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Angra dos Reis espelha crise da Petrobrás

- Atualizado: 19 Janeiro 2016 | 20h 32

Sem encomendas de sondas da petroleira, estaleiro instalado na cidade demite e funcionários que ficam são assombrados pela ameaça de corte

ANGRA DOS REIS - Desde o fim de novembro, o dia dos trabalhadores do estaleiro Brasfels, em Angra dos Reis, litoral sul do Rio, começa com uma espécie de roleta-russa. As catracas eletrônicas ganharam a nova função de apontar a sorte dos 6,5 mil funcionários. Os mais afortunados recebem o sinal verde para seguir com suas funções, mas há 2 mil empregados que vão ver a “arma” disparar ao puxar o “gatilho”. Já houve cerca de 600 vítimas, segundo o sindicato local. 

A história de funcionários que souberam seu destino como num jogo de azar assusta os que ficam. “Na última leva, ninguém ficou sabendo. Chegou na hora, bloqueou o crachá e foi demitido. Agora, todo mundo fica com medo de chegar ali e estar bloqueado”, conta Daniel Castilho, que trabalha como esmerilhador e hoje convive com a insegurança sobre o futuro.

Cortes. Diante da crise da Petrobrás e da redução de encomendas, há expectativa que o estaleiro Brasfels demita mais 2 mil pessoas em Angra dos Reis
Cortes. Diante da crise da Petrobrás e da redução de encomendas, há expectativa que o estaleiro Brasfels demita mais 2 mil pessoas em Angra dos Reis
A roleta-russa do Brasfels é uma das faces reais do desmonte que ameaça a indústria naval, na esteira da crise que vem levando a Petrobrás a cortar investimentos. A estatal, principal cliente dos estaleiros, vinha enfrentando dificuldades financeiras desde 2013. Em março de 2014, a Operação Lava Jato, da Polícia Federal, apontou o envolvimento da empresa em um esquema bilionário de corrupção. Contratos com fornecedores ficaram sob investigação e muitos foram suspensos.

No último ano, a alta do dólar e a queda no preço do petróleo complicaram ainda mais a situação da petroleira, que já reduziu duas vezes seu plano de investimentos 2015-2019, desde junho do ano passado. O último corte, anunciado terça-feira, eliminou US$ 32 bilhões da previsão de aportes, sinalizando que a estatal deverá apertar ainda mais o cinto no plano de 2016-2020.

Navios. A Sete Brasil, empresa criada para mandar construir localmente e operar navios-sonda para a Petrobrás e também sob suspeita na Lava Jato, está desde o fim de 2014 sem dinheiro para pagar os estaleiros e perdeu acesso a financiamentos cruciais para levar as obras adiante. Como se não bastasse, a petroleira cancelou encomendas que nem sequer haviam saído do papel e eram esperança de receita para a Sete no futuro.

Os trabalhadores de Angra ainda resistiram durante um tempo. Antes, foram demitidos funcionários dos estaleiros Atlântico Sul (em Pernambuco), Ecovix (Rio Grande do Sul) e Mauá (também no Rio). Em meados de dezembro, a lista cresceu ainda mais: o Estaleiro Ilha S.A. (Eisa) e sua subsidiária Eisa Petro Um, no Rio, fecharam as portas, demitiram 3 mil e pediram recuperação judicial. Ao todo, os estaleiros dispensaram 17,8 mil trabalhadores em 2015 em todo o País, de acordo com o Sinaval, entidade que representa a indústria naval.

Arthur Barbosa da Silva, de 66 anos, trabalhava como supervisor de projetos no Brasfels. No próximo dia 2, completaria 50 anos no estaleiro, que começou se chamando Verolme e trocou de dono em 2000. “Foi meu primeiro emprego. É uma vida. Senti um pouco de tristeza por causa disso, estou muito acostumado com o ambiente de trabalho. Estou um pouco amuado, mas acho que a gente acostuma com a vida aqui fora. Vou tentar isso.”

Diante da sentença das catracas eletrônicas do Brasfels, trabalhadores agora desempregados tiveram de repensar o futuro. Um ex-funcionário, que pediu para não ser identificado por medo de represálias, conta que cortou despesas em casa e já pensa em vender o carro. “Meu plano era ter filho este ano. Minha mulher estava havia três semanas sem tomar remédio (contraceptivo). Essa ideia agora está suspensa.”

Reprise. As demissões no estaleiro desenterraram um filme antigo, com cara de anos 80, que agora passa pela cabeça dos gestores e dos habitantes de Angra. Antes de se tornar Brasfels, o Verolme ficou desativado por cerca de cinco anos. “Todo aquele comércio de Jacuecanga (bairro onde está instalada a unidade) morreu. Existiam as lojas, mas não o comércio. Essa é a nossa preocupação: de que haja uma crise sem precedentes no estaleiro, no setor naval, e tudo isso volte a acontecer”, afirma o secretário municipal de Atividades Econômicas, Marcelo Oliveira.

A prefeitura calcula que há cinco trabalhadores indiretos para cada funcionário da construção naval. Se as 2 mil demissões anunciadas forem concretizadas, pelo menos outras 10 mil pessoas terão seus empregos ameaçados. Nos cofres da cidade, os tempos de vacas magras já chegaram. Entre janeiro e novembro de 2015, o Brasfels deixou de pagar R$ 990 mil em ISS à prefeitura, o equivalente a 20% da fatura de 2014. A reportagem não conseguiu contato com o estaleiro Brasfels.

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