ANÁLISE: Para o fim da reforma, só falta Jucá anunciar

Em entrevista, presidente Temer praticamente lavou as mãos com relação à reforma da Previdência

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

02 Fevereiro 2018 | 00h02

O presidente Michel Temer praticamente lavou as mãos ao declarar, em entrevista ao Estadão/Broadcast, que fez a “sua parte” para aprovar a reforma da Previdência. Foi a senha que faltava para a construção da narrativa final de desembarque do governo da reforma.

Desembarque, nesse caso, significa o reconhecimento público de que não há mais a mínima condição de conseguir a aprovação da proposta diante da rejeição dos deputados e da opinião pública.

Só falta chamar o senador Romero Jucá (MDB-RR) para anunciar o fim das tentativas de votação da proposta ainda durante o governo Temer. No final do ano passado, Jucá serviu como uma espécie de porta-voz improvisado do anúncio do adiamento da votação para depois do Carnaval.

Aos poucos, num enredo já esperado, as principais autoridades do governo deram declarações nesta quinta-feira reconhecendo a fadiga das tentativas de angariar os votos para o projeto de reforma.

Além de Temer, o ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, foi quem melhor explicitou o problema, ao admitir parar a batalha se a reforma não for aprovada em fevereiro. “Se passar de fevereiro, não podemos ficar com essa pauta de forma indefinida”, disse o ministro.

E Rogério Rosso, o deputado do PSD do Distrito Federal que foi escalado por Temer para negociar mudanças na proposta para atender os servidores públicos, entrou em campo para fazer um apelo para o governo desistir da reforma. Dá para entender? O negociador desistiu de antemão da reforma sem nem ao menos apresentar a alternativa pedida pelo presidente.

É o caos instalado. Ninguém se entende mais.

O que ocorre agora é um jogo final de empurra para apresentar os culpados pela derrota: governo ou Congresso; equipe econômica ou Palácio do Planalto. Defensor de primeira hora da proposta, o presidente da Câmara e presidenciável nas eleições deste ano, Rodrigo Maia (DEM-RJ), também já dá demonstrações de que abandonou essa agenda.

Ao lado de Temer, Maia virou alvo dos ataques, principalmente no Nordeste, onde precisa angariar votos se quiser realmente se eleger. Uma campanha que se espalhou nas redes sociais pede para os eleitores não votarem nele, por causa da reforma da Previdência. Maia já disse que não coloca o projeto em votação se não houver votos suficientes. Interlocutores do governo avisam que o anúncio da desistência da reforma deverá ocorrer já na semana que vem, quando o Congresso retoma os trabalhos legislativos. É questão de esperar.

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