Qual será o ‘elo perdido’ que explica a euforia do mercado?

Quanto mais os economistas alertam para as inconsistências do Brasil, mais a Bolsa sobe

Fernando Dantas*, O Estado de S.Paulo

11 Setembro 2017 | 21h55

Não adianta. Quanto mais os economistas que fazem cenários alertam para a complacência dos mercados em relação ao Brasil, mais a Bolsa sobe, o real se valoriza e os juros caem. O contraste entre o que os analistas falam e o que os “traders” operam é cada vez mais gritante.

É verdade que os economistas de forma geral enfatizam os fatores positivos de curto prazo que dão ânimo aos ativos brasileiros: a condução vitoriosa da política monetária, o bom desempenho do setor externo brasileiro, um cenário internacional dos sonhos e nenhum traço de inflação.

Por outro lado, é praticamente impossível encontrar um analista que não mencione a grande inconsistência macroeconômica brasileira, que pode se manifestar nocivamente no médio ou longo prazos. A teoria econômica em relação ao funcionamento dos mercados indica que os agentes tendem a antecipar eventos futuros, ainda mais se visíveis e muito prováveis.

Quando os economistas mencionam o “gap” de resultado primário que é necessário recompor para pôr o setor público numa trajetória solvente; quando apontam para a imprevisibilidade das eleições em 2018; quando a reforma da Previdência parece ter se tornado remota; e quando, enfim, colocam-se na equação todos esses fatores, o que deveria ser antecipado é que uma queda no abismo fiscal estaria a caminho.

Como absolutamente nada disso está nos preços do mercado, é inevitável pensar sobre quem, se os economistas ou os operadores, está errado. A forma mais convencional de abordar essa questão é fechar com os economistas. Afinal, há uma penca de pechas sobre o mercado que pode explicar desvios dos fundamentos: comportamento de manada, o jogo de cadeiras pelo qual todos tentam estar entre os últimos a sair de uma bolha para ganhar o máximo antes que tudo desabe, a exuberância irracional, etc.

Mas é inevitável também especular sobre se não há fatores operando de forma menos evidente, que não são captados pelos modelos e pela racionalidade dos economistas. Se algo desse tipo estiver ocorrendo será mais de natureza política do que econômica. O desafio do Brasil daqui em diante é fazer um monumental esforço fiscal: cortar benefícios e aumentar impostos. Apenas o sucesso nessa tarefa nos próximos anos justificaria os atuais preços de mercado.

A possibilidade é de que a poderosa resistência às reformas estruturais baseada na comunhão de forças entre corporativismo e populismo tenha sido parcialmente rompida pelo colapso recente do nacional-desenvolvimentismo. A intuição de que reformar o Brasil no médio prazo venha a ser menos difícil do que sugere o passado do País desde a redemocratização pode ser o “elo perdido” na trajetória dos preços do mercado.

* É COLUNISTA DO BROADCAST

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