Michael Conroy/AP
Michael Conroy/AP

Aproveitando tudo que as vaquinhas dão

Os vários negócios de um dos maiores laticínios dos EUA

The Economist

10 Setembro 2015 | 11h28

Primeiro despontam as patas dianteiras do bezerrinho. Com o esforço estoico que sua mãe faz e o aumento no ritmo das contrações, elas desaparecem de vista novamente. Então surge a cabeça e em seguida os ombros, que formam a parte mais larga corpo do recém-nascido e cuja saída constitui o momento de maior desconforto para a mamãe-vaca. Os visitantes acompanham o nascimento, que em geral dura uma hora, numa galeria, observando tudo através de um painel de vidro que vai do teto ao chão. Do lado de fora do estábulo-maternidade, um semáforo indica quando está para ter início um novo parto (amarelo aceso quer dizer: “patas aparecendo”).

Todos os dias, um rebanho de aproximadamente 36 mil vacas dá à luz entre 80 e 100 bezerros nas 11 fazendas em que se dividem os 14 mil hectares das Fair Oaks Farms, uma das maiores e mais modernas operações de laticínios dos Estados Unidos. A propriedade abriga também o único parque temático do segmento (embora muitas outras fazendas estejam abertas à visitação do público). Sua sala de ordenha atrai mais de 400 mil visitantes por ano. Do alto de uma sacada, eles observam as vacas entrar num carrossel que gira em câmera lenta para ordenhá-las três vezes ao dia. Depois os expectadores excursionam por estábulos e currais num ônibus cuja pintura imita as manchas pretas e brancas de uma vaca holandesa. As crianças podem trepar numa parede magnética apelidada de “Escalada do Cálcio”, alcançar “alturas úberes” numa garrafa de leite de 7,5 metros de altura, ordenhar uma vaca-robô e assistir à fabricação de 12 variedades de queijos e sorvetes.

Os executivos que comandam a Fair Oaks Farms, convenientemente instalada às margens de uma rodovia interestadual que liga Chicago a Indianapolis, têm planos ambiciosos para o futuro. Há pouco tempo se juntaram à Coca-Cola e abriram uma empresa chamada Fairlife, com o objetivo de produzir bebidas derivadas de leite que, segundo eles, contêm mais cálcio e proteínas do que o leite comum (e também menos açúcar e nenhuma lactose). “Também queremos elevar o aproveitamento do estrume a um novo patamar” diz Mike McCloskey, um dos proprietários do mega laticínio.

A Fair Oaks Farms reutiliza tudo que encontra pela frente. Três vezes por dia, enquanto as vacas estão sendo ordenhadas, o estrume é aspirado nos estábulos, sendo em seguida transportado para um biodigestor, onde permanece por 21 dias - período em que as bactérias anaeróbicas põem mãos a obra para produzir gás metano, que então é usado na geração de eletricidade ou como combustível. A energia gerada abastece todas as instalações da propriedade e o excedente é vendido à rede elétrica. O gás que sobra é comprimido e abastece a frota de 42 caminhões com que o laticínio distribui leite por todo o Meio Oeste dos EUA, chegando até o Tennessee. Com a utilização do gás natural comprimido, a Fair Oaks Farms passou a economizar os 7,5 milhões de litros de óleo diesel que seus caminhões consumiam anualmente.

Ao sair do biodigestor, o estrume passa por peneiras que recolhem as fibras longas que serão usadas para fertilizar o solo da fazenda. Como a água filtrada ainda contém muitos elementos químicos nutritivos, ela é canalizada para um sistema de recuperação de nutrientes, que retira 80% do fósforo e 75% do nitrogênio orgânico, os quais, por sua vez, são comprimidos e transformados em matéria seca e reutilizados na fazenda. A água que sai do sistema de recuperação poderia ser usada na irrigação, diz McCloskey, que atualmente vem dando tratos à bola para encontrar uma utilização para esse líquido de cor barrenta. Uma ideia é usar lentilha-d’água para absorver os resíduos de nitrogênio e fósforo e tornar a água potável. A erva aquática poderia então ser usada como alimento rico em proteínas para as vacas.

Nos Estados Unidos, as fazendas de gado leiteiro veem a escassez de mão de obra como seu maior desafio. “É muito difícil encontrar pessoas dispostas a trabalhar com gado de leite”, diz Paul Rovey, que administra uma propriedade familiar, com 2 mil cabeças, no Arizona. É trabalho duro todos os dias do ano, chova ou faça sol, em locais marcados por odores penetrantes. “Como sou um pouco racista, não contrato gringos”, brinca McCloskey, que fala espanhol com fluência graças à mãe porto-riquenha. Os empregados da Fair Oaks Farms são todos hispânicos.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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