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As lições da queda das commodities (2)

No último artigo, começamos a discutir os efeitos sobre o Brasil da queda dos preços internacionais das commodities.

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José Roberto Mendonça de Barros

07 Fevereiro 2016 | 03h00

Mostramos que, no caso do petróleo, uma política megalômana e a corrupção arrebentaram a Petrobrás, comprometendo seu futuro. Os preços baixos de hoje só completaram o serviço de destruição de valor. A empresa nunca mais será a mesma e não terá grande protagonismo quando a economia brasileira se recuperar. Isso porque as agruras financeiras atuais estão levando a venda de ativos julgados fora da área “core” da companhia, que deverá afetar a distribuição de gás, fertilizantes, etanol etc. Mais importante, a produção não deverá crescer muito até 2020, evoluindo dos atuais 2,1 milhões de barris para algo como 2,5 milhões, como consequência do profundo corte de investimentos no desenvolvimento de novos campos e da natural redução da produção nos campos antigos.

O segundo grupo de produtos a considerar é o de minérios e metais, entre os quais os grandes destaques são o ferro e a siderurgia. Aqui, o efeito da economia chinesa tem sido decisivo, em dois aspectos: a desaceleração do crescimento reduz naturalmente a demanda por aço. Além disso, a nova estratégia chinesa está baseada na expansão do consumo interno e do setor de serviços, ao invés das exportações e dos investimentos em infraestrutura e habitação. O resultado é a sobra de enorme capacidade ociosa na siderurgia chinesa, o que derruba as cotações do minério e pressiona o mercado internacional do metal, pela tentativa de elevar as exportações. Adicionalmente, a agressiva estratégia de expansão da capacidade de produção de minério pelas três grandes (BHP, Rio Tinto e Vale), sem a esperada redução na produção das minas chinesas, trouxe os preços, que no auge atingiram US$ 150, para a faixa atual dos US$ 45. Daí a crise no setor.

O pior é que não se antevê melhora nesse quadro. A China continuará na trilha da desaceleração do crescimento ao mesmo tempo em que não há a menor indicação de que a prioridade para o consumo interno e os serviços seja alterada. Além disso, o progresso tecnológico está reduzindo o consumo de aço em algumas áreas fundamentais, como a automotiva. O crescente uso de plásticos e outros materiais compostos nos veículos é algo que vai continuar.

Estima-se que nos anos 90 um carro consumia em média 830 quilos de aço, número que se reduziu para a faixa dos 500 quilos na primeira década do novo século. É claro que a situação pode ser mitigada por maior produtividade na cadeia minério/metal (como a nova mina da Vale no Norte do País), por inovações e/ou pela fabricação de produtos de maior valor agregado, mas tudo indica que a tendência de menor consumo de aço por unidade de PIB é inevitável, até porque, o setor de serviços de valor (pesquisa, desenvolvimento de projetos e plataformas integradas, marketing, TI, nuvem, serviços de gestão, comércio eletrônico e outros) continuará a se elevar como participação na economia.

O último grupo relevante é o de produtos agrícolas. Aqui também a queda de preços tem sido expressiva. O índice da Bloomberg caiu 25% nos últimos dois anos. Parte desta queda deriva da valorização do dólar (22% em 2014 e 2015) frente aos principais parceiros comerciais dos EUA. Outra parte decorre da recuperação de estoques globais.

Entretanto, no caso dos alimentos existem três peculiaridades em relação aos outros grupos de commodities, que tornam diferentes os impactos sobre o Brasil. São elas:

1. A demanda da China não parou de subir. Como a renda média do país é ainda baixa, é natural que a procura por mais e melhores alimentos continue se ampliando, mesmo com o PIB crescendo mais lentamente.

2. Os chineses decidiram elevar a proporção das importações na oferta de alimentos para o mercado interno. Existem duas razões para tanto: o aumento da produção agrícola local tem sido cada vez mais dificultado pela escassez de água (em grande parte poluída). Ao mesmo tempo, também as terras de boa qualidade não são abundantes, o que exigiria grandes esforços de intensificação da produção. Finalmente, a comida na China não é barata (por exemplo, o preço local do milho é três vezes maior que o internacional). Assim, a importação em maior escala permitiria reduzir o custo da comida, abrindo espaço nos orçamentos familiares para maiores compras de bens industriais de consumo, reforçando o mercado interno. A China vai elevar as importações de milho, de proteína animal, de açúcar e outros bens.

Observo que este movimento de barateamento da comida ocorreu no Brasil desde meados da década dos anos setenta, como consequência das melhorias técnicas e elevação de produtividade, ampliando o poder de compra dos salários em termos de bens industriais, algo pouco reconhecido por boa parte de nossos urbanos economistas.

3. No Brasil, a mudança tecnológica e a elevação de produtividade continuaram a avançar, bem como o volume de produção. Por exemplo, a produção de grãos atingiu 182 milhões de toneladas em 2013; para este ano esperam-se 204 milhões.

A desvalorização do real completa o quadro. Com ela, os preços em reais recebidos pelos agricultores sobem e as margens se mantêm ou aumentam, mesmo quando se desconta a elevação do preço de alguns insumos. É por isso que o agronegócio (embora tenha seus problemas) é o único setor importante da economia brasileira a crescer neste mundo turbulento.

Este desempenho não é casual. Como colocaram Zander Navarro e Eliseu Alves em importante artigo publicado neste jornal recentemente (24/1/2016), “o ganho mais expressivo foi a constituição de um setor movido pela ciência, o que torna infantis as usuais condenações de ‘primarização da economia’, pois se formou um sólido setor agroindustrial em torno da produção. Se não fosse assim, a agricultura não ostentaria seus altíssimos índices de produtividade”.

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