Aplicativo criado por brasileiro vira febre no iPhone

Instagram, programa de tratamento de fotos desenvolvido por Mike Krieger e o sócio Kevin Systrom, atrai mais de 2 milhões de usuários

Naiana Oscar, O Estado de S.Paulo

07 Março 2011 | 00h00

Mike Krieger virou, aos 24 anos, uma celebridade da internet. Em um escritório em São Francisco, na Califórnia, ele e o sócio desenvolveram o Instagram - um aplicativo de fotos para o iPhone que explodiu e superou os dois milhões de usuários em cinco meses. A ideia simples, que une filtros para tratamento de imagem ao compartilhamento das fotos numa rede social, chamou a atenção de gente importante, como Jack Dorsey, um dos fundadores do Twitter, Phil Schiller, executivo de marketing da Apple e o fundo Benchmark Capital, que aportou US$ 7 milhões na empresa há um mês.

O sucesso do produto lançado em outubro passado impôs a Krieger uma rotina frenética de trabalho, que o faz virar madrugadas e passar até 30 horas seguidas em frente ao computador. Desde que o Instagram ficou disponível para download gratuito no site da Apple, ele teve apenas uma folga, em que pôde fazer "uma das coisas que mais gosta no mundo": passar o réveillon em São Paulo. "Adoro curtir a cidade vazia, sem trânsito", diz o empresário, num típico comentário paulistano.

Apesar do nome gringo e do inglês perfeito que confunde até americanos, Krieger é brasileiríssimo. Morou em Alphaville, região nobre da Grande São Paulo, e já quis ser aluno da USP. Como o pai é executivo de uma distribuidora de bebidas multinacional, Krieger viajou o mundo desde muito pequeno. Aos quatro anos, morou em Lisboa, depois seguiu para Miami, Buenos Aires e voltou a São Paulo em 2000 para continuar os estudos numa escola americana.

"Naquela época ele tinha três grandes paixões: violão, bandas de rock desconhecidas e tecnologia", lembra o consultor Bruno Valle, um amigo de colégio. Krieger cogitou ficar por aqui mas, na dúvida, candidatou-se a uma vaga na Universidade Stanford, no Vale do Silício. Foi aprovado e começou a desenhar a trajetória que o levaria ao Instagram.

O brasileiro estudou symbolic systems (sistemas simbólicos), um curso que alia disciplinas como programação, design, filosofia e psicologia - habilidades que permitiam a ele não apenas desenvolver os aplicativos, mas entender as necessidades dos usuários. "Fiquei completamente apaixonado por esse programa. Ele mudou minha vida", lembra o brasileiro, com o entusiasmo de quem tem a certeza de que fez a escolha certa.

Na época, para ganhar um dinheiro extra como estudante, Krieger passou a ser "ouvinte" de trabalhos de conclusão de curso. "É, isso mesmo. Eu era contratado pela universidade para assistir à apresentação do aluno antes da banca e dar dicas", diz. Ele ganhava US$ 13 por hora, mesmo que o aluno faltasse.

Startup. Formado, teve de procurar um emprego sério. O primeiro foi no Meebo, site que agrega chats online. Um ano e meio depois, já estava entediado. Foi quando recebeu o convite de um colega de Stanford para iniciar em sociedade uma startup - nome que se dá a essas empresas nascentes, com poucos recursos, pouca mão de obra e ideias quase sempre geniais.

O sócio, Kevin Systrom, tinha um projeto em desenvolvimento, parecido com o já existente Foursquare - um aplicativo que, atrelado a um GPS, permite que a pessoa informe aos seus seguidores onde está naquele momento: um show, um restaurante, uma praia. Mas era limitado demais. Systrom queria que as pessoas dissessem não apenas onde estavam, mas publicassem fotos, vídeos, comentários desses lugares, instantaneamente. Foi o que os dois rapazes tentaram fazer e conseguiram.

Em agosto de 2010, estava tudo pronto. Era o projeto dos sonhos, mas, na prática, confuso demais. "Levávamos mais de 10 minutos tentando explicar aos nossos amigos o que tínhamos criado. E isso, em internet, é um problema grave." Resultado: em 31 de agosto foi quase tudo para o lixo, exceto o que mais chamou a atenção dos usuários no período de teste: a rede social de fotos.

Entre agosto e outubro, os dois amigos viraram noites no escritório para criar o Instagram - o nome é uma combinação de "Instant" e "Telegram". Daqueles dias, Krieger lembra apenas de sair cedinho de casa, de bicicleta, e às vezes só voltar na manhã seguinte, para tirar um cochilo. "Só sei que aconteceu e foi de verdade porque minha namorada fotografou tudo."

Eles esperavam 2,5 mil downloads gratuitos no primeiro dia no site da App Store, mas tiveram 20 mil. Na primeira semana, os americanos eram a maioria dos usuários. Na segunda, bombou no Japão. "Todo dia, às 5h, eu acordava com o alerta no celular de que o servidor estava sobrecarregado: eram os japoneses saindo do trabalho e acessando em peso o aplicativo." Aquele foi o primeiro recorde de fotos publicadas. Depois disso, o servidor voltou a ficar no limite durante o réveillon. Krieger estava com os pais no Shopping Cidade Jardim, quando o celular começou a apitar. A média hoje é de 345 mil imagens publicadas por dia, ou quatro por segundo.

Apesar da popularidade entre os usuários do iPhone, o Instagram ainda não gera receita e os sócios não sabem explicar direito como isso vai acontecer no futuro. Parte do aporte de US$ 7 milhões recebido do fundo de investimentos Benchmark Capital e de nomes como o de Dorsey, do Twitter, será usada na contratação de funcionários: a equipe vai mais que dobrar, de 4 para 10 até o fim do ano.

O Facebook, criado por Mark Zuckerberg e outro brasileiro, é uma referência. "Eles têm 500 milhões de usuários. Significa que temos tudo isso ainda para crescer."

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