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Aposta do mercado em alta do dólar dá lucro de R$ 20,1 bilhões ao BC

Victor Martins - O Estado de S.Paulo

19 Agosto 2014 | 05h 00

Com incertezas em relação à economia, empresas e bancos fizeram operações de hedge para se proteger de uma eventual valorização da moeda americana, que afetaria as dívidas; como a moeda não se valorizou, o BC acabou ganhando com as operações

A fatura para o mercado bancar a proteção contra uma possível disparada do dólar chegou a R$ 20,17 bilhões no acumulado do ano até junho, valor contabilizado como lucro em favor do Banco Central. Esse é o valor que empresas e investidores tiveram de desembolsar em operações de proteção contra a variação do dólar, o chamado hedge cambial, feitas por meio dos contratos de swap do BC.

Na prática, essas operações ampliam a oferta de dólar no mercado, o que ajuda a definir a cotação da moeda. Quanto mais operações o BC faz, maior a pressão para baixar a cotação do dólar. Em sua política de “ração diária”, o BC oferece e retira dólares do mercado.

O valor inclui tanto a liquidação das operações quanto o pagamento de juros que precisa ser feito mensalmente nas operações. O lucro, que está registrado no relatório fiscal do Banco Central, é recorde. Nunca antes a autoridade monetária obteve um ganho tão elevado com essas operações de hedge.

O economista-chefe da Gradual Investimentos, André Perfeito, descreve esse cenário como “dolarização” da economia. “Nunca pensei que tivesse de usar essa palavra, mas o mercado está se dolarizando. O clima é de derrotismo. O mercado procura se defender fugindo para o dólar”, diz. “No entanto, eu não compartilho de todo esse pessimismo. Acho que é uma aposta equivocada.”

A “dolarização” do mercado se configura quando há compra de dólar por investidores motivada pela expectativa de elevação da moeda no futuro.

Até agora, o BC colocou no mercado US$ 91 bilhões em hedge, volume que, avalia-se, pode chegar a US$ 110 bilhões até o fim de 2014. Toda essa preocupação e o aumento da oferta de hedge pelo governo tem base no endividamento em moeda estrangeira.

A dívida de curto prazo dos bancos, aquela com até um ano de vencimento, está em US$ 39,230 bilhões, segundo o BC. Nas empresas, o volume soma US$ 401 milhões. Os empréstimos entre empresas já bateram em US$ 193,550 bilhões em junho - do início do governo Dilma Rousseff para cá, essa dívida cresceu 82,74%. “Esses empréstimos não necessariamente se convertem em investimento produtivo”, explica Mauro Schneider, economista-chefe da CGD Securities.

O Banco Central garante, porém, que não faltará proteção e afirma também que o endividamento externo não preocupa. O diretor de Política Econômica do BC, Carlos Hamilton Araújo, disse, na última sexta-feira, que o endividamento externo das empresas brasileiras permanece pequeno e que os indicadores de capacidade de pagamento indicam solidez das “firmas não financeiras”. 

No entanto, diante das incertezas, principalmente no cenário político, as empresas têm preferido não se arriscar. O grupo de alimentos JBS, por exemplo, informou que manterá sua política de hedge cambial. O alto custo de carregamento do hedge foi, segundo a própria companhia, um dos principais responsáveis pela queda de 24,9% no lucro líquido no segundo trimestre. No período, o custo da operação foi de, aproximadamente, R$ 350 milhões. De abril a junho, o resultado financeiro líquido da companhia ficou negativo em R$ 1,807 bilhão - 64,9% acima de igual período de 2013.

“Neste momento de incertezas no lado político, a melhor estratégia da companhia é não estar exposto ao dólar”, declarou o presidente global da companhia, Wesley Batista, em teleconferência com analistas e investidores na última sexta-feira. Outra empresa que também está pagando caro pela proteção é a Gol, que reconheceu perda contábil de R$ 40,1 milhões nas operações de hedge. Apenas com câmbio, a perda foi de R$ 29,3 milhões; com juros, foram mais R$ 21,5 milhões.

Incertezas. As incertezas em relação à economia americana também influenciam as operações. A retomada da atividade nos EUA, embora positiva no cenário internacional, pode ter um efeito colateral desvantajoso para o Brasil, com migração de capital para lá. Com a esperada elevação de juros naquele país, aumenta a perspectiva de alta do dólar aqui. Somada a isso, uma eventual deterioração do cenário doméstico, com quadro de baixo crescimento e inflação alta, estimula ainda mais a busca por proteção cambial.

Para Sidnei Nehme, economista e sócio-diretor da NGO Corretora, o Banco Central espera que, com a retomada da economia, em algum momento, os fluxos de capitais estrangeiros para o Brasil sejam reforçados e, com isso, a autoridade monetária poderia retirar gradualmente os swaps oferecidos. “A fragilidade da economia no Japão e na Europa dá um pouco mais de prazo para o capital permanecer no Brasil. Mas, depois das eleições e com a recuperação dos EUA, deve haver uma saída maior de recursos.”

José Roberto Carreira, economista da Fair Corretora, explicou que os bancos pegam os contratos de swap e repassam no mercado. Como intermediadores entre os Banco Central e as empresas e investidores, ficam com o spread da operação. “É caro fazer esse hedge e os bancos não querem ficar com esses swaps. Eles repassam para a frente.”

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