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Apesar da crise, consumo de espumantes no Brasil cresce 16,5%

Ao contrário dos vinhos finos, espumantes nacionais dominam as vendas do produto no País, com cerca de 80% do mercado, e vinícolas apostam em atingir uma fatia ainda maior, por conta da alta do dólar; desafio é elevar o consumo per capita dos brasileiro

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Fernando Scheller,
O Estado de S.Paulo

09 Fevereiro 2016 | 03h04

Apesar de a economia enfrentar a pior recessão dos últimos 25 anos, o brasileiro ainda parece estar encontrando motivos para comemorar – e estourar garrafas de espumante. As vendas do produto nacional subiram 16,5% de janeiro a novembro do ano passado, segundo dados do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin). Vinícolas nacionais de médio e grande porte, como a Miolo e a Casa Valduga, estão apostando cada vez mais suas fichas no produto, que cresce a taxas bem mais generosas do que os vinhos finos, cuja produção avançou 4% em 2015.

Ao contrário do que ocorre nos vinhos tintos, em que há uma espécie de preconceito em relação ao produto nacional, o espumante fabricado no Brasil domina as vendas no País. Segundo Dirceu Scottá, presidente do Ibravin, 80% do consumo local de espumantes é abastecido pelas vinícolas nacionais. No vinho fino, com a concorrência mais forte do produto da Argentina e do Chile, a situação se inverte: o produto brasileiro só responde por 20% do consumo total.

Apesar da recente alta de impostos para o setor, as vinícolas esperam que a tendência de alta do dólar reforce ainda mais a vantagem de preço do produto brasileiro. Na vinícola Miolo, que fatura R$ 150 milhões por ano, o trabalho do diretor executivo Danilo Cavagni, que chegou à empresa há dois anos, depois de 38 anos na Chandon, é implantar a cultura do espumante, cujo mercado está mostrando bem mais resiliência à crise.

Para aumentar a produção do produto tipo moscatel – de paladar mais doce, que cresceu 22,6% até novembro de 2015 –, a empresa abriu uma fábrica no município baiano de Juazeiro, que fica no segundo maior centro produtor vinícola do País, atrás do Rio Grande do Sul. “A vantagem do Nordeste é que lá eu consigo produzir espumante moscatel o ano todo, enquanto aqui no Rio Grande do Sul estou preso a uma safra por ano”, explica Cavagni.

A reputação do produto nacional vem sendo trabalhada de diferentes formas. Além de prêmios internacionais conquistados por rótulos como Cave Geisse, Rio Sol e Casa Valduga, as empresas também investem em ações de marketing voltadas para celebrações (como formaturas e casamentos). Outro ponto de apoio de construção de reputação é o enoturismo. No Rio Grande do Sul, as vinícolas Miolo e Valduga receberam mais de 200 mil turistas, cada uma, em 2015.

Os negócios que apostaram na força do espumante tiveram bom resultado no ano passado. Na Casa Valduga, que produz cerca de 2 milhões de garrafas, a expansão da receita foi da ordem de 20%, diz o presidente do Grupo Famiglia Valduga, Juarez Valduga. No ano passado, além de lançar uma operação própria de e-commerce, a companhia também separou os produtos da linha .Nero em uma divisão própria. Em 2016, a empresa cogita testar um modelo de venda de vinho porta a porta, segundo o executivo.

Do ponto de vista da distribuição, as empresas se posicionam de diferentes formas. Enquanto a Casa Valduga está disponível em restaurantes, bares, lojas de vinhos e só em alguns supermercados, marcas como a Miolo e a Perini se dedicam ao grande varejo. À medida que o consumo se sofistica no País, as empresas lançam linhas de produtos para diferentes bolsos: a Miolo tem a segunda linha Almadén (adquirida em 2009 da francesa Pernod Ricard), a Perini tem a Casa Perini e a Valduga, a .Nero.

Luxo. O grupo de luxo LVMH mantém a produção dos espumantes Chandon no Rio Grande do Sul. Ao contrário da maior parte das vinícolas familiares, que atuam principalmente com parreirais próprios, a multinacional francesa terceiriza a maior parte de suas videiras. A companhia produz cerca de 3 milhões de garrafas no País.

No ano passado, o crescimento da Chandon – marca vendida exclusivamente no Brasil – foi de 9% em relação a 2014, de acordo com o diretor-geral da Chandon do Brasil, Sérgio Degese. Os produtos da Chandon são vendidos no varejo a partir de R$ 67 a garrafa – mais do que o dobro do valor de entrada dos produtos de entrada de vinícolas como Miolo e Salton. “O crescimento do mercado de espumantes no Brasil está ligado à criação de novas ocasiões de consumo”, diz Degese.

Hoje, segundo o Ibravin, o consumo per capita de vinhos no Brasil está ao redor de 2 litros por ano, contra 16 litros do Chile, 27 da Argentina e 30 do Uruguai. No caso dos espumantes, estabelecer o hábito é um dos desafios das vinícolas. Segundo o instituto do vinho, a sazonalidade do consumo diminuiu, com cerca de 40% das vendas concentradas nos meses de novembro e dezembro. As vinícolas, porém, afirmam que o peso do réveillon para o espumante no Brasil ainda é maior, de 50%. “Tem muita gente ainda no País que associa o espumante ao barulho da rolha para saudar o ano novo”, diz Degese.

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