REUTERS/Ueslei Marcelino
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Azevêdo: 'É mais simples culpar produto importado pelo desaparecimento do emprego'

Para diretor-geral da OMC, Roberto Azevêdo, nova revolução tecnológica tem transformado a produção e pode estar por trás do descontentamento de líderes mundiais

Célia Froufe, O Estado de S.Paulo

03 Abril 2018 | 13h26

LISBOA- O diagnóstico de que os impactos negativos sobre economia são gerados fora dos países está errado e, por isso, os "remédios" também têm se mostrado equivocados, na avaliação do Diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azevêdo. Para ele, é a nova revolução tecnológica que tem transformado a atividade e a produção em todo o mundo é que pode estar por trás do descontentamento de alguns líderes políticos, que ainda não se deram conta dessa questão.

"É mais simples culpar o imigrante ou o produto importado pelo desaparecimento do emprego", afirmou nesta terça-feira, 3, durante o VI Fórum Jurídico de Lisboa - Reforma do Estado Social no Contexto da Globalização, realizado pelo Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP) e pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) na capital portuguesa.

A avaliação que se vê hoje é perversa, conforme o diplomata, porque leva ao nascimento de sentimentos nacionalistas e até da xenofobia. "Isso não é em um país, isso está acontecendo no mundo inteiro. Tenho certeza que vocês estão pensando: 'é aquele país", mas não, isso é no mundo inteiro", disse, numa alusão aos Estados Unidos e às ações protecionistas tomadas recentemente pelo presidente norte-americano Donald Trump, sem citar sequer uma vez o país e o nome do republicano. "O diagnóstico está errado, então o remédio está errado. Não é de fora que vem o problema. O problema está dentro de casa e é preciso adaptar as políticas nacionais ao século 21", comentou.

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Para o diretor da OMC, o mundo vive hoje um momento delicado, com tensões comerciais entre grandes economias. Mais uma vez, ele não fez referências diretas, mas a decisão do presidente da maior economia do globo, de sobretaxar importações de aço (em 25%) e de alumínio (10%), tem como foco principal a China, que ocupa hoje a vice-liderança econômica do planeta. "A situação é preocupante porque, provavelmente, estamos vendo apenas começo desses atritos", disse.

Durante a palestra, ele considerou que a escalada desses atritos terá consequências grandes para o mundo e que, por isso, é preciso evitá-la. "Talvez ainda tenhamos tempo para evitar essa escalada, mas, para isso, é preciso que as linhas de comunicação estejam abertas, que haja vontade fidedigna", defendeu. Uma atuação deve ocorrer, de acordo com o diretor, antes que seja desencadeado um "efeito dominó" de difícil reversão em todo o mundo.

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Azevêdo salientou que o sistema mais global de comércio e a OMC foram criados depois da Segunda Guerra com a lógica de promover a economia internacional e a estabilidade política. "Essa lógica contou com sete décadas de cooperação e está sendo questionada hoje, de forma consciente ou não", observou. Por isso, de acordo com ele, é importante responder a ameaças imediatas, mas entender o motivo que tem gerado essas tensões.

Para o diplomata brasileiro, os avanços tecnológicos são inevitáveis e não são uma novidade. "Quando se criou a roda, carregadores perderam a utilidade", ilustrou. A diferença hoje, de acordo com ele, é a velocidade com que as mudanças ocorrem. Azevêdo previu, porém, que a tendência é de maior aceleração. "Não temos que desacelerar ou impedir as mudanças. Elas vão existir. Ser a favor ou contra a globalização é irrelevante. É como ser contra a respirar", comentou.

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O tema também é tratado dentro da OMC, conforme seu principal dirigente. O executivo lembrou que apenas recentemente a instituição passou a tratar, por exemplo, o comércio eletrônico como um de seus temas. A demora em muitos casos, de acordo com ele, é porque as decisões na Organização têm de ser tomadas por consenso. "Na OMC, estamos tentando fortalecer o sistema. Nunca recebemos tanto apoio quanto nos últimos tempos", disse, acrescentando que a instituição não está parada, como dizem alguns críticos.

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