água e esgoto. No total, a Norte Energia investiu quase R$ 4 bilhões em ações socioambientais como parte das contrapartidas para construção da hidrelétrica. Mas, por enquanto, a população só vê os transtornos das obras na cidade. A rede de água e esgoto construída pela Norte Energia para atender 100% do município está pronta há 18 meses. Na prática, no entanto, nada mudou. A maioria dos moradores continua usando o sistema antigo de fossas e poços. A briga ficou em torno da conexão das residências à rede. A prefeitura argumentava que não tinha condição de assumir os ativos e a conta, que beirava os R$ 30 milhões. Resultado: a Norte Energia assumiu as ligações das residência, mas as obras ainda não foram iniciadas.

Outro empreendimento é o Hospital Geral de Altamira, com 103 leitos. O estabelecimento está pronto há um ano e ainda não foi ocupado. A prefeitura disse que está preparando o local para a transferência do hospital antigo. Um aterro sanitário também foi construído, mas já teve de passar por obras de reparo por causa do mau uso. Por enquanto, a única melhoria visível é a retirada das enormes palafitas da cidade. O local, onde antes viviam milhares de pessoas em condições sub-humanas, hoje começa a ganhar contornos de um grande parque, que será entregue no fim do primeiro semestre. “Altamira é a cidade polo da região. Ela vai sobreviver ao fim das obras de Belo Monte”, diz Fischer. “Além disso, teremos depois o projeto Belo Sun (projeto de mineração no Xingu), e esperamos não ficar órfãos do poder público.” 

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02 Abril 2016 | 16h00

O sonho da casa própria durou menos de um ano para o maranhense Izael do Nascimento, de 38 anos. Ex-morador da Invasão dos Padres, uma das maiores palafitas de Altamira, ele ganhou no ano passado uma residência novinha, com três quartos, dois banheiros, sala e cozinha, num terreno de quase 300 m². O imóvel era uma “benção” para quem morava em condições insalubres em um barraco de madeira, que a cada cheia do Rio Xingu enchia de água e destruía o pouco que tinha.

A mudança para a casa nº 902, no bairro Jatobá, um dos cinco construídos pela Norte Energia para abrigar famílias atingidas pela Hidrelétrica Belo Monte, foi providencial. Na Invasão dos Padres, ele vivia com a mulher e a família da irmã num mesmo barraco. Com o imóvel, enfim teria um espaço para o casal e o bebê que viria pela frente. Mas Nascimento não tinha ideia de como era caro manter uma casa.

Hoje, com um bebê de um mês, ele tenta vender o imóvel por R$ 75 mil, por causa das despesas elevadas. A conta de luz é a principal delas. “Tenho três faturas sem pagar, que juntas somam mais de R$ 700”, afirma o morador, que vive de bicos. “Às vezes tenho a impressão de que estou pagando um financiamento da casa, e não a conta de luz, de tão alta que está.”

Casos como o de Nascimento têm sido muito comuns nos novos bairros de Altamira. Na cidade que abriga a terceira maior hidrelétrica do mundo, a conta de luz virou uma dor de cabeça para os moradores, que preferem vender os imóveis novos e procurar algo mais em conta, ou até voltar para um barraco. “As pessoas não estão acostumadas com essa estrutura. Uma amiga vendeu a casa por R$ 20 mil porque era grande demais para limpar e voltou pra um barraco”, conta Geovany Teixeira Gomes, ex-moradora de palafita.

Além disso, diz ela, como nunca pagaram pela energia, muitos não sabem economizar. “Por causa do calor, deixam o ar-condicionado ligado o dia inteiro. Aí a conta explode.” Mas essa explicação não serve para todo mundo. Jeová Pereira do Nascimento recebeu uma conta de R$ 800 e garante que já desligou tudo, até o chuveiro.

Reclamações. No bairro Jatobá, basta uma caminhada rápida para encontrar várias placas de “vende-se”. A alagoana Adiane Pereira da Silva também já desistiu da casa nova e quer se mudar para Vitória do Xingu, outra cidade atingida por Belo Monte. Além da conta de luz, ela reclama que acabou de receber o carnê do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU). “Nem sei o que fazer com isso. Ainda não paguei”, diz a ex-moradora da Invasão dos Padres.

Outra reclamação da dona de casa é a qualidade da água. Nos primeiros meses na casa nova, ela lembra que a água era limpa, dava para cozinhar e beber. “Mas, de uns tempos pra cá, virou um barro só”, conta. Agora, diz ser obrigada a comprar quatro galões de água por mês para a família, o que pesou ainda mais no orçamento doméstico. “Nas palafitas, não pagava luz, não pagava IPTU e tinha água limpa.”

