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As 'cinco empresas mais temidas' vão dominar o futuro da alta tecnologia

Como Amazon, Apple, Facebook, Google e Microsoft percorreram o caminho para dominar absolutamente tudo que acontece no mundo digital

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Farhad Manjoo,
The New York Times

03 Fevereiro 2016 | 17h34

Existe um joguinho que o pessoal do Vale do Silício curte jogar. A gente pode chamá-lo de: Adivinha Quem Está Perdendo?

Atualmente, existem quatro líderes isolados no setor de tecnologias para o consumidor: Amazon, Apple, Facebook e Google, que agora é uma das unidades de uma empresa controladora chamada Alphabet. E tem outra, a Microsoft, cuja influência parecia estar prestes a desaparecer, mas que ganha fôlego novo a cada dia.

Portanto, qual dessas cinco está perdendo? Há um ano, era o Google que aparentava estar em maus lençóis, já que seus negócios pareciam vulneráveis com a ascensão do Facebook. Agora, o Google segue sua trajetória ascendente e é a Apple, atingida em cheio pela preocupação com a queda na venda de iPhones, que parece estar em um caminho ruim. À medida que essas empresas publicam relatórios de faturamento que mostram como terminaram 2015, a situação do jogo vai mudar novamente.

Mas não adianta esperar que muita coisa mude. Quem pergunta "Adivinha quem está perdendo?" perde de vista a verdade sobre como Amazon, Apple, Facebook, Google e Microsoft se tornaram as donas de absolutamente tudo que acontece no mundo da tecnologia.

Afinal, quem é que está perdendo? No cômputo geral, nenhuma dessas empresas.

As empresas de tecnologia gostam de imaginar que o setor seja um oceano de transformações, no qual todos os vencedores estão vulneráveis aos ataques-surpresa de um concorrente novo e inimaginável. "Alguém em alguma garagem tem uma arma apontada para nossa cabeça", é uma frase que Eric Schmidt, o diretor executivo da Alphabet, gosta muito de dizer.

Mas durante boa parte dos últimos cinco anos, esses cinco gigantes passaram por momentos de impressionante calmaria, longe do perigo do bicho-papão das garagens. E pode apostar que eles vão continuar a ganhar. É por isso que vou chamá-las de "As Cinco Temidas".

Não é só porque sou fã do Tarantino, mas porque, sob qualquer aspecto mensurável, essas cinco empresas norte-americanas de tecnologia para o consumidor estão com as garras cada vez mais cravadas em seus setores específicos, cada vez mais poderosas em novos setores e mais isoladas contra a concorrência surpresa de empresas novas.

Embora a concorrência entre as cinco continue grande - e a cada ano, algumas delas parecem estar meio para baixo -, tornou-se cada vez mais difícil imaginar como qualquer uma delas (e muito menos duas ou três) poderia perder força em qualquer aspecto dos negócios e da sociedade norte-americana.

"As Cinco Grandes surgiram em um momento perfeito para dominar a base de usuários. Elas souberam surfar na onda da mudança tecnológica - a queda brutal no preço das tecnologias da informação, um aumento brusco na conectividade e o surgimento dos aparelhos móveis inteligentes. Essas três coisas vieram juntas e as Cinco Grandes estavam lá, perfeitamente posicionadas para crescer e tirar vantagem dessa mudança", afirmou Geoffrey G. Parker, professor de Administração da Universidade de Tulane.

Parker destaca que o poder das Cinco Grandes não impossibilita que novas empresas cresçam. O Uber pode virar de cabeça para baixo o setor de transporte individual, o Airbnb promete fazer o mesmo com o setor de hospitalidade, e a Netflix pode muito bem tomar conta de todo o setor de entretenimento. Mas se esses novos gigantes realmente se consolidarem, provavelmente vão se juntar às Cinco Grandes, não substituí-las.

Na verdade, as Cinco Temidas estão tão bem protegidas contra as startups que na maioria das situações, a ascensão de novas empresas apenas solidifica sua liderança.

Imagine que a Netflix coloque seus filmes em uma nuvem da Amazon e que o setor de capital de risco do Google esteja investindo pesado no Uber. Imagine todos os pagamentos feitos pelos aplicativos móveis das app stores da Apple e do Google, ou todo o dinheiro de marketing que o Google e o Facebook recebem de startups que querem ser vistas pelos usuários.

É isso que torna as Cinco Temidas indomáveis. Cada uma delas criou enormes tecnologias que são centrais para tudo o que as pessoas fazem com os computadores. No jargão tecnológico, elas são donas das mais valiosas "plataformas" do mundo - os blocos de construção básicos de que todas as empresas, inclusive as possíveis concorrentes, dependem para existir.

Essas plataformas são inescapáveis; você pode até se negar a usar uma ou duas delas, mas juntas formam uma espécie de guilda que toma conta de toda a economia.

As cinco grandes plataformas vão desde velhas tecnologias - o Windows ainda é o rei dos computadores de mesa, o Google é o dono das ferramentas de busca - até as mais novas, com Google e Apple controlando os sistemas operacionais de aparelhos móveis e os aplicativos que funcionam neles; Facebook e Google controlando o setor de marketing na internet; e Amazon, Microsoft e Google controlando a infraestrutura de computação na nuvem da qual muitas startups dependem.

A Amazon possui uma infraestrutura de compras e envio de produtos que está se tornando fundamental para o comércio varejista, ao passo que o Facebook continua a conquistar cada vez mais poder na mais fundamental das plataformas: os relacionamentos sociais humanos.

Muitas dessas plataformas geram o que os economistas chamam de "efeito de rede" - à medida que mais pessoas as utilizam, elas se tornam mais indispensáveis. Por que você bate papo pelo Facebook Messenger ou pelo WhatsApp, que também pertence ao Facebook? Porque todo mundo está lá.

É verdade que é possível apresentar ameaças significativas para essas cinco gigantes. Uma delas é o crescimento da concorrência internacional, especialmente as fabricantes de hardware e as empresas de software da China que estão criando plataformas igualmente importantes. Além disso, existe a ameaça da regulamentação e de outras formas de intervenção governamental. As agências regulatórias europeias já estão na cola das Cinco Temidas, sob a égide das leis antitruste e de preservação da privacidade dos usuários.

Mas mesmo com essas dificuldades, ainda não se sabe se a dinâmica como um todo pode mudar tanto assim. Imaginemos que o Alibaba, a gigante chinesa do e-commerce, supere a Amazon no mercado varejista na Índia - tudo bem, a Amazon certamente ficará satisfeita com o resto do planeta.

A intervenção governamental muitas vezes limita um gigante em favor de outro: se a Comissão Europeia decidir combater o Android com base em leis antitruste, a Apple e a Microsoft podem se beneficiar. Quando o Departamento de Justiça dos EUA processou a Apple por orquestrar uma conspiração para elevar o preço dos e-books, quem é que se deu bem? A Amazon.

Quem é que está perdendo, afinal? No futuro próximo, certamente nenhuma delas.

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