Assine o Estadão
assine

Economia

José Roberto Mendonça de Barros

As lições da queda das commodities

O mundo viveu um dos piores inícios de ano dos últimos tempos. As dúvidas mais importantes estão centradas na economia chinesa e nos efeitos da mudança ocorrida em dezembro na política monetária americana.

0

José Roberto Mendonça de Barros

24 Janeiro 2016 | 03h03

 

Uma das visíveis consequências dessa situação foi uma forte queda no preço das commodities, medidas em dólares. O tombo realmente foi grande. Desde o início do ano até o dia 20, quando este artigo foi escrito, o índice Bloomberg para energia caiu 20%, o índice de metais, 6%, e o índice de produtos agrícolas, 1%. Desde o início de 2015, as quedas foram, respectivamente, de 59%, 33% e 17%.

Como consequência, a situação econômica dos países mais dependentes desses produtos piorou acentuadamente. Neste contexto, Rússia, África do Sul e Brasil disputam arduamente os últimos lugares da fila do crescimento em 2016.

Para o nosso País é bastante importante avaliar as implicações e lições desse movimento. A mais importante é que o Brasil não aproveitou adequadamente o período áureo da alta de preços de mercadorias para avançar e consolidar mudanças que garantam o crescimento. Ao contrário, o projeto político do grupo no poder desperdiçou no estímulo ao consumo o adicional de recursos amealhados, sem promover mudanças estruturais que garantissem o crescimento da produtividade ao longo do tempo. Daí a gigantesca crise na qual vivemos. 

Entretanto, para tirarmos as lições adequadas, é preciso também responder à seguinte questão: os efeitos da derrocada das commodities são semelhantes entre os diversos tipos de produtos? A resposta é: certamente que não. Vale a pena, portanto, perguntar quais são as principais implicações setoriais. 

Falaremos hoje do petróleo, deixando para o próximo artigo os metais e produtos agrícolas.

O pior caso é, certamente, o do petróleo. Inebriado pela descoberta de grandes reservas no chamado pré-sal, o governo montou um programa de exploração complexo, megalômano e inconsistente, onde se buscava produzir com muita rapidez grandes volumes de óleo, numa região difícil, o que implicava no maior programa de investimentos do mundo. Além disso, a Petrobrás teria de ser a operadora única dos novos campos, devendo participar com pelo menos 30% do capital de cada projeto. Ademais, para estimular a indústria nacional, criou-se a obrigação de que os novos equipamentos utilizados na exploração e desenvolvimento da produção tivessem pelo menos 65% de conteúdo nacional (o que elevava, em muito, o custo dos investimentos, embora tivesse o potencial de alavancar a indústria nacional). Não bastasse tudo isso, o governo empurrou a empresa para projetos mal feitos e caríssimos. Por exemplo, o custo da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, se aproxima de US$ 20 bilhões, mais de TRÊS vezes o padrão mundial!!! Finalmente, a utilização do virtual congelamento de preços e derivados, visando o controle da inflação, tirou de R$ 50 bilhões a R$ 60 bilhões do fluxo de caixa da empresa. Como resultado, e antes da grande queda atual do preço do petróleo, a Petrobrás foi obrigada a tomar mais de US$ 100 bilhões de dívida. Com a queda dos preços do óleo, a geração de caixa da empresa caiu de forma inacreditável. Em paralelo, o grupo no poder começou a utilizar a companhia como veículo de um esquema de corrupção sem precedentes e que vem sendo desvendado pela Operação Lava Jato.

 

Essa monumental cadeia de equívocos levou às seguintes consequências:

1) A empresa não tem geração de caixa para sustentar os projetos de investimento e rolar o endividamento. Dada a dimensão do problema, a venda de alguns ativos (se ocorrer) não vai mudar, estruturalmente, a questão.

2) Logo, o programa de expansão tem de ser cortado drasticamente. A meta inicial de 4 milhões a 5 milhões de barris/dia de produção, em 2020, está sendo drasticamente revisada, e o melhor que se pode esperar é chegar a algo próximo a 2,5 milhões de b/d naquela data.

 

3) Ainda assim, e mesmo ganhando dinheiro com a venda no mercado interno de derivados importados a baixo custo, é altamente provável que o Tesouro Nacional, que não tem dinheiro, seja obrigado a fazer uma capitalização da companhia.

4) A destruição do valor da empresa é sem precedentes. O País, os acionistas e trabalhadores perderão muito. A cadeia de fornecedores está sendo dizimada. Produtores de máquinas, estaleiros e uma miríade de subcontratados estão encolhendo drasticamente e muitos desaparecerão. A Sete Brasil, empresa criada para contratar e alugar plataformas e navios para a Petrobrás, tem R$ 8 bilhões de capital, R$ 19 bilhões de dívida e está à beira do colapso, com a redução das encomendas. 

5) A taxa de investimento do País se reduziu, uma vez que a Petrobrás representava algo como 10% de todas as inversões do Brasil.

 

Como o preço do petróleo não tem a menor perspectiva de voltar para a faixa de US$ 80 a US$ 100 por barril (a demanda mundial está encolhendo, por unidade de PIB, e a oferta é cada vez mais ampla), ainda veremos pelo menos por mais dois anos o maior “espetáculo de destruição de valor neste País”. 

Pusemos fogo, por megalomania associada à corrupção, no bilhete de loteria premiado. A maldição do petróleo é mesmo forte.

* * * * *

A economia brasileira desandou mesmo em 2015. Os números de emprego, inflação, PIB, crescimento industrial e resultado das contas públicas são horríveis. O ano se abre com uma perspectiva igualmente ruim, inclusive pelo difícil cenário global. 

A tentativa do novo Ministro da Fazenda de conciliar o ajuste econômico com a pauta do PT não vai, evidentemente, funcionar. O Banco Central queimou o remanescente de credibilidade que ainda tinha com alguns agentes. Nunca vimos tantas empresas com tão grandes dificuldades financeiras. 

Pergunta-se: o País aguenta mais três anos do tipo 2015? 

publicidade

Comentários