Os imóveis dos novos bairros já foram construídos com ligação direta na rede de água e esgoto. A prefeitura de Altamira culpou a Norte Energia pelo problema. Segundo porta-voz da cidade, a construção da rede foi malfeita e tem exigido uma série de reparos. A Norte Energia, por sua vez, afirma que o sistema é moderno e adequado ao município, mas que a prefeitura ainda não tem estrutura nem recursos humanos com capacidade técnica para a operação e manutenção do sistema. A empresa vai propor a capacitação e o treinamento dos profissionais para lidar de forma correta com a rede.

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02 Abril 2016 | 16h00

Na contramão de quem quer vender a casa nova em Jatobá, alguns moradores estão investindo todas as economias na expansão e melhoria dos imóveis. Como as unidades entregues pela Norte Energia são todas iguais, apenas em cores diferentes, cada um tem dado seu toque pessoal para diferenciar as residências. A primeira providência, no entanto, tem sido colocar grades nas janelas e portas para evitar assaltos.

O pescador José Raimundo Palheta de Souza, de 43 anos, não teve tempo. Assim que mudou da palafita Invasão dos Padres para a casa nova, foi roubado. Levaram tudo, máquina de lavar, TV de 42 polegadas e uma moto. “Tive de comprar tudo de novo”, conta. Antes, no entanto, fechou todas as janelas com grades de ferro.

Apesar do infortúnio, ele está feliz da vida na casa nova, muito bem cuidada pela mulher. “Não tem nem comparação com o barraco onde morávamos”, diz Souza, que pretende fazer um muro no entorno do imóvel e colocar um portão grande na entrada, como outros vizinhos estão fazendo. O ganha pão do morador vem do Rio Xingu, onde fica quase a semana toda pescando. O peixe tirado do rio vai direto para três grandes caixas de isopor que ficam na frente da casa de Souza. Ali, ele já conquistou a clientela do bairro, que garante a renda da família.

Numa rua paralela à de Souza, outra moradora não tem do que reclamar do novo bairro. A casa de Geovany Teixeira Gomes é impecável. Móveis bem ajeitados, tudo organizado e uma ampla área na porta da cozinha. Na frente da casa, um novo cômodo foi construído para abrigar um mercadinho. “A demanda aqui é grande”, diz Geovany, que morou durante 18 anos numa casa de madeira de frente para o Rio Xingu. “Criei meus filhos lá.”

Novo bairro. Jatobá é apenas um dos cinco bairros construídos pela Norte Energia. No total, 30 mil pessoas foram transferidas das áreas alagadas para as novas casas. Recentemente, a empresa descobriu que uma comunidade que originalmente não seria afetada pela usina também terá de ser realocada. O bairro Jardim Independente II foi incluído pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) como condicionante para a emissão da licença de operação, em novembro do ano passado. Quase 450 famílias já foram cadastradas no bairro.

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02 Abril 2016 | 16h00

Pelo cronograma original, a Hidrelétrica Belo Monte já deveria estar com sete unidades em operação, num total de 844 megawatts (MW). A concessionária Norte Energia, responsável pela usina, argumenta que o atraso de mais de um ano foi provocado pelas inúmeras paralisações ocorridas no local. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), porém, não aceitou o pedido de perdão da empresa e encaminhou o caso para o Ministério de Minas e Energia. Se entender que a empresa é culpada, ela terá de arcar com um custo milionário. Mas o ministério também pode aceitar a justificativa da empresa e ampliar o prazo de concessão da usina, de R$ 32 bilhões.

Esse, no entanto, não é o único entrave do projeto. A mega hidrelétrica precisa vender 20% da energia que ainda está sem contrato para conseguir liberar R$ 2 bilhões em financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), afirma o presidente da Norte Energia, Duilio Diniz de Figueiredo. Segundo ele, uma cláusula contratual exige que esse volume seja vendido por, pelo menos, R$ 130 o MWh, pelo valor de abril de 2010 (hoje equivalente a R$ 185). Mas, com a sobra de energia no setor, o preço no mercado livre despencou. Para resolver o problema, a empresa pretende participar do leilão da Aneel, no fim do mês. Mas o preço-teto definido, de R$ 115,57, pode tornar inviável o negócio.

Enquanto a empresa não resolve a pendência, os sócios de Belo Monte tiveram de aportar R$ 1,5 bilhão na obra em fevereiro e março. A usina tem como acionistas o Grupo Eletrobrás, Neoenergia, Cemig, Light, Vale, J.Malucelli, Sinobrás e os fundos de pensão Petros (dos funcionários da Petrobrás) e Funcef (da Caixa).

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