André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

‘BNDES competir com o mercado é uma estupidez’

Para novo presidente do banco, instituição terá de passar a trabalhar em parceria com o setor financeiro privado

Entrevista com

Dyogo Oliveira, novo presidente do BNDES

Adriana Fernandes e Idiana Tomazelli, O Estado de S. Paulo

09 Abril 2018 | 05h00

BRASÍLIA - Para tirar o Banco Nacional de Desenvolvimento e Social (BNDES) da paralisia atual, o novo presidente da instituição, Dyogo Oliveira, vai mudar todos os processos internos decisórios. Terceiro presidente em menos de dois anos, o ex-ministro do Planejamento quer conduzir a "virada" do BNDES para uma nova realidade da economia com juros baixos. Na sua avaliação, o banco ainda é muito "quadradão" e precisa oferecer novos produtos.

Ele rechaça as críticas de que o BNDES está se apequenando para atender aos interesses dos grandes bancos privados nacionais e estrangeiros. Pelo contrário, diz ele, o banco tem que atuar em parceria e suprir a falta de crédito para as empresas e negócios que não tem acesso a dinheiro barato.

"O BNDES não foi desenhado para competir com o mercado", disse, em entrevista ao Estadão/Broadcast. Oliveira considera que as grandes empresas com acesso ao mercado não precisam do financiamento do banco de fomento, mas afirmou que não faltar dinheiro no banco para financiar a retomada da economia.

O BNDES está praticamente parado. O que sr. vai fazer para mudar esse quadro?

A área de infraestrutura tem que se modernizar, usar outros instrumentos além do financiamento tradicional. Precisa avançar para ter, pelo menos, estruturas de financiamento "non recourse", que usam como garantia a própria estrutura do projeto. Se o projeto tiver viabilidade, essa garantia de valor presente vai ser maior do que o financiamento. Facilita a execução do projeto com os próprios recebíveis. Vamos atuar também por meio do mercado de capitais comprando debêntures e operações sindicalizadas.

Dá para tirar o banco da paralisia nos meses da sua gestão?

O banco não está parado. Desembolsou R$ 70 bilhões em 2017. É muito dinheiro. Dá para aumentar. Com certeza, é possível fazer muita coisa ainda. Agilizar os processos e lançar novos produtos.

O quadro não é dramático?

O banco enfrenta dificuldades e é preciso uma série de ações para restabelecer a normalidade, a maior parte de gestão interna. O banco avançou no planejamento estratégico. Vamos dar uma ajustada nesse processo. Tem que revisar os processos internos, a maneira como as operações são organizadas e aprovadas, reduzir os prazos, fazer mais rápido. Os modelos de financiamento têm que ser mais flexíveis. Não é só acelerar. Tem que ter mais produtos, mais adaptados a cada tipo de empresa, de projeto. O banco ainda é muito quadradão: 'o meu negócio é assim que funciona, se você quiser você pega'.

Qual a sua prioridade?

Vamos priorizar a parceria com o setor privado. Essa é a prioridade. Vamos facilitar a utilização de recursos privados nos projetos. No foco de ação, colocamos a inovação, tecnologia, desenvolvimento de novas empresas, negócios; as pequenas empresas, porque nesse mercado o banco tem ainda vantagem, o custo para esse grupo de empresas é vantajoso e tem espaço para avançar; a infraestrutura e a área de comércio exterior. O banco tem que suportar o aumento das exportações brasileiras e fomentar produtos manufaturados.

+ 'Ciclo de crescimento do País durará de 10 a 12 anos', diz Dyogo

Sua chegada ao BNDES vai ajudar no processo de privatização da Eletrobras?

O BNDES tem um papel fundamental, que é o de conduzir o processo, fazer estudos. Vamos dar prioridade à Eletrobras, começando pelas distribuidoras.

Em três meses as distribuidoras podem sofrer liquidação. Há esse risco?

O leilão está marcado antes desse prazo. Vai dar tempo.

Como o BNDES vai ajudar nesse processo?

