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Economia

Nelson Barbosa

Barbosa reafirma política econômica, mas mercado já não presta atenção

Ministro defende reformas estruturais para recuperar a confiança, algum desafogo em canais de crédito e medidas fiscais de curto prazo

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Fernando Dantas

18 Março 2016 | 16h55

A recente especulação, posteriormente confirmada, sobre o convite ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para integrar o governo levou os analistas de mercado a discutir intensamente o que poderia acontecer com a política econômica. Uma guinada populista, ao gosto do PT? A tentativa de relançar a alternativa ortodoxa, chamando Henrique Meirelles para a Fazenda? Um meio termo entre os dois? Ou será que Lula no governo usaria toda a sua habilidade política para - como na clássica expressão - fazer a política econômica apontar a seta para a esquerda, agradando aos sindicatos, e virar à direita, conseguindo entregar mais ajuste fiscal e reformas estruturais?

É irônico, portanto, que poucos dias após muita conversa sobre essas angustiantes dúvidas, um discurso bastante detalhado do ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, sobre suas intenções e programa, seja recebido pelo mercado com relativo desinteresse. "Aqui na minha mesa os operadores não estão dando muita bola e eu só acompanhei os 'headlines'", comentou um gestor, referindo-se à apresentação de Barbosa no Fórum Brasil "Como Retomar o Crescimento", da Carta Capital, reportado em tempo real pelo Broadcast.

A razão para o pouco interesse é óbvia. O mercado passou a tratar o impeachment dentro de um prazo de tempo relativamente curto como seu cenário base e, neste caso, as intenções de Barbosa perdem a importância, porque ele será substituído.

Como, porém, em política nada é 100% garantido, é útil observar que o discurso de Barbosa hoje é uma reafirmação ponto por ponto da visão de política econômica que o ministro da Fazenda vem defendendo desde os tempos da sua relação de colaboração e confronto, quando ocupava o Planejamento, com o ex-titular da sua atual pasta, Joaquim Levy.

Em outras palavras, apesar de todo o caos econômico e político e da entrada (se e quando conseguir tomar posse) de Lula no governo, Barbosa sinaliza que não mudou nada em seu plano de voo, mencionando inclusive a reforma da Previdência que, segundo relatos da imprensa, o ex-presidente teria lhe dito diretamente, há poucos dias, para deixar de lado.

Em resumo, a visão de Barbosa é a de que encaminhar reformas estruturais é fundamental para recuperar a confiança e relançar a economia, junto com algum desafogo em canais de crédito e medidas fiscais tópicas no curto prazo, como a aprovação da CPMF. Um ponto polêmico e muito criticado no mercado, e que ele também reforçou, é a extensão do prazo das dívidas de Estados e municípios.

A recente euforia do mercado com a crescente probabilidade de que a presidente Dilma Rousseff sofra impeachment baseia-se na percepção de um grande salto de qualidade na política econômica. Uma das razões é que um novo governo ganharia capacidade política de sair da atual paralisia e tocar o seu programa.

A outra é que a própria política econômica teria um salto qualitativo, já que provavelmente seria calcada nas diretrizes bem mais ortodoxas e liberais do documento "Ponte para o Futuro", do PMDB.

Ambos os motivos podem ser verdadeiros, mas, quando se pensa no salto de qualidade em relação à política atual, há alguns complicadores. É evidente que a governabilidade recuperada daria mais condições para medidas como, por exemplo, a aprovação da CPMF e da Desvinculação da Receitas da União (DRU), que dão algum desafogo no curto prazo.

Mas quando se pensa em alguns dos pontos chave da "Ponte para o Futuro", como o fim da indexação de benefícios previdenciários ao salário mínimo, das vinculações orçamentárias para saúde e educação e da aposentadoria por tempo de contribuição, entre outros, não é evidente que, em meio ao sofrimento econômico de uma recessão brutal, a maioria da população brasileira aceitará passivamente essas medidas que tradicionalmente são percebidas como o suprassumo do antipopular.

Da mesma forma, a ideia de que um novo governo, em situação extrema de dependência de suporte político, suspenderá o acordo com Estados e municípios não parece sensata.

O sócio e economista-chefe da gestora JGP, Fernando Rocha, no Rio, diz que "os Estados estão com a corda no pescoço e certamente qualquer governo será pressionado a fazer alguma coisa para aliviar o caixa deles".

Rocha considera que uma mudança de governo traria melhora nas expectativas e maior cacife para realizar reformas estruturais, o que poderia em algum tempo tirar a economia do atual abismo. Mas ele reconhece que o sonhado upgrade da política econômica é menos simples do que a visão dos mais otimistas: "Os mercados sempre agem assim - hoje só se discute se haverá impeachment, mas, provavelmente, se e quando houver, o que acho provável, acontecerá uma realização (de ganhos), e aí a discussão passará imediatamente a ser sobre a capacidade do novo governo de realizar as mudanças", ele resume. 

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