Fabio Motta/EStadão
Fabio Motta/EStadão

Apesar de tudo, a economia se recupera

Na área econômica, mesmo com a situação de violência urbana, o cenário político conturbado e o alargamento do rombo fiscal, há perspectivas mais positivas do que negativas

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

21 Fevereiro 2018 | 21h00

Então, ficamos assim: para, de alguma maneira, escamotear seu fracasso de conseguir aprovar a reforma da Previdência, o governo Temer inventou a intervenção na política de segurança no Rio de Janeiro. E para, de alguma maneira, compensar o incompensável, tratou de anunciar uma raspa de tacho com cerca de 15 projetos que já estavam dormindo na prateleira. Entre os 15 projetos, está a privatização da Eletrobrás e a formalização da autonomia do Banco Central.

Têm razão aqueles que argumentam que, para ter eficácia, a intervenção não pode ter prazo prévio de validade tão curto. Chicago e Nova York não acabaram com o crime organizado em apenas dez meses, como o governo Temer pretende fazer acreditar. Se der certo, a operação não passará de uma varrida de lixo para atrás da porta, sem ataque às causas. Por isso, não dá para acreditar em seu êxito duradouro.

No entanto, apesar da improvisação e do fracasso mencionado e já sobejamente comentado, a intervenção contra o crime e contra outras manifestações da metástase do Estado do Rio tem notório apelo eleitoral.

O povão quer ver bandido na cadeia, quer show de apreensão de armas e de tóxicos e anseia por alguma sensação de que pode fazer na rua uma chamada de celular sem risco de ser roubado. E de que recuperou alguma tranquilidade ao circular de carro na Linha Vermelha. Durante alguns meses, é possível proporcionar uma impressão assim.

Mas não terá nunca o alcance do Plano Real, que garantiu a derrubada sustentável da inflação e da recuperação do poder aquisitivo da população. Segurança por aqui há muito não vem sendo levada a sério, mas durante alguns meses essa operação pode passar a impressão de que começou a ser.

 
Do ponto de vista político eleitoral, parece enfraquecida a oposição mais radical (PT, PSOL e PCdoB) que outra vez saiu a condenar um programa que tem lá seus problemas, como está dito, mas é popular. Também deve perder espaço a candidatura Jair Bolsonaro, porque pode ficar claro que não será preciso contar com ele para conter a insegurança e o poder paralelo. E abre-se ainda mais espaço para uma candidatura de centro.
 
Na área econômica, apesar de tudo e apesar do alargamento do rombo fiscal, o conjunto apresenta perspectivas mais positivas do que negativas. Parece inevitável, por exemplo, novo rebaixamento da nota do Brasil pelas agências de classificação de risco, no entanto, o impacto desse rebaixamento pode continuar a ser baixo, porque o exterior vem acompanhando a evolução da economia do Brasil com impressionante tolerância. O Credit Default Swap, o derivativo que funciona como avaliação do mercado às condições fiscais do Brasil, continua 22% mais baixo do que estava há seis meses (veja o gráfico abaixo).

Se for levado adiante, o que é improvável, o pacote alternativo disparado pelo governo Temer, às pressas e com alta dose de enganação, não deve produzir impacto imediato. Mas o que importa são outros fatores que trabalham a favor da recuperação econômica e do governo. Sempre vale mencioná-los.

No ano, o avanço do PIB tende a ser maior do que os 2,70% projetados pelo mercado na virada do calendário; a indústria vai engatando a segunda marcha; o agro continua a dar show; a inflação está com o espinhaço quebrado; os juros básicos chegaram a 6,75%, o nível mais baixo desde 1986, e podem cair mais; o desemprego mostra recuo consistente; a arrecadação dá sinais de melhora; as contas externas estão sólidas; não há fuga de dólares; o câmbio está relativamente estável; a Petrobrás vai sendo saneada; e a evolução da Bolsa parece refletir esse estado de coisas.

Se não houver turbulência grave no mercado global, o cenário é basicamente favorável e a percepção disso tenderá a ficar mais clara para a população. E isso não é pouco.

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