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Análise: Nota de crédito do Brasil regrediu uma década em dois anos

Para analistas, País pode levar até quatro anos para recuperar o grau de investimento; foco do mercado passou a ser a agenda de reformas estruturais

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Ricardo Leopoldo, Mário Braga, Álvaro Campos, André Ítalo Rocha, Suzana Inhesta,
O Estado de S. Paulo

17 Fevereiro 2016 | 17h13

A decisão da Standard & Poor's de rebaixar o Brasil da nota BB+ para BB, com perspectiva negativa, indica que a nota de crédito do País regrediu uma década em dois anos, disse ao Broadcast, serviço de informações em tempo real da Agência Estado, o economista-chefe do banco Safra, Carlos Kawall. "O rebaixamento é muito ruim e o processo de volta ao grau de investimento deve levar 3 ou 4 anos", disse. "Com isso, fica mais urgente a necessidade de serem realizadas reformas estruturais, especialmente relacionadas à área fiscal."

Na avaliação de Kawall, "com o quadro atual, são maiores de 50% as chances da Argentina ter um rating melhor do que do Brasil em 1 ou 2 anos. O economista leva em contra a possibilidade de o país vizinho concluir acordo com os chamados fundos abutres relacionados à sua dívida, o que o deve mudar sua classificação de "default seletivo" pela S&P e entrar numa escala de notas, com tendência provavelmente ascendente. 

Para o economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Newton Camargo Rosa, o novo rebaixamento veio "bem antes do esperado". "Dentro do quadro de deterioração fiscal e incertezas políticas, havia a expectativa de rebaixamento mais à frente, até junho, mas o corte agora é uma surpresa", disse.

Para o especialista, devem ter pesado para a decisão o quadro fiscal "bastante frágil" e a intenção do governo de instituir uma banda fiscal, de modo a acomodar um novo déficit primário das contas públicas. 

Em termos práticos, Camargo Rosa considera que o novo rebaixamento pela agência, que já considerava o Brasil grau especulativo, adia as condições de recuperação da economia do País. "Isso pode gerar um aumento dos custos para financiamento de investimentos no exterior, o que atrapalha as chances de retomada da economia", avaliou. Para ele, em um cenário otimista, a economia nacional permanecerá estagnada por algum tempo.

O economista-chefe da SulAmérica Investimentos considera que, apesar de alguns indicadores sugerirem que o Brasil atingiu o ponto mais grave da crise, o novo rebaixamento pode forçar a continuação da queda da economia. 

Já na visão do economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, o rebaixamento era esperado pela desaceleração "muito abrupta" da economia brasileira. "As agências estão fazendo o natural diante da deterioração econômica clara. E esse processo vai continuar e devemos ver mais rebaixamentos neste ano, inclusive da própria Moody's", declarou.

Vale acredita que economias normalmente aguentam um ano de fortes ajustes. "Mas o duro é ter dois anos de ajustes fortes. Para as empresas, por exemplo, é um elemento mortal", ressaltou.

Efeitos. O economista-chefe da Kinea Investimentos, Luis Fernando Horta, acredita que os efeitos devem ser limitados no mercado. "Isso pode ter algum impacto na Bolsa, com alguns estrangeiros realocando recursos, mas para juros e câmbio o efeito é pequeno. O que está guiando o mercado local agora é agenda de reformas que poderia ocorrer este ano, mas que na minha opinião tem uma chance muito pequena de sair do papel", comenta.

Para ele, a decisão da S&P não aumenta a pressão sobre o governo da presidente Dilma Rousseff. "O que pressiona o governo é a atividade fraca e a inflação elevada", afirma. Na avaliação de Horta, o efeito sobre a economia real também é pequeno. "O necessário para a gente sair da recessão é a inflação cair", comenta.

Na mesma linha, o economista Mauro Schneider, da MCM Consultores, acredita que a decisão da S&P não será capaz de aumentar o senso de urgência do governo no sentido de implementar medidas de recuperação econômica. "O que de pior poderia acontecer com a nossa economia já está acontecendo, com avanço do desemprego e queda da renda. Se isso não aumentou o senso de urgência, não será a S&P que fará isso", disse.

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