Barulho por nada

Estagnação do País contrasta com permanente estado de excitação da sociedade

Fernando Dantas *, O Estado de S.Paulo

27 Outubro 2017 | 05h00

O Fundo Monetário Internacional (FMI) tem dados sobre a renda per capita dos países-membros desde 1980, no critério de “paridade de poder de compra” (PPP), que leva em consideração as diferenças de custo de vida.

Segundo os dados do FMI, a renda per capita em PPP do Brasil em 1980 era 38% da americana, e hoje é de 26%. Já a América Latina e o Caribe como um todo tinham 16% da renda per capita americana em 1980, e hoje têm 29%.

País símbolo da “cartilha neoliberal” nas últimas décadas, o Chile passou de 27% da renda per capita americana em 1980 para 42% em 2016. Os campeões do populismo, Argentina e Venezuela, estavam em, respectivamente, 50% e 62% em 1980, e recuaram para 35% e 24% em 2016. O México, porém, que a partir dos anos 90 buscou seguir uma via mais ortodoxa e liberal, também viu sua renda per capita cair como proporção da americana naquele período, de 44% para 33%.

Esse tipo de cálculo é muito complexo do ponto de vista metodológico, e os resultados não devem ser vistos como medidas precisas e absolutamente comparáveis de nível de desenvolvimento econômico. Ainda assim, são números úteis que ajudam a compreender a realidade.

O fato de a América Latina e o Caribe como um todo quase terem dobrado a renda per capita como proporção da americana de 1980 a 2016 pode ser em parte explicado pela presença de muitos países pobres na região no início desse período. É sabido que a transição das economias do nível de pobreza para o de renda média é bem mais fácil do que a da renda média para a riqueza. Em 1980, países como Argentina, Brasil, México e Chile já estavam no patamar de renda média, e tinham, portanto, uma tarefa de convergência bem mais difícil pela frente.

Por outro lado, os exemplos acima sugerem que o populismo econômico é veneno para o desenvolvimento no longo prazo.

Mas talvez o aspecto mais básico desses dados do FMI é o de que grandes países latino-americanos, como Brasil, Argentina e México, experimentaram paralisia ou até recuo no processo de desenvolvimento relativo (isto é, de convergência para o padrão do mundo avançado) nas últimas três décadas e meia. Nessa base de dados, os três até recuaram, mas, dada as imprecisões e variações desse tipo de cálculo, a depender da fonte, o mínimo que se pode dizer com segurança é que, definitivamente, não foram para frente.

No caso brasileiro, esse fenômeno de estagnação – que se repete também em outros indicadores, como qualidade de educação, cobertura de saneamento, violência, etc. – contrasta, de certa forma, com o estado de quase permanente excitação da sociedade (que já vem de muito tempo) em relação aos fatos econômicos e, principalmente, políticos.

Tomando-se o período pós-redemocratização, na economia houve o pesadelo hiperinflacionário, a redenção do real, crises externas, o período de ouro da era Lula e a maior recessão em um século.

Na política, sucederam-se fatos históricos marcantes como a campanha das diretas, eleição e morte de Tancredo, a nova Constituição, dois impeachments, escândalos como o mensalão e a Operação Lava Jato.

Diante de um enredo com tantas reviravoltas e emoções, não é de admirar que a sociedade esteja sobressaltada, polarizada, com os nervos à flor da pele. Grupos ideológicos opostos se radicalizam e o combate entre eles se torna cada vez mais encarniçado e sujo. A sensação é a de que cada embate é decisivo, o que torna ainda mais inflexíveis e raivosas as posições – afinal, é imenso o que está em jogo a cada momento, certo?

Errado, segundo os números acima, que mostram uma história monótona e manjada de país subdesenvolvido atolado na armadilha da renda média. Toda a atual histeria política nem tangencia as causas profundas da estagnação. Sem cabeça fria, busca de consensos mínimos e racionalidade, o Brasil continuará a fazer muito barulho, mas sem sair do lugar.

* COLUNISTA DO BROADCAST E CONSULTOR DO IBRE/FGV

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