Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Aos poucos, consumidores retomam planos

Famílias se organizam para reformar a casa, trocar o carro e até fazer uma viagem curta

Márcia de Chiara, O Estado de S. Paulo

15 Outubro 2017 | 06h00

Os consumidores dizem que ainda não sentiram o alívio da inflação nas despesas básicas do mês. Mas, pouco a pouco, mais seguros no emprego, ensaiam a compra de um produto de maior valor por necessidade e até se arriscam em planejar a reforma da casa. Detalhe: tudo parcelado em muitas vezes no cartão porque, à vista, nenhuma loja oferece desconto. 

O técnico em dedetização Nerivaldo Romero Lopes, de 56 anos, casado e pai de três filhos, foi ao shopping Aricanduva, na zona leste de São Paulo, anteontem, para comprar uma TV básica de 32 polegadas. “Não planejava fazer essa compra agora, mas a minha TV queimou”, contou. Pelo aparelho, pagou R$ 1.050 que, com seguro, saiu por R$ 1.350 em dez vezes no cartão. 

“Não estou sentindo a queda dos preços dos alimentos e estou gastando mais com água, luz, telefone e gás”, reclamou.

Não fosse esse imprevisto, ele pretendia trocar de carro e viajar até Natal (RN) no fim do ano. Agora, Lopes, que tem renda familiar mensal de R$ 4,5 mil, vai concentrar os gastos na reforma da casa. Ele já comprou o material para a reforma da cozinha e do banheiro, também a prazo, e se prepara para contratar o pedreiro. “Podia viajar ou fazer a reforma. Achei melhor reformar a cozinha e o banheiro, que estão com vazamentos. No ano que vem a gente paga as dívidas e viaja”, disse.

O engenheiro Wagner Confessor, de 40 anos, estava ontem no mesmo shopping com a mulher para comprar um presente e pesquisar o preço de um aspirador de pó. “Vou ter que comprar um novo porque o meu está obsoleto”, disse. Ele deve gastar R$500, parcelados em, no máximo, cinco vezes para comprar o eletroportátil. “O reparo do aspirador velho fica mais caro do que comprar um novo.” 

Confessor trabalha numa montadora. No ano passado, vendo os colegas serem demitidos, ficou com medo de perder o emprego. Por isso, chegou a reativar um site de reparos de funilaria de veículos. Antes de ser engenheiro, ele trabalhava na área de produção da fábrica, desamassando a funilaria, sem estragar a pintura.

Ele notou que, agora, as coisas melhoraram na empresa, entraram muitos pedidos, e isso o deixou mais seguro para tirar do papel a esperada reforma da casa. Para comprar material de construção e pagar a mão de obra, vendeu o carro. Agora planeja comprar um carro usado no começo do ano que vem. “A movimentação econômica parece que melhorou, mas em questão de preços dos alimentos e outros produtos, não senti muito.”

Reação. Também a vendedora de joias folheadas a ouro, Alessandra Xavier, de 36 anos, casada e com uma filha, não sentiu alívio na inflação. Mas percebeu reação nos negócios. “Tudo está girando”, disse, fazendo referência às vendas de joias. Ela tem notado que seus clientes voltaram a comprar. 

Ela mesma com a renda da venda de joias acaba de comprar um veículo, depois de ter ficado um tempo sem carro. Alessandra teve que vendê-lo porque precisou do dinheiro. 

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