Até onde vai a resistência da economia?

O que acontecerá com as reformas e com os projetos de infraestrutura?

José Roberto Mendonça de Barros, O Estado de S. Paulo

11 Junho 2017 | 05h00

Como todos sabem, o cenário mudou muito depois da delação premiada dos irmãos Batista e, naturalmente, foi para pior. A incerteza política subiu e a governabilidade caiu muito, qualquer que seja o desenlace do governo Temer. Se Temer continuar, será muito, muito fraco. Se for substituído, a transição da transição será difícil. Em qualquer caso, pagaremos um preço.

O preço a ser pago vai depender de quatro respostas: o que acontecerá com a inflação e o juro, com a atividade, com o câmbio e com o resultado fiscal.

Balizadas essas respostas, seguem-se duas outras questões fundamentais: o que acontecerá com as reformas e com os projetos de infraestrutura, único caminho pelo qual os investimentos podem voltar a crescer.

Finalmente, fica a cada dia mais evidente o que se jogará na eleição de 2018. Não acho que será uma disputa entre esquerda e direita (até porque o candidato da esquerda deverá se tornar ficha suja e inelegível), mas entre o atraso e um reformismo que traga de volta o crescimento sustentável.

No que tange à inflação, tenho opinião que ela seguirá baixa (projetamos 3,6% de IPCA), porque sua queda é consistente, não havendo pressões de custos relevantes. Até os preços de serviços estão, finalmente, desacelerando. Inúmeras empresas relatam que a renovação de estoques de produtos e matérias-primas se faz a custos iguais ou inferiores aos da última compra. Além disso, os dissídios serão cada vez menores, convergindo para a inflação. Por exemplo, em maio a construção civil de São Paulo fechou acordo salarial com correção de 3,99%. Em consequência, o BC poderá continuar reduzindo o juro, ainda que mais lentamente.

O câmbio deverá seguir calmo, dado o excesso de dólares na praça. Se a delação da JBS não levou o dólar às alturas, acredito que daí não virá pressão mais permanente.

A atividade, certamente, vai sentir, mas não creio que cairemos na recessão. A agricultura ainda dará uma contribuição no segundo trimestre, num ano de recordes. Tudo indica que a produção de milho ultrapassará, pela primeira vez, a marca de 100 milhões de toneladas, quantidade só conseguida por EUA e China.

Petróleo e mineração seguirão crescendo bem. O setor automotivo vende muito bem para o exterior e os emplacamentos no País superaram os 8,5 mil veículos por dia útil. Muitas outras empresas relatam cenários mais promissores. Finalmente, o resultado fiscal segue sendo apertado e dependente de receitas não recorrentes. Mas não se tem notícias de piora no quadro para o ano.

Entretanto, se o curto prazo exibe alguma resistência, tenho preocupação maior com o que afeta o médio prazo. Em primeiro lugar, os investimentos em infraestrutura ainda estão muito limitados e dependentes do avanço na regulação, como no caso do setor elétrico. A continuidade desse trabalho e da equipe será fundamental.

O segundo ponto tem a ver com as reformas no Congresso. Acredito que, a duras penas, a trabalhista será aprovada. Entretanto, no melhor cenário, a previdenciária ficará mais magra, tudo dependendo do cenário político.

Voltarei a este ponto no fim do mês.

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Não é de hoje que os economistas vêm comentando a semelhança do ideário econômico do PT com o governo militar. Mas há, acredito, outra afinidade ainda mais daninha. Por razões diferentes, tanto as lideranças petistas como as militares passaram, depois da chegada ao poder, a achar que tinham superioridade moral suficiente para comandar o País e colocá-lo no caminho “correto”. Sabemos bem como a coisa terminou em desastre.

Quem viveu tudo isso não tem como não se incomodar quando nota postura semelhante em algum grupo social. Torço para que não seja o caso do corpo de procuradores, um conjunto cujo protagonismo e contribuição à sociedade crescem a cada dia. Digo isso tendo em mente o absurdo acordo de leniência firmado pela PGR com os irmãos Batista, pelo qual ficamos sabendo que, para alguns, o crime compensa.

Desde logo, vamos deixar claro: criticar a procuradoria não significa atacar a Lava Jato. Subscrevo integralmente a defesa da delação premiada feita pelo procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, em artigo recente no Valor Econômico, usando o caso de Marcelo Odebrecht.

É ECONOMISTA E SÓCIO DA MB ASSOCIADOS. ESCREVE QUINZENALMENTE

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