BNDES quer usar R$ 10 bilhões do FGTS para financiar usinas

Proposta prevê empréstimos para projetos da Odebrecht, como a Usina de Santo Antônio e o aeroporto do Galeão

Murilo Rodrigues Alves, O Estado de S.Paulo

23 Junho 2015 | 02h02

BRASÍLIA - O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) quer usar os R$ 10 bilhões de reforço do fundo que conta com recursos da poupança forçada dos trabalhadores para financiar projetos de infraestrutura de energia e logística, como a Hidrelétrica de Santo Antônio e a usina nuclear Angra 3, os aeroportos de Galeão e de Guarulhos e até mesmo um terminal privado, localizado às margens da Rodovia Castelo Branco.

O Estado obteve a relação dos empreendimentos que o BNDES apresentou ao fundo de investimento que usa os recursos do FGTS (FI-FGTS) para aplicar em projetos de infraestrutura. No total, as sugestões somam R$ 10,8 bilhões. A análise será feita na próxima reunião do comitê de investimento - que conta com representantes do governo, dos trabalhadores e dos patrões -, marcada para esta quarta-feira, 24.

Depois que o conselho curador do FGTS autorizou o reforço do caixa do banco com os recursos do fundo, os desembolsos para esses projetos, que já estão em obras, dependem do aval do comitê do FI-FGTS e da aderência deles às regras do fundo de investimento. Se algum deles for recusado, o BNDES terá que trocá-lo por outro.

Na relação entregue pelo BNDES estão aportes de R$ 45 milhões na Usina Hidrelétrica de Santo Antônio. Os membros do comitê podem ponderar que essa usina em construção no Rio Madeira, em Porto Velho (RO) já recebeu R$ 2 bilhões em financiamentos do fundo, segundo o último balanço. O consórcio construtor da usina é formado pelas empreiteiras Odebrecht e Andrade Gutierrez, cujos presidentes foram presos na última sexta-feira, em mais uma fase da Operação Lava Jato, da Polícia Federal, que investiga corrupção na Petrobrás.

Mário Avelino, presidente do Instituto do Fundo Devido ao Trabalhador, acredita que as prisões dos chefes das empreiteiras não impedirão os desembolsos, já que as operações foram aprovadas pelo banco de fomento. "Pouca coisa deve mudar, a não ser que sejam forçadas pela opinião pública", afirma. No entanto, o Estado conversou com membros do comitê que decide os aportes, sob condição de anonimato, e eles disseram que muitos projetos da lista vão ser "contestados". Para o professor de Finanças do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec) no Rio de Janeiro Gilberto Braga, o trabalhador brasileiro deveria poder escolher onde aplicar o dinheiro que é obrigado a poupar, assim como fez quem decidiu investir na Petrobrás e na Vale.

Energia. Pela lista, a maior parte dos recursos será investida em energia - 31,3% do total que está sendo pedido. Serão R$ 400 milhões à usina nuclear Angra 3, cujas obras foram reiniciadas em 2009 pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva, depois de 23 anos paradas. A usina também faz parte das investigações da Operação Lava Jato.

A maior parte dos aportes em energia deve ser feita à Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf), empresa do grupo Eletrobrás. O BNDES quer colocar R$ 1,2 bilhão do FI-FGTS em dois projetos.

Rodovias devem receber 27,5% do total dos recursos. Entre as contempladas devem estar a BR-040 (R$ 331,7 milhões) e BR-050 (R$ 105 milhões). As concessionárias CCR, Transbrasiliana, Viapar e Via Bahia também serão contempladas.

Os projetos em ferrovias abocanharão 21,7% do total, sendo que a Vale deve receber aportes de R$ 1,7 bilhão, dos R$ 2,3 bilhões destinados ao setor, para a construção de um ramal ferroviário que viabilizará a implantação do maior projeto de minério de ferro da companhia. O ramal liga a mina de Serra Sul de Carajás à Estrada de Ferro Carajás, no Estado do Pará.

 

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