A privatização da Eletrobras é uma oportunidade para o País passar a ter uma empresa de classe mundial na área de energia. Hoje temos uma empresa descapitalizada, que não está participando nem dos leilões aqui no Brasil, que não tem perspectiva de investimentos no curto prazo, que tem dificuldades gerenciais e administrativas, nível de endividamento elevado. É uma empresa em dificuldades. O modelo de privatização, que é na verdade uma capitalização da empresa, pressupõe trazer o dinheiro para habilitar a empresa a voltar a investir, melhorar seus indicadores, passar a ter uma gestão mais eficiente, focada no seu negócio.

Dá para fazer ainda este ano?

Vamos trabalhar para isso.

O banco quer abrir uma agência fora do País para captar. O sr. apoia essa ideia?

É um bom caminho nesse formato do banco, que é o de canalizar e viabilizar projetos em vez de dar subsídios. Se precisa ter ou não agência, eu vou analisar.

Por que o banco não fez nenhuma captação externa até agora?

Ele está com o caixa cheio.

Qual o impacto do processo de pré-pagamento das empresas por conta da queda dos juros?

Qual a empresa que pode fazer isso? Uma relativamente grande que tenha acesso a mercados de capitais e financiamento mais barato. Essa empresa, em princípio, não deveria ter financiamento do BNDES. É uma empresa que consegue captar barato no mercado.

Que empresa terá dinheiro do BNDES?

As empresas que não têm acesso ao mercado de capitais barato, nacional e estrangeiro.

Foram essas que tiveram acesso aos recursos do banco nos últimos anos?

O BNDES não foi feito para isso. Desvirtua o seu papel. Se a empresa pode ter um financiamento no mercado, não faz sentido. Não vejo problema as empresas estarem pré-pagando. O que era um problema, que acontecia muito, era as empresas pegarem dinheiro no BNDES para aplicar no mercado e ganhar mais. Isso aconteceu em volumes consideráveis. Estava errado. Temos que focar nos setores que agregam valor ao País e trazem produtividade.

As grandes empresas, chamadas de campeãs, não vão ter mais acesso ao BNDES?

Não estão proibidas. Mas o foco não pode ser esse.

Mas no setor de infraestrutura as empresas são muito grandes.

Sim, mas não têm mercado. Precisam de 20, 30 anos de prazo e não conseguem captar isso no mercado facilmente. O BNDES pode ser o dínamo do mercado de debêntures de infraestrutura, estruturar as operações no formato que seja securitizável. Hoje, ele encarteira.

Tudo isso já não estava desenhado?

Mas estamos no mesmo governo! Inclusive o BNDES é ligado ao Ministério do Planejamento. O banco vai passar por uma grande mudança cultural. O formato de atuação até hoje é diferente do formato que o BNDES vai ter daqui para frente. O grande trabalho será convencer as pessoas dessa mudança e fazer com que elas comprem esse novo BNDES. Isso não é trivial. O BNDES tem que se reinventar. Esse é o grande desafio que vai durar os próximos cinco, dez anos. A grande mudança para o BNDES é que vai haver taxa de juros barata na economia toda. Com a Selic de 6%, todos os fundos de pensão estão procurando onde aplicar dinheiro. Os fundos de investimento também. Durante toda a sua história, o BNDES tinha os juros mais baratos da economia. O banco não vai morrer, vai fazer uma transição. Vai passar a atuar em outras áreas como dinamizador da inovação, da tecnologia, do investimento. O BNDES vai atuar de maneira mais ágil e flexível, adaptada à necessidade do seu cliente. Vamos lançar mais produtos.

Como o BNDES vai enfrentar os bancos privados?

O banco vai trabalhar em parceria com os privados. O BNDES não foi desenhado para competir com o mercado. O conceito do BNDES é que havia uma falha de mercado na oferta de crédito para investimentos, principalmente de longo prazo. Em algum momento, o BNDES se expandiu de tal maneira que expulsou o mercado. Ao ponto de as empresas pegarem o dinheiro no BNDES para aplicar.

