Rafael Arbex/Estadão
Rafael Arbex/Estadão

Bancos estão otimistas com retomada

Executivos de grandes instituições, contudo, adotam cautela para falar em um crescimento mais robusto por conta das incertezas políticas

Mônica Scaramuzzo, O Estado de S. Paulo

12 Agosto 2017 | 18h00

O mercado financeiro adotou um discurso de otimismo para a economia, mas com cautela por causa das incertezas políticas. Mesmo com as dificuldades em aprovar as reformas no Congresso depois da delação dos irmãos Batista, da JBS, os dirigentes dos maiores bancos de investimento dizem que os negócios devem avançar no Brasil.

“No ano passado, os investidores institucionais (bancos, fundos de pensão e gestoras de investimento) diminuíram o apetite por negócios. O cenário era de maior incerteza e a taxa de juros mais alta”, diz Marcelo Noronha, vice-presidente do Bradesco. Entre as opções de aplicação de recursos, estão aportes em crédito corporativo (empréstimo a empresas), que têm maior risco, mas uma taxa de retorno mais atrativa.

O mercado de ações também se tornou alvo de investidores internacionais e locais. “Vimos o investidor de volta ao mercado de capitais. As transações de abertura de capital (IPO) e emissões de ações (follow on) retomaram com força nos últimos meses, após três anos seguidos de movimento fraco. Essas transações se mantiveram firmes mesmo após a crise de maio (com as delações dos irmãos Batista)”, diz Fábio Mourão, responsável pela área de banco de investimento do Credit Suisse. O exemplo bem-sucedido desse tipo de operação foi a abertura de capital do Carrefour, que movimentou quase R$ 5 bilhões.

Em média, as emissões de debêntures (títulos de dívida) movimentam cerca de R$ 100 bilhões por ano no Brasil. No ano passado, recuou a R$ 70 bilhões. Até julho deste ano, atingiu R$ 55 bilhões. O mercado de renda variável, que encerrou 2016 em R$ 11 bilhões, mais que dobrou este ano até julho, totalizando R$ 23 bilhões.

Essa reação positiva demonstra um voto de confiança do mercado na continuidade da agenda de reformas colocada em curso pelo governo. 

Para Eduardo Vassimon, presidente do Itaú BBA e também responsável pelas operações de atacado do Itaú Unibanco, o mercado financeiro, de maneira geral, acredita que não haverá uma mudança radical das diretrizes econômicas em 2018, com a troca de governo. “Ainda temos incertezas sobre ambiente fiscal, que é a principal questão hoje. Fatos recentes mostram que não há clima (político) para se elevar impostos, por exemplo.”

Para Ricardo Lacerda, sócio do banco de investimento BR Partners, apesar da retomada dos investimentos no Brasil, em um cenário estável, de inflação controlada e juros baixos, ainda há uma deterioração do cenário político. 

“Não está claro se o governo Temer terá condições para conseguir dar prosseguimento às reformas, que são consideradas extremamente impopulares, a um ano das novas eleições.” 

As reformas, sobretudo a da Previdência, são prioritárias para os executivos de bancos, independentemente de quem assumir a presidência em 2018. “Embora não haja ainda clareza sobre os futuros candidatos, não vejo os investidores assustados em relação às eleições”, diz Bruno Amaral, executivo responsável por fusões e aquisições do BTG Pactual. Para Hans Lin, gestor de investimento do Bank of America, o investidor aguarda uma recuperação econômica mais robusta para voltar de vez a colocar dinheiro no País.

Marcelo Noronha, vice-presidente do Bradesco: ‘Investidores globais ainda não voltaram’ 

“O País carrega um déficit público colossal, ainda com pouca margem de manobra para fazer uma mudança radical. Considerando os principais indicadores econômicos, vemos um PIB para este ano perto de zero. Para 2018, a previsão é crescer até 2%. Com a taxa de juros no atual patamar e perspectivas de redução no ano que vem, há deslocamento de ativos. Isso naturalmente aquece a economia. Mas, mesmo com a queda da taxa de desemprego, a atividade de consumo ainda está baixa. Minha visão é que há um certo otimismo e uma sensação de que a situação macroeconômica vai melhorar. Se concretizada, vai gerar investimento. Mas isso vai depender da agenda de reformas. Há sinalização boa do mercado de capitais com a Bolsa em alta, a volta dos IPOs (abertura de capital). Já começamos a ver aumento de transações de renda fixa ante o primeiro semestre de 2016. Mas isso não quer dizer que o Brasil resolveu os problemas estruturais. Os investidores globais ainda não voltaram. Começamos a ver a volta de investidores de países emergentes porque há muita liquidez lá fora e eles buscam maior risco. O mercado de crédito, contudo, ainda anda de lado.”

Eduardo Vassimon, presidente do Itaú BBA : ‘A sensação é que o pior já ficou para trás’

“A sensação é que os negócios e a economia estão retomando aos poucos. A demanda por crédito continua fraca porque está relacionada à expectativa de retomada da economia e da confiança. Começou a melhorar, mas está longe de ser exuberante. É exagero dizer que a economia está se descolando da crise política. Com o episódio de maio (delação dos irmãos Batista, donos do JBS), houve uma pausa da retomada para avaliação. Hoje, tem um certo consenso de que a economia vai continuar em recuperação, ainda lenta, independentemente do ambiente político, pelo menos no curto prazo. O que temos visto é a retomada do mercado de capitais, em grande medida porque está ligada a fatores externos, muito favoráveis. O apetite por risco tem maior demanda. Nesse cenário, o Brasil é atraente. Evidentemente, está embutida a expectativa de reformas, embora em menor ritmo. Não há certeza ainda de como será aprovada a reforma da Previdência, mas o mercado acredita que a racionalidade vai imperar em algum momento, sobretudo depois da aprovação da PEC dos gastos. A sensação é que o pior ficou para trás. Apesar dessa crise, não houve estresse das instituições financeiras no País.”

