Auto popular saiu da gaveta

A frota de veículos segurada mal atinge 25% do total em circulação no País; o seguro popular teria condições de atrair uma grande parte que ainda não é coberta

Antonio Penteado Mendonça, Impresso

20 Março 2017 | 05h00

Finalmente, com mais de um ano de atraso, parece que o seguro auto popular saiu da gaveta para entrar de frente no mundo real e trazer alívio para as seguradoras de veículos, duramente atingidas pela recessão absurda que se abateu sobre o Brasil e reduziu drasticamente a venda de carros novos.

O auto popular não é, nem será panaceia. Nenhum seguro tem esta capacidade. Mas ele tem tudo para ocupar um espaço importante no mercado. Afinal, um número significativo de veículos atualmente sem seguro, com sua chegada, passa a contar com um produto capaz de lhes dar proteção, por um preço acessível para o proprietário.

A frota de veículos segurada hoje mal atinge 25% do total em circulação pelas ruas brasileiras. É muito pouco. Em teoria, o seguro auto popular teria condições de trazer esta enorme massa de veículos para a proteção do seguro, mas, na prática, não será isso que acontecerá. Boa parte dos veículos mais velhos continuará desprotegida, inclusive sem contratar o DPVAT, porque, ao não pagarem o IPVA, deixam também de pagar o seguro obrigatório.

Coisas da demagogia política nacional, que acaba prejudicando quem não tem nada com isso, como é o caso de milhares de vítimas de acidentes de automóveis que não recebem sequer o seguro obrigatório porque o proprietário do veículo causador do acidente não pagou o seguro. 

É difícil, especialmente neste momento, quando ainda estamos no meio do furacão, dizer quantos veículos serão, de verdade, os futuros segurados do seguro auto popular. 

O potencial é grande e pode agregar mais alguns bilhões de reais ao faturamento das seguradoras que se interessarem pelo produto. Ou seja, pode ser um redutor das perdas potenciais já vislumbradas pelas seguradoras de veículos em função da mudança de hábitos da população.

Carros compartilhados, meios alternativos de transporte, novos modelos de transporte público, Uber etc., são ameaças sérias, que se transformarão em realidade nos próximos anos.

Ainda é cedo para quantificar o impacto que a nova realidade terá para os seguros de veículos, mas o seguro auto popular é uma ferramenta capaz de diluir, pelo menos ao longo da próxima década, parte das perdas decorrentes da redução da frota de veículos novos. 

As regras para o seguro estão definidas. Se são as melhores ou não é outra questão. Como disse Mao-Tsé-Tung, para se andar 10 mil milhas é necessário dar o primeiro passo. Este é o estágio do seguro auto popular. Está chegando no mercado agora. Portanto, não há base estatística, nem comercial para analisar seu desempenho.

Como todo produto novo, ele está sujeito a chuvas e tempestades não previstas, mas que podem impactar o seu futuro para um lado ou para o outro. O setor sabe que existem pontos na regulamentação que precisarão ser modificados, até para evitar problemas desnecessários entre segurados e seguradoras.

Seu lançamento antes destas mudanças serem feitas é uma postura inteligente por parte das seguradoras que decidiram não esperar mais. É mais fácil fazer as correções de rumo em cima da experiência do que da teoria.

Para os corretores de seguros o seguro auto popular também chega numa hora importante. Com a venda de carros novos severamente afetada pela crise, e com o cidadão perdendo o emprego, comercializar os seguros tradicionais de veículos se tornou uma tarefa hercúlea. 

Com suas condições desenhadas para veículos mais antigos, visando suprir o espaço de mercado composto pelos carros com mais de 5 anos de idade, o seguro auto popular deve custar até 30% mais barato do que o seguro tradicional, ou seja, em princípio, é mais fácil de ser comercializado. 

O segredo da redução do preço está na utilização de peças recondicionadas certificadas e peças não originais no reparo dos veículos. 

Resumindo, o seguro auto popular se torna realidade num momento em que o mercado está necessitando de um novo fôlego. Ele é bom para o segurado, interessante para a seguradora e um novo produto para o corretor. Neste negócio ganham todos. 

 

 

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