Aporte externo só virá com garantia de estabilidade

Governo precisa de investimentos para recuperar defasagem em logística, transporte e energia para garantir desenvolvimento

Valéria França, Especial para o Estado

06 Agosto 2014 | 12h05

SÃO PAULO - Planejar o crescimento das cidades brasileiras proporcionando boa qualidade de vida. Investir na eficiência logística da circulação de mercadorias por rodovias, portos e ferrovias, entre outros meios de transporte. Garantir o crescimento do potencial energético na mesma proporção do crescimento econômico ao longo dos anos. Esses são alguns dos desafios dos próximos governos.

Mas há um agravante: será preciso compensar a falta de investimento de décadas e chegar pelo menos ao mesmo nível de outros países emergentes. O Brasil investe em média 2,2% do PIB em infraestrutura, a Índia, 4,7%, e a China, 8,5%. “Para recuperar a defasagem e chegar num patamar de eficiência em 2030, serão necessários mais de 5% do PIB em investimentos no setor, algo em torno de R$ 240 bilhões ao ano”, diz Roberto Fantoni, líder de prática de infraestrutura da McKinsey na América Latina. “É um valor que o País não tem. Esse montante só virá em forma de investimentos externos.”

Para os mais de 30 especialistas ouvidos para o Fóruns Estadão Brasil 2018 de infraestrutura, falta conexão entre os principais meios de transporte. O País precisa de um plano de integração. As rodovias devem se ligar aos portos e esses às ferrovias, por exemplo. “Não existe o transporte mais importante, e, sim, o mais adequado à finalidade e distância a ser percorrida”, afirma Paulo Resende, professor da Fundação Dom Cabral, de Minas Gerais.

África. Também será preciso criar mecanismos confiáveis para atrair investimentos. Hoje a África virou destino para aportes em logística. Entre 2000 e 2011, de acordo com o AidData e do Center for Global Development (CGD), com sede em Washington, a China já investiu R$ 150,6 bilhões em projetos de infraestrutura em 51 países africanos. Até as empresas brasileiras, como a Marcopolo, a Weg e a Camargo Corrêa, estão presentes na regiões lusófonas do continente, Moçambique e Angola.

Subida dos custos. Um estudo sobre os motivos do baixo crescimento econômico do Brasil, feito pelo Centro de Estudos do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Cemec/IBMEC), constatou que a taxa da poupança das empresas em relação ao PIB caiu de 10,5%, em 2010, para 7,9%, em 2013. Foram analisados os balanços de 347 companhias abertas, excluindo bancos. As empresas pouparam menos porque os custos subiram em um cenário de baixo crescimento, e por isso elas reduziram investimentos.

Segundo o diretor do Cemec, o economista e professor da Universidade de São Paulo Carlos Antonio Rocca, o dinheiro privado em infraestrutura é chave para o crescimento econômico. “Trata-se do único setor que não tem problema de falta de demanda”, afirma Rocca. “Haveria capital para financiar obras e serviços se o governo adotasse um modelo adequado para as concessões, que garantisse lucro e remuneração para a parceira privada.”

No Brasil, a lei de contrato de prestação de obras que estabelece concessões, a PPP (parceria público-privada), de 2004, abriu caminhos para novos negócios no setor. A relação entre as duas partes, no entanto, ainda precisa melhorar. “O governo tem de dar garantia de que as políticas públicas não vão mudar, independentemente do candidato que irá assumir. Estamos falando de medidas de longo prazo, de mais de 30 anos, muitas vezes”, diz Fantoni.

O governo está numa corrida contra o relógio e vem tentando agilizar o processo. Resultado disso foi a criação da Estrutura Brasileira de Projetos (EBP), organizada pelo BNDES e bancos privados. Sem ela, o governo teria de licitar empresas para elaborar projetos de infraestrutura. “Há muitas pontas soltas”, diz Rodrigo Vilaça, presidente da Associação Brasileira de Logística. “Os papéis devem ser melhores definidos. Agências reguladoras, por exemplo, tem de fiscalizar e exigir as contrapartidas da concessionária. O modelo funciona bem na aviação nacional. /COLABOROU CLEY SCHOLZ

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