Alex Silva/Estadão
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Ação do BC segura dólar só por 4 minutos

Crise política faz moeda americana subir 0,68% e atingir R$ 3,977; alta só foi contida após declaração de Eduardo Cunha favorável ao governo

Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo

22 Setembro 2015 | 02h01

A intervenção do Banco Central para acalmar o mercado de câmbio surtiu efeito por apenas quatro minutos. Ontem de manhã, a sessão de negócios abriu com o dólar em leve baixa em relação ao real, refletindo o anúncio dos leilões de linha (venda de dólares com compromisso de recompra no futuro) de até US$ 3 bilhões. Logo em seguida, porém, as preocupações com a política e a economia, e a tendência do mercado externo, levaram a mais um dia de alta do dólar no Brasil.

O dólar chegou a encostar nos R$ 4 no início da tarde, para depois fechar nos R$ 3,9770, em alta de 0,68%. Esse é o segundo maior valor para o dólar desde o lançamento do real, em 1994, perdendo apenas para os R$ 3,990 de 10 de outubro de 2002. Já a cotação para outubro, negociada no mercado futuro, subiu 0,95%, para R$ 4.

A intenção do Banco Central era acalmar os negócios no câmbio, após o dólar ter subido mais de 2% na sexta-feira. Mas o que reduziu a pressão de mercado ontem foram os comentários de Eduardo Cunha, presidente da Câmara, contra a derrubada de veto da presidente Dilma Rousseff ao reajuste dos servidores do Judiciário. O reajuste poderia agravar o problema das contas públicas.

"Os leilões do BC podem até dar um refresco no curto prazo, mas não resolvem o problema. Não há entrega definitiva de reservas, já que a instituição faz a recompra em alguns meses. E também é natural que o dólar suba", disse Pedro Paulo Silveira, da TOV CCTVM. Segundo Silveira, o mercado está embutindo nos preços do dólar a perspectiva de novo rebaixamento do Brasil pelas agências de classificação de risco.

"Não tem jeito. O que temos é a crise política e acabou. Enquanto não houver uma solução para o governo, enquanto a Dilma não se fortalecer, o dólar vai para cima mesmo", disse outro profissional de corretora, que preferiu não se identificar. "O mercado passou por cima dos leilões", disse João Paulo de Gracia Correa, superintendente regional de câmbio da SLW Corretora.

Na primeira operação, o BC vendeu o dólar a US$ 3,9767 e aceitou recomprá-lo em abril de 2016 a R$ 4,213980. Na segunda, vendeu a R$ 3,9767, com recompra em julho de 2016 a R$ 4,320002. Como o BC divulgará apenas na quarta-feira quanto foi vendido ontem, não se sabe até que ponto houve demanda pelos US$ 3 bilhões. No dia 8, o BC fez dois leilões de linha, também com oferta de até US$ 3 bilhões. Mas apenas US$ 300 milhões foram injetados no mercado, num sinal de que a demanda não foi tão forte assim.

Na prática, isso sugere que as altas mais recentes do dólar são conduzidas, principalmente, pela especulação no mercado futuro - e não pela busca por moeda no segmento à vista para remessas ao exterior, por exemplo. Na máxima do dia, o dólar para outubro marcou R$ 4,0125 e, às 12h41, a cotação à vista, no balcão, atingiu o pico de R$ 3,9970 (+1,19%).

"O dólar continua em alta, independentemente dos leilões, porque o mercado embute prêmio de risco na atual conjuntura. Há muita coisa em jogo", disse Cleber Alessie Machado Neto, operador da H. Commcor DTVM. "Por mais que muitos dos participantes do mercado queiram a saída de Dilma, a troca representa um risco."

Mercado futuro. A precificação do dólar já mostra a moeda americana em patamares bem mais altos em 2016, segundo cálculos do professor de Finanças Alexandre Cabral. Considerando a curva futura de juros, os preços do FRA de cupom (tipo de derivativo cambial) e a moeda para outubro (a mais líquida no mercado futuro), o mercado já trabalha com um dólar perto de R$ 5,15 em maio de 2016. Para julho do ano que vem, a cotação está próxima de R$ 5,97.

Ontem, após comentários de autoridades do Fed (Federal Reserve, BC dos EUA), o dólar se valorizou frente à maioria das principais moedas globais.

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