Alguns bancos falam em querer tirar mercado do BNDES.

É natural que o mercado avance, se desenvolva. Se o mercado oferecer crédito de longo prazo, a 15 anos, 20 anos, 30 anos, isso é muito bom para o País. Quer dizer que o BNDES não precisa fazer isso, vai fazer outra coisa. O princípio do BNDES tem que ser atender a uma necessidade do País que não está sendo atendida de outra maneira. Competir com o mercado é estupidez.

Mesmo com pagamento de mais R$ 100 bilhões pelo BNDES ao Tesouro, ainda restarão recursos que estavam em renegociação de contratos. O sr. vai continuar isso?

A maior parte dos recursos está emprestada ou aplicada nos projetos das empresas. É preciso coadunar esse fluxo de pagamentos com a devolução dos empréstimos ao Tesouro.

A área técnica do TCU defende um calendário para as próximas devoluções. O que o sr. acha?

Acho que é isso, temos que coadunar. O BNDES já devolveu valores e ainda tem mais R$ 100 bilhões que vai devolver este ano. Daí para frente, tem que haver um equilíbrio entre o fluxo de devoluções para o Tesouro e o fluxo de pagamento das operações, de modo que haja o casamento das coisas.

Seu antecessor, Paulo Rabello de Castro, resistia às devoluções dizendo que faltaria dinheiro para atender à demanda de crédito. Vai faltar?

Não vai faltar recursos para o BNDES fazer a política de incentivo ao investimento no Brasil, até porque a nossa estratégia envolve captações de recursos no mercado.

O BNDES vai devolver o dinheiro do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador)?

Não analisei essa questão, mas até onde conheço, quem decide isso é o FAT. O FAT pode requerer e ele precisa desse dinheiro.

O BNDES vai vender sua participação na JBS?

Essas operações são todas protegidas por sigilo. Não posso fazer nenhum comentário exceto o fato de que sempre buscaremos tomar decisões dessa área de modo a gerar o melhor resultado para o BNDES e para o País.

O caso JBS provocou uma fissura no banco, funcionários foram levados à PF para depor e temem também o TCU, não querem assinar documentos.

O banco sofreu muito com essas questões todas, mas temos que dar a volta por cima, sacudir a poeira e tocar em frente.

O governo tem se antecipado e feito consultas prévias ao TCU. Isso vai continuar?

Vamos continuar trabalhando nisso. É por aí o caminho. Não temos nada a esconder, então não há motivos para nos afastarmos dos órgãos de controle. Temos que abrir as portas do banco, mostrar as coisas.

O presidente Michel Temer anunciou uma linha de crédito para segurança a Estados e municípios e gerou críticas sobre abertura do caixa em ano eleitoral. Como o sr. vê isso?

Está lançada a linha. O que tem que se fazer é uma análise criteriosa de cada solicitante para saber se efetivamente eles têm capacidade, se têm garantias para oferecer. O tema da linha, não dá nem para discutir a necessidade que o País tem hoje de investimento na área de segurança. Com ou sem ano eleitoral, o que a gente puder fazer para reduzir criminalidade e trazer um pouquinho mais de segurança para o cidadão brasileiro, é mais do que justificado.

Mas será um foco do BNDES emprestar para Estados e municípios?

Não, isso não será um foco do BNDES.

Por que o sr. deixou de ser ministro para ser presidente do BNDES?

Primeiro, porque o presidente mandou. Sou servidor público, ele é meu chefe... (risos).

E agora seu subordinado vai virar seu chefe. Como vai ser isso?

Se seu chefe te mandar trabalhar em São Paulo, você vai, não vai? Então pronto (risos). É uma missão do presidente, ele acha importante valorizar o banco, colocar alguém de peso lá. Não era meu desejo, não era o que eu queria, mas...

O banco vai mudar de diretores?

Vamos avaliar. Eles fizeram lá uma dança das cadeiras, eu vou avaliar isso com cautela.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.