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Após dois anos de queda, aquisições crescem 14%

Com retomada da economia, investidores compram 240 empresas no País até agosto

Cleide Silva, O Estado de S. Paulo

01 Outubro 2017 | 05h00

A gigante Saint Gobain, que atua em diversos segmentos no Brasil, adquiriu, em 12 meses, sete empresas brasileiras, das quais três neste ano. Foi o maior número de aquisições do grupo francês para esse período em seus 80 anos no País. Aliada à estratégia global de crescer nos mercados emergentes, a empresa encontrou “preços razoáveis” para os ativos em meio às crises econômica e política. “Estamos confiantes de que, até o fim do ano, poderemos fechar mais três negócios”, diz Thierry Fournier, presidente da Saint Gobain para Brasil, Argentina e Chile.

De janeiro a agosto, foram registradas 240 aquisições de empresas no Brasil, 14,3% mais que no mesmo período do ano passado. O número envolve apenas compras da totalidade das empresas. Considerando participações minoritárias, fusões, aquisições e joint ventures foram 406 transações no ano, alta de 7% na comparação com 2016, segundo dados da consultoria PwC.

“Após dois anos seguidos de queda, voltou o apetite por aquisições”, diz Rogerio Gollo, sócio da consultoria PwC Brasil. Segundo ele, apesar de os preços das companhias brasileiras terem caído na crise, “as incertezas econômicas e políticas afastaram os compradores”.

Gollo ressalta que o cenário hoje é o inverso em relação ao de um ano atrás quando inflação, juros e dólar eram ascendentes e a recessão se aprofundava. “Com a redução das incertezas, os investidores que fizeram sondagens há um ou dois anos estão retornando ao mercado para efetivar negócios.”

Fournier diz que ampliar operações no Brasil faz parte da estratégia do grupo, que tem 62 fábricas. Admite, contudo, que a situação econômica permitiu “negociar as aquisições de forma correta, a preços razoáveis e adequados”.

O grupo investiu R$ 1 bilhão este ano, valor que inclui a aquisição da Adespec, fabricante de adesivos e selantes, e a Tekbond, de colas e adesivos, ambas na Grande São Paulo. Elas eram fornecedoras da rede de materiais de construção Telhanorte, da Saint Gobain, e, segundo fontes do mercado, estavam em dificuldades financeiras. A terceira aquisição foi da Tumelero, rede de materiais de construção do Sul do País.

A alemã ThyssenKrupp, com 11 fábricas, adotou estratégia oposta e vendeu para o grupo Ternium a Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA), do Rio de Janeiro. Com o ¤ 1,5 bilhão da venda (cerca de R$ 5,6 bilhões), vai investir em novas tecnologias e na produção local de sistemas de direção elétrica para veículos, hoje importados e vendidos a clientes como BMW e Mercedes-Benz.

O presidente da Divisão Steering (direção), Daniel Alves da Rosa, informa que a empresa vai diminuir a atuação nos segmentos de matéria-prima “e focar mais na área de alta tecnologia”.

Ganhos. Gollo acredita que o movimento de compra e venda de empresas vai manter a recuperação até o fim do ano e tende a melhorar ainda mais em 2018. Para ele, porém, ainda deve levar algum tempo para que se alcançar os patamares do período pré-crise, com números na casa das 290 transações. 

Estudo do Boston Consulting Group (BCG) mostra que empresas que passaram por processos de fusões e aquisições nos últimos 20 anos no Brasil tiveram crescimento maior de receita e melhores resultados em relação àquelas que focaram em crescimento orgânico. 

“Essas empresas capturaram ganhos em escalas que demorariam anos para conseguir só com crescimento orgânico, adotaram melhores práticas e aumentaram portfólio”, diz o gerente de projeto do BCG, Marcus Ayres. O processo, diz ele, “é uma ferramenta para turbinar o crescimento, a inovação e a eficiência na estrutura de custos”.

Corrupção. l Parte da alta do movimento de aquisições de empresas no Brasil se deve à necessidade de grupos envolvidos em denúncias de corrupção, como as da Lava Jato, se desfazerem de ativos. “Essas empresas ficaram sem crédito, sem condições de renegociar dívidas, perderam clientes e precisavam de capital de giro”, diz Leandro Almeida, professor da área de finanças e negociação da FGV e sócio da empresa Lynce Group.

Exemplos são a venda da Alpargatas, da J&F, para a Itaúsa e a Cambuhy, por R$ 3,5 bilhões, e da fatia da Odebrecht Transport no Aeroporto do Galeão para o grupo chinês HNA Infrastructure.

Grupos da China, aliás, estão presentes em boa parte dos negócios de compra de ativos brasileiros. “A China tem estratégia voltada para infraestrutura de entrar em cada elo da cadeia de modo sequencial”, afirma Marcus Ayres, do BCG.

Das 240 aquisições feitas até agosto, 55% foram por grupos nacionais, participação que, segundo analistas, deve ser revertida em favor de investimentos estrangeiros até o fim do ano.

Os preços das empresas brasileiras, que se depreciaram em relação ao resto do mundo, tendem a se acomodar. “A conjuntura já está precificada”, diz Almeida.

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