AFP PHOTO / Eitan ABRAMOVICH
AFP PHOTO / Eitan ABRAMOVICH

As dificuldades da Argentina vão se propagar?

País tem muito mais em comum com os mercados emergentes de ontem e muito pouco com os de hoje

The Economist

11 Maio 2018 | 04h00

Déficits no limite, uma inflação obstinada, a moeda despencando, os juros disparando, reservas encolhendo, e um humilde apelo ao Fundo Monetário Internacional (FMI). 

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A Argentina parece atravessar uma crise clássica dos mercados emergentes que culminou na decisão do governo esta semana de pedir por precaução um empréstimo ao FMI – instituição que teme a Argentina tanto quanto é temida por ela.

O país não está repetindo a própria história cravada de crises. Hoje, o país tem um governo reformista com a intenção de fazer a coisa certa, ao contrário de governos populistas que arruinaram seu passado recente. Mas as dificuldades são reais. Muitas pessoas se perguntam se a crise vai se propagar para outros mercados emergentes. Diversas economias compartilham de algumas das suas vulnerabilidades. Felizmente, poucas sofrem com todas.

O índice de inflação na Argentina, que superou os 25%, parece pertencer a um mundo perdido. Somente no Egito, na Nigéria e na Turquia (entre as economias mais destacadas; a Venezuela está num planeta diferente), a inflação é de dois dígitos. Hoje a inflação está abaixo da meta do governo no Brasil, na China e na Rússia (entre outros países) e muito abaixo na Tailândia. As autoridades monetárias desses países já venceram a batalha pela estabilidade que a Argentina ainda está travando.

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Em várias economias emergentes, incluindo Brasil, Egito e Índia, as finanças do governo estão piores que na Argentina. Projeções apontam que o déficit fiscal do Brasil deve exceder os 8% do Produto Interno Bruto (PIB) este ano, segundo o FMI, em comparação com um déficit global de 5,5% no caso argentino. Mas, mesmo que os governos desses outros países gastem muito além dos seus recursos, seus setores privados vêm se saindo melhor. Por essa razão, seus enormes déficits fiscais não se traduzem em grandes déficits de conta corrente com o resto do mundo.

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E, embora muitos mercados emergentes tenham dívidas pesadas, eles não têm a necessidade que tem a Argentina agora de tomar empréstimos em moedas de outros países. O equivalente a 64% da dívida corporativa e governamental da Argentina é denominada em dólar e em outras moedas estrangeiras, segundo o Instituto de Finanças Internacional. Entre os grandes mercados emergentes, somente a Turquia se compara à Argentina, com 56%. No caso da Tailândia, essa porcentagem é de 17% e, no Brasil, apenas 16%.

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Inflação baixa, déficits de conta corrente modestos e uma dívida em moeda estrangeira limitada distinguem muitos dos mercados emergentes atuais do peso argentino. Todas as economias emergentes, mesmo a maior delas, ainda precisam observar o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), os rendimentos dos títulos americanos, que vêm crescendo, e o fortalecimento do dólar com inquietação. Em muitos casos, seus juros de longo prazo são sensíveis ao Banco Central americano tanto quanto à própria instituição.

Mas essas novas virtudes dão às economias emergentes mais espaço de manobra. Elas podem reduzir os próprios juros se os custos de tomada de empréstimos subirem demais. E se houver uma fuga de capital podem desvalorizar sua moeda sem que a economia venha a cambalear. Isso porque elas não têm de se preocupar que um aumento excepcional dos preços das importações se traduza em uma inflação mais alta ou que um câmbio mais fragilizado impossibilite o pagamento do serviço da dívida em dólar. 

Mas, na sua luta com a inflação, os déficits, a dívida em dólar e a desvalorização da moeda, a economia da Argentina se assemelha muito a um mercado emergente clássico, mais do que muitas economias que ainda portam esse rótulo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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