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Ambições 'aerotropolitanas'

A frenética construção de aeroportos em território chinês inclui alguns projetos do tamanho de uma cidade

O Estado de S.Paulo

19 Março 2015 | 05h33

Políticos em Londres que vêm debatendo há anos a aprovação da construção de uma terceira pista no Aeroporto Heathrow podem achar uma visita a Zhengzhou - capital de uma província no interior da China que é pouco conhecida no exterior - uma experiência esclarecedora. Cerca de 20 mil operários estão trabalhando sem interrupção na construção de um segundo terminal e pista para o aeroporto da cidade, que devem ficar prontos para testes em dezembro - três parcos anos depois de o terreno começar a ser escavado. Até 2030, as autoridades esperam que os dois terminais e as planejadas cinco pistas atendam 70 milhões de passageiros por ano - movimento quase igual ao de Heathrow agora - e transportem 5 milhões de toneladas de carga, mais de três vezes o volume de Heathrow no ano passado.

Mas as ambições do aeroporto de Zhengzhou são bem maiores do que esses números sugerem. Ele aspira a ser o centro de uma "aerotrópole" - uma cidade com quase sete vezes o tamanho de Manhattan em que o aeroporto não será um intruso barulhento em seu subúrbio, mas sim o seu núcleo. Seu perímetro abrigará instalações logísticas, institutos de pesquisa e desenvolvimento, centros de exposição e fábricas que ligarão a China central ao restante da economia global. O projeto incluirá casas e comodidades para 2,6 milhões de pessoas até 2025, cerca da metade das quais vive hoje na área urbana principal de Zhengzhou. Heathrow tem dificuldade de expandir por causa de escrúpulos dos londrinos, mas os planejadores urbanos da China não são perturbados por reclamações. Grandes projetos de construção raramente envolvem muitas consultas públicas.

A ideia de cidades construídas em torno de aeroportos não é chinesa. John Kasarda, da Universidade da Carolina do Norte, ajudou a promovê-la num livro que coescreveu, Aerotropolis: The Way We'll Live Next (Aerotrópole: a maneira como viveremos no futuro próximo, em tradução livre), publicado em 2011. Ele é um consultor da Zhengzhou Airport Economic Zone (Zaez), como a aerotrópole é chamada. Mas a China está bem situada para transformar em realidade a "salada etimológica" de Kasarda. Os chineses veem os aeroportos como "ativos competitivos", diz ele, e não como "incômodos e ameaças ambientais" - embora muitas cidades, inspiradas em outro termo de origem americana, insistem em querer se transformar em "ecocidades" verdes. Novos centros urbanos estão sendo construídos do zero por todo o país. Alguns estão sendo desenvolvidos ignorando totalmente a demanda, o que fez com que se tornem "cidades fantasmas" assustadoramente desertas. Mas esses projetos estão dando aos planejadores ampla oportunidade de construir aeroportos ao lado de novas cidades, e não a posteriori.

A construção de aeroportos avança num ritmo frenético. O plano do governo previa a construção de 82 novos aeroportos no período 2011-15. No entanto, mais de cem foram erguidos. As autoridades gostam do que chamam de "economia de aeroporto", pela qual querem dizer o uso da construção de aeroportos para impulsionar economias locais.

Somente em alguns casos os supervisores desses projetos explicitamente dizem que querem construir aerotrópoles. Um exemplo está na periferia sul de Pequim, centrada numa vila chamada Nangezhuang, onde uma cerimônia de início das obras foi realizada em 26 de dezembro. Pouca atividade é visível: alguns equipamentos de construção estavam ociosos numa tarde recente ao lado de um campo de sorgo enquanto pastores tocavam suas ovelhas por um caminho de terra próximo. Mas, até 2019, a área deve ser transformada em um dos maiores aeroportos do mundo ao custo de 80 bilhões de yuan (US$ 13 bilhões). Outros 80 bilhões de yuan serão gastos para transformar a área próxima em um centro econômico e industrial.

Equívoco. Alguns perguntam se tudo isto é necessário. Wang Tao, do Carnegie-Tsinghua Centre for Global Policy, um centro de pesquisas independente de Pequim, considera o frenesi de construção de aeroportos um equívoco. Ele acredita que muitas cidades que estão construindo grandes aeroportos não precisam deles graças à rápida expansão da rede de trens de alta velocidade do país nos últimos anos (veja mapa nesta página). As autoridades locais, diz Wang, estão atrás de prestígio político e um rápido aumento do PIB local. Elas não se importam de deixar a dívida para seus sucessores. Muitos novos aeroportos operam com prejuízo. Já Kasarda, no entanto, defende o projeto de Zhengzhou. É um equívoco, diz ele, avaliar o valor do aeroporto exclusivamente por sua lucratividade operacional; seu papel como propulsor econômico também precisa ser levado em conta. "Estamos colocando em prática a teoria da aerotrópole", diz Zhang Yanming, chefe do Parido Comunista no Zaez.

Zhengzhou tem uma longa história como polo de transportes e comércio, estando bem conectada aos maiores centros populacionais da China. Ela também tem uma oferta abundante de mão de obra (é a capital da província de Henan, uma das mais populosas da China, com mais de 100 milhões de habitantes). A Zaez permite a importação e reexportação sem tarifas de bens e componentes. Zhang diz que isto atraiu mais de uma dezena de fabricantes de telefones móveis, incluindo a Foxconn, uma empresa de propriedade taiwanesa mais conhecida por fabricar os iPhones da Apple. A fábrica da Foxconn emprega 200 mil pessoas durante todo o ano, e 300 mil em tempos de pico de produção. Três quartos dos iPhones fabricados globalmente nos últimos três anos vieram da Zaez, diz Zhang. Estes produtos pequenos de alto valor agregado se beneficiam muito do acesso fácil a aeroportos.

A aerotrópole de Pequim também tem vantagens embutidas, sendo o forte apoio do governo central o principal deles. Kasarda reconhece que seu conceito pode não funcionar em todos os lugares, especialmente em muitas das cidades menores da China. Mas continua empolgado com as muitas candidatas aptas de um país que está disposto e tem capacidade para tentar tornar esses projetos realidade. "Elas podem realmente projetar não só um aeroporto, mas uma aerotrópole a partir do zero", exulta. Resta saber se os moradores ficarão entusiasmados com os jatos zunindo sobre suas cabeças.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR CELSO PACIORNIK, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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