S&P não quis ser acusada de interferência, caso rebaixasse nota na véspera de eleição

Cenário fiscal ruim e sem perspectiva de melhora ao longo de 2018 e início do primeiro ano do mandato do próximo presidente influenciaram decisão da agência

Adriana Fernandes, O Estado de S. Paulo

11 Janeiro 2018 | 21h10

Primeira agência internacional de classificação de risco a dar e retirar o grau de investimento do Brasil, a Standard&Poor´s preferiu se antecipar e fazer um novo rebaixamento da nota do País agora para não ser acusada mais tarde de influenciar as eleições de outubro deste ano.

Com um cenário fiscal ruim e sem perspectiva de melhora ao longo de 2018 e início do primeiro ano do mandato do próximo presidente, a S&P não quis correr o risco de ser acusada de interferência na campanha eleitoral, caso fosse obrigada a rebaixar o Brasil às vésperas das eleições, favorecendo ou prejudicando os candidatos ao Palácio do Planalto. Não quis pagar para ver, segundo fontes do governo ouvidas pelo Estadão/Broadcast.

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Embora o rebaixamento da S&P estivesse no radar desde o ano passado, o aviso do rebaixamento surpreendeu de fato a equipe econômica, admitem as fontes. Havia uma expectativa de que o resultado melhor das contas públicas em 2017 (com déficit cerca de R$ 40 bilhões inferior), que será anunciado no final deste mês, daria fôlego e mais tempo para o governo administrar o risco de rebaixamento alimentado pelo adiamento para este ano da proposta de reforma da Previdência.

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, chegou em dezembro a fazer uma rodada de conversas com os representantes das três maiores agências para mostrar que houve avanços no campo fiscal e pedir mais tempo ao País.

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Sem votos para aprovar a reforma e com o debate da “flexibilização” da regra de ouro (que proíbe que o governo se financie para pagar gastos correntes, como salários), também adiado em meio à contaminação do jogo eleitoral, a S&P viu o contrário, tornando o rebaixamento inevitável. Com a decisão, o Brasil segue sem o selo de País bom pagador, mas agora três degraus abaixo do grau de investimento, o que encarece os financiamentos externos para empresas brasileiras.

Na avaliação da equipe econômica, segundo fontes, pesou na decisão da agência a resistência do Congresso em aprovar a reforma da Previdência e as medidas fiscais impopulares, como o reajuste dos salários dos servidores, que foi também barrado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Para a S&P, o grupo político do presidente não tem forças para aprovar as reformas e o Legislativo não tem interesse em levá-las adiante. A pressão de gastos em ano eleitoral é outro risco no radar segundo as fontes da área econômica.

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Chamou a atenção que a agência chega a falar na presença de “outsiders” (pessoas de fora do mundo político) no quadro eleitoral de 2018, que evidenciam riscos de aprovação de legislação difíceis no relatório em que explica o as razões do rebaixamento da nota do Brasil.

O governo recebeu a notícia de que o Brasil seria rebaixado pela agência de classificação de risco Standard&Poor´s no final da tarde. Em seguida, o ministro Meirelles chamou toda a equipe de secretários para uma reunião. Como é de praxe, as agências de risco avisam horas antes ao Ministério da Fazenda o resultado da revisão da nota.

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