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Azul reduz voos e cede 17 aviões para TAP

Empresa prevê cortar 7% da oferta no País em 2016 e troca voo para EUA por Lisboa

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Marina Gazzoni,
O Estado de S.Paulo

22 Janeiro 2016 | 05h00

A companhia aérea brasileira Azul vai transferir 17 aviões de sua frota para a portuguesa TAP a partir de fevereiro. A decisão faz parte de um processo de redução de voos no Brasil pela Azul, que pretende cortar 7% da sua oferta de passagens aéreas para destinos nacionais neste ano e frequências para os Estados Unidos. As duas empresas aéreas funcionam separadamente, mas ambas são controladas pelo empresário David Neeleman, e estão em processo de integração de rotas.

A Azul vinha com um plano de crescimento expressivo nos últimos anos, mas teve de reverter esse processo em meio à retração da economia brasileira, que derrubou a demanda por passagens aéreas, e ficou com um excedente de frota, atualmente em 140 unidades. “Tínhamos aviões para crescer em 15% a nossa oferta de assentos em 2015, mas, com a crise, aumentamos apenas 4%. Fazendo uma conta de padaria, estamos com um excesso de capacidade de 11% que justifica essa redução na frota”, explica o presidente da Azul, Antonoaldo Neves.

A Azul entregará para a TAP nove jatos da Embraer, seis turboélices da ATR e dois modelos A330, da Airbus. Os jatos e turboélices serão usados pela TAP para fazer voos na Europa, já os A330 reforçarão os voos da empresa para os EUA, apurou o Estado.

Apesar de as duas aéreas terem o mesmo controlador, a operação, segundo Neves, envolveu um processo rigoroso de análise técnica e financeira e foi acompanhada por comitês das duas empresas responsáveis por avaliar operações envolvendo partes relacionadas, já que têm diferentes acionistas minoritários. “O que facilitou a operação foi o fato da manutenção dos aviões da Azul ser feita pela unidade de engenharia da TAP no Brasil. Isso acelerou o processo de transferência dos aviões e foi bom para as duas companhias”, explicou.

Segundo ele, a transação foi uma oportunidade pontual e a TAP e a Azul ainda mantêm planos de frota separados. “Não avaliamos a frota conjuntamente. Não estamos nesse estágio. Um dia podemos chegar.”

A Azul não está sozinha no movimento de redução de frota. As concorrentes Gol e TAM também anunciaram recentemente que vão devolver seus aviões, alugar para empresas estrangeiras ou adiar as entregas previstas diante da crise.

Ajuste na malha. A Azul anunciou em abril de 2014 a compra de sete aviões A330 para voar do Brasil para os EUA. Com a alta do dólar, que tornou mais cara a viagem internacional para os brasileiros, a demanda por essa rota esfriou. Com excesso de oferta, as empresas tiveram de vender passagens abaixo do preço de custo para encher os aviões. “Todo mundo está perdendo dinheiro nos voos para os EUA com a passagem a US$ 300”, disse uma fonte do setor.

Em dezembro passado, a Azul tinha cinco voos diários para os Estados Unidos – Orlando e Miami–, mas reduzirá a frequência para dois voos diários a partir de abril. O voo para Nova York, que deveria ser lançado neste ano, foi para a geladeira.

Em meio ao corte de voos para os Estados Unidos, a empresa transferiu o contrato de leasing de dois A330 para a TAP e vai usar um dos cinco que mantém na frota em um voo de Campinas (Viracopos) para Lisboa. A rota será inaugurada em 4 de maio e terá três frequências semanais. Neves argumenta que a rota para a Europa tem metade dos assentos ocupados por estrangeiros, um volume que é de menos de 15% nos voos para os Estados Unidos, rota em que predominam os brasileiros.

Se para os brasileiros a viagem internacional está mais cara, a desvalorização do real torna o Brasil mais barato para os turistas estrangeiros, equilibrando a demanda de passagens entre Brasil e Europa.

Outra razão da Azul para voar até Lisboa é a possibilidade de distribuir os clientes brasileiros pela Europa por meio de um acordo de compartilhamento de voos (code share) com a TAP. A companhia aérea portuguesa voa para cerca de 80 cidades em 35 países e tem os brasileiros entre seus principais clientes.

As duas empresas fecharam uma parceria após o consórcio Atlantic Gateway, que tem o empresário David Neeleman entre os acionistas, vencer o processo de privatização da TAP. O grupo adquiriu 61% da companhia em junho do ano passado.

Ao mesmo tempo em que são parceiras, as duas empresas vão concorrer diretamente no rota Brasil-Lisboa. A TAP voa para 12 cidades brasileiras, entre elas, Campinas. A TAP não comentou o movimento da Azul.

TAP. Depois de 15 anos de tratativas para privatizar a TAP, a venda da companhia, assinada no ano passado, é questionada pelo atual governo português. O socialista António Costa, que assumiu o cargo de primeiro-ministro do país em novembro do ano passado, alega que o processo de privatização não está concluído e que o Estado pretende reassumir o controle da companhia aérea.

O ministro do Planejamento de Portugal, Pedro Marques, admite que está negociando com o consórcio Atlantic Gateway, que assumiu o controle da empresa em novembro de 2015, uma solução de gestão compartilhada, segundo reportagem publicada ontem pelo jornal Público. 

O ministro diz aceitar que a TAP tenha investidores privados, mas entende que eles deveriam ser acionistas minoritários e o Estado deveria retomar o controle da companhia aérea. Se isso for adiante, a TAP terá de mudar sua configuração societária atual, na qual o grupo privado detém 61% da empresa, o Estado mantém uma fatia de 34% e outros 5% se destinam aos funcionários da companhia.

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