Ricardo Lacerda, sócio do banco de investimentos BR Partners: ‘Ainda há uma deterioração do cenário político’

“Estou entre os mais céticos. Óbvio que há uma recuperação da economia, mas é porque tinha um componente esquizofrênico que era a política econômica da (ex-presidente) Dilma. A atual equipe econômica, na minha opinião, é a melhor que a gente já teve. É inequívoco que os IPOs (abertura de capital) e os investimentos retomaram. Mas essa volta é muito em função do mercado externo, não interno. Há uma deterioração do cenário político e não há luz no fim do túnel. O que se vê é uma estabilização frágil. Precisa consertar o que tem aqui dentro para poder voltar a atrair capital de maneira expressiva como antes. A aposta do atual governo era que só o fato de tirar a Dilma, atribuindo a ela quase que a totalidade dos problemas, seria suficiente para a economia melhorar. O que se mostrou até agora é que a economia não andou o suficiente. O governo, em si, teve a própria crise (delação dos irmãos Batista), que ainda não se resolveu, em um cenário que contaminou todos os partidos. O que ficou claro é que PT, PSDB e PMDB não podem ser necessariamente iguais, mas são igualmente responsáveis pelo buraco que o Brasil se meteu.”

Hans Lin, investimento do Bank of America: ‘Aqui no Brasil é um dia de cada vez’

“O pior da crise já passou, mas ficaram algumas incertezas. Após o impeachment (de Dilma Rousseff), o mercado voltou a ver que o País poderia andar de novo. Os anos de 2015 e 2016 foram parados. Nos primeiros meses do ano, vimos uma recuperação. Até maio, tínhamos um cenário com todo mundo muito otimista, com os indicadores econômicos melhorando. Parecia aquele Brasil de 2007. Não vou fazer nenhum julgamento político, mas o fato é que, após a delação, criou-se uma instabilidade no Brasil. Mesmo após esse episódio, tivemos importantes movimentos no mercado de capitais. Antes de maio, contudo, havia uma expectativa de reforma da Previdência. Agora, é de que poderá até ter essa reforma, só que mais conservadora. Mesmo com essa instabilidade, há previsão de novas operações no mercado de capitais. Acho que tem um otimismo cauteloso. Aqui no Brasil é um dia de cada vez. Há empresas sólidas e fortes, mas os bancos não estão dando crédito para empresas médias, que ainda têm estrutura de capital frágil. Vejo investidores estratégicos olhando ativos para fazer consolidação e os financeiros em busca de boas oportunidades.”

Bruno Amaral, responsável por fusões e aquisições do BTG: ‘Vejo uma diversificação de investidores’

“Há uma visão hoje de que a velocidade da agenda política econômica pode ser afetada. Havia uma expectativa de que a agenda (de reformas) estava definida, o que teve impacto positivo no mercado. Mas o ritmo dessa implementação pode ser alterado. Até o ano passado, o apetite por ativos no Brasil era de investidores mais agressivos, como chineses e canadenses. Há agora um leque maior. Vejo recomposição desses investidores. Multinacionais americanas e europeias recuaram no momento mais crítico da crise, mas podemos ver a volta delas. Já percebemos a volta de alguns investidores locais em transações de fusões e aquisições e estamos vendo uma diversificação cada vez maior de compradores para diversos setores. Neste momento, não há um cenário claro que afugente investidores, apesar do cenário ainda incerto das eleições de 2018. Não arrisco a dizer quem ganhará as eleições do ano que vem. É claro que esse ambiente pode mudar significantemente no ano que vem, se a agenda econômica for diferente da que a equipe atual está pregando. O perfil (de candidato) vai ter de ser de alguém que não pode ignorar a atual agenda e que navegue mais ao centro – nem tanto à esquerda ou à direita.”

Fábio Mourão, diretor de banco de investimento do Credit Suisse: ‘Não vamos virar uma Venezuela’

“O ambiente de negócios neste ano melhorou muito, se comparado a 2014 e 2016. Pode não ser o ideal ainda, mas houve mudanças relevantes. Se vai continuar assim, é difícil fazer projeções. Acredito que os movimentos de abertura de capital devem continuar. Tivemos transações grandes recentemente, com muitos investidores interessados, apesar desse ambiente (político) confuso. Os investidores estão mais cautelosos. O cenário externo é benigno – tem muita liquidez e baixos retornos fora do País. Se você analisar o Brasil, há muitas incertezas, mas está encaminhando dentro da lei. A expectativa é que, nos próximos três anos, o Brasil encontre o seu caminho, e acho que é isso que o mercado está precificando. Não vamos virar uma Venezuela. O Brasil continua atrativo. É só olhar as transações dos últimos meses. Os chineses, que são investidores de risco, estão olhando o Brasil como oportunidade de criar uma plataforma de negócios para avançar na América Latina. A lógica de fusões e aquisições a é seguinte: se tem bom negócio, mas o balanço está ruim, é oportunidade para comprar. Agora, se o negócio é ruim e o setor não ajuda, fica difícil achar comprador.”

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